Chove chuva, chove sem parar.
Jorge Ben
A “manhã” está tão fria, chove lá fora.
Esta saudade enjoada não vai embora.
Onde estás, como estás,
com quem estás agora?
Tito Madi
Naquela manhã de sábado, ela
acordou tranquila. Meio preguiçosa, como não poderia deixar de ser, já que
chovia aquela chuvinha mansa e constante, nublando o céu, e escondendo a cidade
sob uma névoa estranha e desconhecida para os padrões tropicais.
Cada dia mais, Valentina
confrontava suas atitudes atuais com as suas atitudes de outrora, e ficava
pasma ao ver o quanto havia mudado.
Nada de ansiedade, nem
tristezas, nem dúvidas. Apenas uma calma interior, um sossego, tranquilidade em
tudo e por tudo.
Ocasionalmente, dias chuvosos a
deprimiam. Traziam-lhe uma tristeza funda, uma saudade de si mesma, um
descontentamento sem motivo. Nunca gostou de chuva. Só à noite, quando ainda
menina e sua mãe ou seu pai seguravam-lhe as mãozinhas até ela dormir, e aquele
bater da chuva no telhado ia embalando seu sono, até ela se desligar do mundo
que a cercava.
Era bom.
Depois mais tarde, quando já
adulta e morando no campo, Valentina gostava de reconhecer os sons diferentes
que a chuva e o vento faziam ao tocar as árvores, o telhado, o cimentado do
terreiro de café. Nestas ocasiões, se aninhava nos braços de Sergei e adorava
pensar que estava viva, casada, e sentia-se amada e feliz. Como era bom estar
casada com o grande amor da sua vida!
As circunstâncias da vida mudam
as pessoas, moldam as pessoas, renovam as pessoas, se elas se deixarem renovar.
Manhã de um sábado. Na noite
anterior, foi jantar com uma amiga, depois assistiu uma leve e engraçada
comédia de amor. Não pense que é redundância. Não. Pois nem todas as comédias
são engraçadas como se propõem. Gosta de graça sutil, inteligente, nada usual.
Quando a maturidade chega, duas
coisas podem acontecer: ou você se torna plena de carinho, de afetos, de
amizade, de alegria e com a completude de quem sabe o que quer, o que viveu, a
recordar o passado sem remorsos ou sentimento de culpa – ou, então, vive uma
vida amargurada, pensando no que perdeu, no que viveu e não vive mais,
fechando-se para vida, para o outro, para as alegrias que ainda pode ter e
sentir.
Felizmente, Valentina pertence
ao primeiro grupo. Ela é feliz por ela mesma. É atávico e não há nada neste
mundo que consiga roubar-lhe sentimentos bons de alegria e esperança. Sua
tristeza dura uma noite, como diz o salmista ou o proverbista, foge-lhe agora a
exatidão de quem seja que disse estas palavras, mas sabe a continuidade delas:
a alegria vem pela manhã.
Leva sua vida entre seus
discos, seus livros, suas pinturas, seus amigos do mundo virtual, ou do mundo
real. Todos lhe dão um sentido de estar conectada com o universo e com a vida
em si, de uma maneira mais íntima e coesa dentro do macrocosmo. A vida é boa.
Claro que vê e sente as vicissitudes que a vida lhe impõe. Nem sempre tudo
decorre na calma que gostaria, mas sabe que viver traz em seu bojo coisas boas
e coisas não tão boas e, de quebra, coisas péssimas.
Já disse alguém que sem
sofrimento não há crescimento e que, embaixo de árvore frondosa, não cresce
grama. Adorou este conceito simples, mas verdadeiro dito pelo amigo querido.
Todos têm momentos de
introspecção e pensamentos de sonhos e derrotas, Valentina sabe disso, mas
aprendeu a administrar suas desesperanças e desapontamentos e sempre acreditar
no amanhã. Tudo muda, nada é para sempre. Como dizia sua mãe, passa o bom e
passa o ruim, e depois de passados, ambos não existem mais: são simples
lembranças. Memórias… e memórias só existem na nossa cabeça. Já não fazem parte
do mundo real. Ou será que elas é que são nosso mundo real?
Não sei. Valentina também não
sabe. O que ambas sabemos é que tudo conspira pra que saibamos que o que
passou, passou, e que o que temos hoje é o que realmente importa.
Só poderemos estar bem no
amanhã, se o nosso hoje for plenamente vivido, observado e usufruído.
A vida flui e deflui, como um
rio. Valentina gosta dessa imagem. O rio vai em frente, serpenteando por
margens limpas e verdejantes, outras vezes por barrancos feios e sujos, mas não
para jamais. Vai que vai. Leva em seu correr, música e beleza, mas, algumas
vezes, leva terra barrenta e suja. Lixo… Não importa, sua meta é chegar, nem
sabe onde, é verdade, mas caminha, sempre em frente molhando margens,
carregando peixes, matando sede, enfeitando paisagens. O rio é a coisa mais parecida
com a vida que se tem nesta terra. Por isso gostamos, Valentina e eu, das
palavras de Cecília Meirelles: “Sou como um rio que flui e deflui!”.
Nestes dias frios e meio
solitários, com a casa quieta, sem barulho de filhos, ou netos ou amigos, ou irmãs,
Valentina gosta de mexer em suas coisas. Textos escritos, poemas impressos,
cartões recebidos, seus livros, seus CD’s, fotos, suas pinturas, e fica
pensando o que farão os filhos com tudo isso, quando ela se for.
A gente passa a vida escolhendo
coisas a serem guardadas, separando-as em pastas, em cadernos, em arquivos,
arrumando-as em gavetas ou estantes e, nos finalmente, elas dizem de perto
apenas a nós. Fazem parte da nossa existência e ao outro, tudo isso não sabe a
nada.
Farão por certo uma grande
fogueira, sim, grande, porque ela é a rainha dos guardados… Ri de si mesma, ri
pra si mesma e sente-se feliz com o que fez durante estes não tão longos anos.
Digo isto, porque pra Valentina
a vida passou muito rápida. Como diz o proverbista, agora com certeza: “A vida
é um conto ligeiro”.
Tudo pra ela é tão real, tão
hoje, tão nítido e vívido, que é capaz de fechar os olhos e sentir o gosto, o
cheiro e a presença dos que povoaram sua vida. Mas o interessante disto tudo é
que nada disso, nem todas as lembranças do seu mundo, a fazem se esquecer de
viver o presente. Sua vida é hoje. Suas emoções são de agora, e seus desejos
reais, como esta chuva fina que insiste em cair, molhando esta manhã deste sábado
de julho.
Manhã fria, pedindo um café
quente, um leite adoçado como o da infância, pedindo a companhia de alguém. Um
alguém qualquer, que a fizesse compartilhar essa preguiça de uma manhã meio
cinzenta.
Sim, Valentina ainda sonha com
o amor pleno e completo de um homem que entenda o poder das palavras e o poder
do silêncio. O poder das mãos que acariciam e o poder da presença quente e
acolhedora de braços que saibam abraçar sem usura.
Quando ainda na cama, esta
manhã, muitos pensamentos vieram-lhe à cabeça. Recapitulou a maneira de ser e
agir dos filhos. Pensou na alegria que sente em ser avó, sentiu-se plena por
estar vivendo numa era de tanta modernidade e tecnologia, e satisfeita por ter
vivido em época mais amena e calma. A vida moderna é assustadora, com seus
perigos eminentes de violência, medo, doenças desconhecidas. A vida moderna nos
torna gigantes ou pigmeus. Não podemos nos ausentar dela. Vivemos o dia-a-dia
incrustados nestas maluquices que nos assombram e nos fazem temer sair às ruas.
Contudo, a natureza humana traz embutida dentro de si mesma um alienamento necessário, que nos faz caminhar pelos acontecimentos sem que nos deixemos arranhar demais. E vamos levando a vida como se tudo fosse um mar caribenho em tardes turquesa de verão.
Contudo, a natureza humana traz embutida dentro de si mesma um alienamento necessário, que nos faz caminhar pelos acontecimentos sem que nos deixemos arranhar demais. E vamos levando a vida como se tudo fosse um mar caribenho em tardes turquesa de verão.
Esse mecanismo de ausência
presente é a nossa defesa e garantia de sobrevivermos neste caos instalado de
injustiças, tristezas, misérias, desconforto e insanidade. Há deslumbramentos a
serem sentidos, há pessoas maravilhosas a serem conhecidas e amadas. Há lugares
lindos a serem conhecidos e descobertos em meio a este caos. Mas o caos está
aí, nas nossas barbas.
Paradoxo? A vida é um paradoxo!
O ser humano tem uma dualidade incrível e inexplicável embutida em si mesmo, na
sua maneira de ser e estar no mundo.
Todos temos sentimentos
ambíguos de ser e não ser, de estar e não sentir, de viver da melhor maneira
possível, mesmo em meio às tragédias que nos cercam.
A vida é um circo. Temos
espetáculos diários de trapezistas atuando com concentração inconteste para não
despencar das alturas, temos equilibristas tentando a travessia até o outro
lado do abismo, pisando em corda bamba, e temos palhaços nos fazendo rir às
gargalhadas, mesmo que estejam sofrendo dores na alma ou no corpo. Não pode
chover muito porque o circo é de lona, não pode o sol ser escaldante demais
porque a lona é colorida e desbotará. Não pode ter amarras, nem fronteiras
permanentes, nem nada ser definitivo, porque o circo é itinerante. A vida é
como o circo, sim – passageira num mundo também passageiro.
O público está lá. Pronto a
aplaudir ou não. O espetáculo tem de ser bom. Sempre! Não importa o sentimento
de quem o produz. Somos todos palhaços, equilibristas, trapezistas ou atores da
peça que se representava nos circos de antigamente. Vamos seguindo em frente,
nos mudando, nos moldando aos tempos e às circunstâncias. Somos sobreviventes.
Valentina sabe disto tudo.
Valentina gosta de estar viva e sentir a vida. Vida pra ela vai desde uma
canção ouvida muitas vezes, ou de um perfume bom que lhe faz sentir cheirosa e
feminina. A vida pra Valentina passa pela camisola de seda que veste e a faz
sentir mulher, e a comida bem feita que coloca sobre a mesa arrumada como se
fosse receber visitas pro almoço ou jantar. Desfruta o café da manhã como se
fosse a última refeição a ser feita.
Vida é viver todas as coisas
com plenitude de alma, coração e corpo. Vida é ter amigos, falar com os filhos,
estejam onde estiverem, e vê-los pela webcam, rir com eles e ouvir-lhes os
feitos, os sonhos, as vivências diferentes em cada um deles e que a um só tempo
os faz tão iguais e tão diferentes. Vida é saber que Deus a guarda, a conforta
e a enche de esperança.
Vida é sonhar dormindo e contar
o sonho pela manhã àquela pessoa que estiver presente em seu dia. Vida é também
sonhar acordada, fazer planos de realizar coisas, de Natais que ainda virão, de
verões na praia e invernos nas montanhas. Vida é sonhar com viagens ainda não
realizadas e relembrar as já realizadas.
Vida, para Valentina, é estar
viva. Bênção maior que esta não pode haver. Como ela gosta de dizer, e já o fez
diversas vezes: vida doida, vida doída, mas eita vida boa!
Sua manhã de sábado está indo…
como tudo neste mundo, que nunca sossega. Logo, vai tomar mais um café, fazer
alguns telefonemas e tomar seu banho. Terá que sair. Vai buscar sua roupa nova
que mandou embainhar. Vai vesti-la hoje nem que seja pra ir à padaria comprar
pão… mas vai vesti-la. Rio-me do jeito dessa mulher ainda tão menina em seu
interior. A vida não roubou a infância feliz de Valentina. Ela é ainda a menina
que, não mais de trancinhas enlaçadas por fitas de tafetá xadrez, canta muito.
Canta canções de amor, canta
canções tristes, canta enquanto pinta, enquanto faz um doce, enquanto arruma. Quando mergulha dentro de si
mesma, vem à tona:
Eu fui no Itororó,
Beber água, não achei.
Encontrei bela menina,
Que no Itororó deixei…
Aproveite minha gente
Que uma noite não é nada…
Se não durmo lá de noite,
Durmo lá de madrugada…
E em suas lembranças mais
antigas, lá esta ela, balançando em sua cadeirinha de balanço, cantando com sua
vozinha rouca, rindo à toa, feliz com a família à sua volta, sempre a
aplaudindo em tudo o que fazia. “Cante, Valentina, cante, que o papai quer
ouvir…”.
* * *
Viva a Vida. E muitos vivas
para uma vida de Valentina!
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