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sábado, 6 de junho de 2015

A boa terra




“Se não há luta, não há progresso."

A boa terra, da escritora americana Pearl S. Buck, é um romance surpreendente, intenso, repleto de sentimentos e de emoções. Um romance de beleza simples. É, acima de tudo, um vislumbre da vida dos camponeses chineses e das mudanças sociais que afetavam suas tradições.

Desde o início, o livro apresenta uma narrativa cativante. O romance começa no dia do casamento de Wang Lung, um humilde e silencioso camponês chinês que vive com seu pai; sua mãe havia morrido seis meses antes. Sua noiva, O-lan, que ele ainda não conhecia, é uma escrava numa casa da alta sociedade, onde Wang adentra totalmente envergonhado por sua aparência pobre - Wang é um agricultor que carrega o peso de viver uma existência precária.

Ao longo dos meses, O-lan se junta a Wang em sua lavoura, mesmo quando engravida. A colheita é próspera. Por diligência e frugalidade os dois conseguem ampliar sua propriedade. A família cresce e quando tudo indicava mais e mais prosperidade veio a seca obrigando-os a tentar a vida no sul do país. Mendigam para sobreviver, no entanto, viver naquela cidade acaba por ser uma bênção disfarçada para eles. Wang Lung tinha a convicção de que um dia voltaria para a sua terra e não demorou muito para isso acontecer.

Wang Lung foi muitas vezes desprezado por aqueles que tinham instrução ou uma habilidade para o comércio, e muitas vezes as pessoas o chamavam de "Wang, o agricultor" de forma depreciativa e seguravam o nariz expressando o desprezo para o alho que ele comeu. Mas, apesar disso, o pequeno camponês tinha um orgulho muito grande da terra que possuía, e esse orgulho é a sua característica mais distintiva. A terra era tudo para ele. Seu discurso final no romance diz respeito à importância de manter sua terra e nunca vender até mesmo uma pequena parte dela.

Alguns críticos afirmam que Pearl S. Buck não escreveu apenas sobre um fazendeiro chinês, mas sobre um fazendeiro universal, aquele que sabe que suas riquezas e sua segurança vêm da própria terra. Este conceito dá uma universalidade ao romance. A importância disso tudo reside no conhecimento que a autora tem da China e dos chineses. Sua vida nas áreas rurais da China também deu a ela uma visão profunda sobre o pensamento do camponês chinês, algo que Mao Tse-tung descobriu enquanto planejava sua revolução. A história comprova que o líder comunista, eventualmente, veio a depender de agricultores como Wang Lung, com a sua força de caráter, como um núcleo de seus revolucionários.

A autora sutilmente, em leves passagens, citou os conflitos políticos que a China enfrentava nas décadas de 1920 e 1930 sem se desviar das experiências da família de Wang. O camponês via e pouco entendia do mundo lá fora, e é assim que o leitor o acompanha.

Muitas vezes um escritor evidencia seu estilo narrativo, Pearls S. Buck preferiu imprimir um tom jornalístico sem ser documental. E se saiu muito bem. Isto é talento. É talento por que o autor desaparece por trás dos personagens e eventos, sem interferência, sem abusos, sem ser comercial e sem oferecer aquela leitura de caráter comestível, mas sendo ao mesmo tempo - efeito causado pela dinâmica psicológica, optando em colocar os pensamentos dos personagens no direcionamento de diversos acontecimentos.

Infortúnios, prosperidade, erros e acertos permeiam a vida de Wang Lung durante décadas. "Quando a terra sofre, as mulheres sofrem. Quando as mulheres sofrem a terra sofre." A autora capturou isso tão bem em seu livro! O-Lan gera seus filhos e encoraja Wang Lung a prosseguir em seus sonhos, não importando se isso implicaria em sacrifícios por parte dela. O-lan é tão básica como Wang Lung. No dia do casamento, quando ela humildemente segue seu marido, ela é vista como um modelo, em alguns aspectos, da esposa chinesa perfeita: humilde e subserviente. Na verdade, O-lan é tão silenciosa que Wang Lung nunca sabe o que ela está pensando. É tão engenhosa que Wang Lung (assim como os leitores) é constantemente surpreendido com a sua capacidade de se adaptar a todas as situações. Durante muito tempo tiveram sucesso em suas colheitas. No entanto, com o sucesso vem a ganância e a corrupção. Eventualmente, ele toma uma segunda esposa e quebra os laços com todos ao seu redor. O tempo todo O-Lan apoia suas decisões aparentemente de forma serena e estoicamente suporta tudo. Foi preciso uma tragédia para Wang Lung ver os erros que cometeu.

Passei a maior parte do tempo da leitura admirando e me alegrando com Wang Lung. Porém, por vezes senti raiva deste personagem exageradamente conservador, provinciano (lembrando que ser provinciano não é um problema de origem ou de condição financeira, é uma forma de ver o mundo) e machista (mas a China toda era assim, quase o mundo todo naquela época era machista e, me desculpe se exagero, repleto de homens misóginos). Mas sendo uma questão cultural, só resta ao leitor relevar. Com tolerância, claro.

Esse seu conservadorismo e provincianismo chegavam a ser irritante. Wang achava que a verdade estava limitada ao seu território, apesar de que nem sempre impedia que outras ideias invadisse seu espaço, e quando isso ocorria encarava como ameaça ao seu ideário construído e acabado, mas, no fim, considerava e pensava a respeito.

Seu machismo segue o que a cultura determinava na época, mas foi muito penoso acompanhar o sofrimento das personagens femininas que aceitam tudo silenciosamente ou com pouquíssimas manifestações. Impossível não se comover com a vida de O-lan. Poucos leitores lidam friamente com os maus-tratos das mulheres deste romance. No entanto, a autora não perdeu o ponto, acertadamente não tentou defini-las como paradigmas da moralidade. Mais uma vez, cabe ao leitor apenas entender que se trata dos costumes da China.

Sem querer contar muito do enredo, o sucesso de Wang é subscrito por sua vontade de ouvir a sua esposa, a maior parte do tempo, e ao amor à sua terra, que para ele é sagrada. No final, ele começa a perceber que sua esposa, como a terra, é a fonte de sua riqueza e felicidade.

Um romance cativante e inesperadamente brilhante que possui duas sequências: Os filhos de Wang Lung e A casa dividida – provavelmente tão bons quanto o primeiro da trilogia. Se eu tivesse que escolher uma palavra para descrever A boa terra, seria, indiscutivelmente: “autêntico”. Um clássico, sem dúvida alguma.


Márcio Luiz Soares

Ilustração: John Thomas Biggers (Pearl S. Buck's "The Good Earth" - 1964)

domingo, 10 de maio de 2015

Parte da trilha




Para alegria de fãs como eu, Susanne Sundfør foi convidada pra cantar a música tema do filme Oblivion. E ela arrebentou mais uma vez. Dona de um vocal espetacular e esplêndido essa cantora norueguesa comprova que qualquer projeto que a envolva é garantia de sucesso. Principalmente quando se junta a produtores de peso como o M83. 

A música, que também se chama Oblivion, que no filme só toca durante os créditos finais, é de uma melodia rebuscada e arrebatadora. Susanne solta a voz em grande estilo, entregando-se aos versos com muito sentimento, de forma incondicionalmente tocante, empregando um toque mágico - é de arrepiar. Sua flexibilidade vocal permite um desempenho inebriante. Não é à toa que esta música, assim como muitas outras de suas canções, faz parte da minha trilha sonora. Essa música é absolutamente brilhante, imponente e deslumbrante. Duvida? Então confira.


Aqui, a versão original com cenas do filme. E aqui você confere a letra (com tradução).


Márcio Luiz Soares

sábado, 25 de abril de 2015

Perdido nas senhas




“O homem é o homem e sua circunstância.” Não, esqueça Ortega y Gasset. O homem do século XXI é o homem e suas senhas.

As senhas são sua identidade secreta assim como a identidade secreta do Super-Homem é Clark Kent. Clark Kent é um bobalhão grandão, de óculos. Eu, Joaquim das Neves, sou um bobalhão de óculos, ao entrar na cabine do caixa eletrônico. Mas, ao digitar a senha – “chapa do carro do meu pai quando eu era criança” -, transformo-me num Super-Homem capaz de fazer jorrar dinheiro. No cartão de crédito sou “nosso telefone na infância”; no cartão da farmácia, “nome do meu cão mais os quatro primeiros algarismos do telefone de minha primeira namorada”; no UOL, “nome de minha avó materna mais os quatro primeiros números do telefone da avó paterna”; na Net, “nome da minha irmã mais a chapa do carro do meu cunhado”.

As senhas vão compondo um patchwork de minhas memórias e meus afetos.

Digite seu CPF e, em seguida, seu código de acesso. Lá vai: 033.546.880. E o código de acesso? Deixe-me lembrar. “Telefone do antigo escritório?” Não deu. Você tem mais duas tentativas. “Data de nascimento de minha mãe.” Não deu. Talvez “data de casamento de meus pais”, mas esqueci a data de casamento de meus pais. Vou arriscar. Esta é sua última tentativa. Não, agora me lembro. É “dia e mês de nascimento de minha mãe mais ano de nascimento de meu pai”. Lá vai. Não reconheço esta senha. Desculpe, mas seu acesso será bloqueado.

Para desbloquear, o senhor terá de responder a algumas perguntas. Qual a última loja em que efetuou compras com o cartão? Casas Bahia. Não confere. Cite um estabelecimento em que faz compras frequentes. Padaria Aracaju. Não confere. O senhor não me poderia fazer perguntas mais fáceis? A raiz quadrada de 80 549? Ou o último parágrafo de Ulisses, de Joyce? Diga a data de vencimento de seu cartão. Mas é minha mulher que sempre paga. Desculpe, não posso desbloquear seu cartão. Sou um mero Joaquim das Neves, de quem não se pode reconhecer a identidade porque não sabe o que compra, onde compra e quando paga. Sou um Clark Kent que se atrapalha na hora de trocar a roupa, na cabine telefônica, e por isso não consegue voar.

No plano de saúde sou “nome da primeira professora mais dia do aniversário do tio Jorge”. Ou será que sou “três primeiras letras da rua da infância mais os três algarismos do número da casa”? Não. Deve ser “telefone do primeiro emprego mais nome do avô da minha mulher”. Estou confuso. Sofro de uma crise de asma, estou a ponto de morrer, e não consigo lembrar mais nada: casamento dos pais, nascimento do filho, sobrenome do patrão, nome do cachorro, marca da primeira bicicleta, time do coração, chapa do automóvel, telefone da tia Alzira.

Estou bloqueado no cartão e na vida, por isso vou morrer neste saguão, e em minha lápide escreverão: “Aqui jaz alguém que esqueceu sua senha, portanto é inútil tentar identificá-lo”.

Certa vez experimentei uma senha única para tudo, mas me alertaram: “Não é aconselhável usar a mesma senha para diferentes serviços”. Também é aconselhável trocar a senha de tempos em tempos. Eis-me com uma multidão de identidades, o que equivale a não ter nenhuma. Serviria para fornecer um bonito painel da minha vida, mas não para viver – como viver sem senha?

Qual o seu nome? Joaquim das Neves. CPF? 033.546.880. Telefone, com código de área? (12) 8456-7890. Agora digite sua senha, composta de números, letras e sinal. Tente outra vez, pausadamente. Errou de novo, infelizmente não poderemos atendê-lo. Mas se eu já dei meu nome, CPF, telefone? Se quiser, posso dizer o nome de minha avó, do cachorro, do time favorito, o número de meu primeiro telefone, o da chapa do primeiro automóvel, o da data de nascimento de minha filha – o que não sei é combiná-los de forma a satisfazê-lo, senhor. Desculpe, senhor Joaquim das Neves, se é que o senhor se chama mesmo Joaquim das Neves, se é que o senhor é o senhor, se é que tem existência real.

Uma vez anotei todas as senhas. Mas onde guardar a anotação? E como lembrar onde foi guardada, depois? Seria preciso outra anotação, com o lugar onde foi guardada, mas onde guardá-la? Não. Anotar também não é aconselhável. A conclusão é que o mais seguro de tudo é esquecê-las todas. Pronto. Estou completamente blindado, inclusive contra mim mesmo. Não sou eu para nada. Não existo. Melhor assim.


Roberto Pompeu de Toledo
(Revista Veja - edição 2419 - abril/2015)

terça-feira, 21 de abril de 2015

Sylvia Plath



Esta semana assisti a um comovente drama baseado em fatos reais: Sylvia - Paixão além de palavras, com Gwyneth Paltrow (ótima no filme) interpretando Sylvia Plath, poetiza americana que teve o seu primeiro poema publicado aos oito anos de idade, além de centenas de poemas escritos ainda em sua época de estudante. Considero o filme comovente pela forma como abordou a depressão que foi tomando, envolvendo e encurralando a personagem principal. O filme retrata o relacionamento da poetiza com o também poeta e escritor Ted Hughes (interpretado por Daniel Craig). 

Logo no início, acompanhamos o namoro dos dois, ainda como estudantes e cheios de criatividade literária. O filme segue mostrando seu casamento tumultuado enquanto trabalhavam e criavam dois filhos pequenos, passando por um misto de amargura e infidelidade, em meio ao sucesso de Hughes e a insatisfação profissional de Sylvia Plath. Após o divórcio, num período de poucos meses ela produziu as poesias surpreendentes que a faria muito mais famosa. Mesmo tendo atingido o sucesso que desejava e escrito um romance (A redoma de vidro - com o pseudônimo de Vitoria Lucas), a poetiza teve um fim trágico. 

Este drama é muito bom, embora triste e melancólico, vale a pena. A personagem, apesar da obsessão doentia, é envolvente. Seus poemas foram pouco explorados no filme, mas os que foram citados já denotam a carga emotiva e a qualidade textual peculiar da poetiza. 

Eu já conhecia algumas de suas poesias, mas agora, depois de ver este filme, fiquei muito mais interessado. Corri pra procurar seus textos na internet, e saber algo mais sobre sua vida. Fui muito influenciado pelo filme, claro, pois as poesias são narradas no filme de uma forma relativamente sombria e isto, admito, me atraiu bastante. 

Aliás, seus textos, além de muito confessionais, são deliciosamente sombrios. Gosto de textos que deixam algo no ar e que ao mesmo tempo expressam uma certa obscuridade, que o autor se expõe ou que parece se expor, querendo indicar algo que aparentemente só ele é capaz de ver ou de sentir. Não sei se consegui me expressar, mas o que quero dizer é que, como disse uma das personagens do filme, "há uma perturbação neles". E me identifico com isso também, principalmente por eu já ter rascunhados alguns textos sombrios que, de tão obscuros, não os tiros da gaveta. Pelo menos por enquanto. 

O que se observa na poesia de Sylvia Plath é a agressividade, o sarcasmo, o vasto uso de metáforas e a maneira como expressa suas emoções, fazendo com que o leitor imagine determinadas imagens (que beiram o surreal) e, por meio delas, é possível compreender seus sentimentos. Para mim, seja em poesias ou em qualquer tipo de texto, isto é bem marcante. Destaco: Daddy (Papaizinho); Ariel; Lady Lazarus; Mirrors (Espelhos); Words (Palavras); The Munich mannequins (Os manequins de Munique); e Frog Autumn (Outono de rã). 

Abaixo, reproduzi parte do diálogo que a personagem tem com seu ex-marido numa tentativa de reconciliação. 

Na sequência, a ótima poesia que abre o filme. E que abertura!


Márcio Luiz Soares

*
“Nem somos duas pessoas. Mesmo antes de nos conhecermos, éramos apenas duas metades andando por aí com grandes espaços vazios no formato de outra pessoa. Quando nos encontramos, finalmente nos completamos.”

*

A árvore da vida


Às vezes eu sonho com uma árvore,
E essa árvore é a minha vida.
Um galho é o homem com o qual me devo casar
E as folhas, os meus filhos.
Outro galho é o meu futuro como escritora.

E cada folha é um poema.

Um outro galho é a minha brilhante carreira acadêmica.
Mas enquanto eu estou lá, tentando escolher,
As folhas começam a ficar marrons e começam a cair
Até que a árvore fica completamente nua.


Sylvia Plath

*
Quer ver mais poesias dela? Então clique aqui e aqui. Também pesquise pelos títulos que mencionei - poderá encontrar várias traduções divergentes, já adianto. 

E como eu sou bonzinho, veja aqui a abertura do filme que encontrei no Youtube.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Morte




Há muito tempo, no Tibete, uma mulher viu seu filho, ainda bebê, adoecer e morrer em seus braços, sem que ela nada pudesse fazer. Desesperada, saiu pelas ruas implorando que alguém a ajudasse a encontrar um remédio que pudesse curar a morte do filho. Como ninguém podia ajudá-la, a mulher procurou um mestre budista, colocou o corpo da criança a seus pés e falou sobre a profunda tristeza que a estava abatendo. O mestre, então, respondeu que havia, sim, uma solução para a sua dor. Ela deveria voltar à cidade e trazer para ele uma semente de mostarda nascida em uma casa onde nunca tivesse ocorrido uma perda. A mulher partiu, exultante, em busca da semente. Foi de casa em casa. Sempre ouvindo as mesmas respostas. “Muita gente já morreu nessa casa”; “Desculpe, já houve morte em nossa família”; “Aqui nós já perdemos um bebê também.” Depois de vencer a cidade inteira sem conseguir a semente de mostarda pedida pelo mestre, a mulher compreendeu a lição.

Voltou a ele e disse: “O sofrimento me cegou a ponto de eu imaginar que era a única pessoa que sofria nas mãos da morte”.

A morte pode ser vista como um mistério incompreensível. Ou como um absurdo inaceitável. A morte pode até ser tratada como um tabu, assunto do qual a maioria das pessoas não gosta de falar. Mas, seja como for, aceitemos isso ou não, a morte é um fato, uma realidade inexorável. E que vem para todos nós. Por mais que queiramos nos esconder dela, deixar de existir é uma coisa tão natural quanto existir. Na verdade, a morte é provavelmente a única coisa certa na sua existência ou na minha – e também na de nossos pais, nossos filhos, nossos ídolos e inimigos, de todas as pessoas que amamos e mesmo daquelas que jamais chegaremos a conhecer: é certo que todos nós vamos morrer um dia. Pessoas boas, pessoas ruins, gente em Xanxerê, Santa Catarina, ou em Nagano, no Japão. E esse dia pode acontecer amanhã ou daqui a 60 anos.

A morte faz parte da vida. Todos começamos a morrer exatamente no dia em que nascemos. A morte, portanto, é uma etapa da nossa existência com a qual temos que conviver. Pode-se conviver melhor ou pior com ela. Mas não se pode evitá-la. Pode-se aceitar a sua inevitabilidade e olhá-la de frente. Ou pode-se negá-la, fugir dela, imaginar que não pensar na morte possa fazer com que ela deixe de acontecer com você ou com a sua família. Mas o fato é que todos nós estamos programados para nascer, crescer e morrer – uma obviedade esquecida por boa parte da sociedade ocidental contemporânea, que teima em ver a morte como um evento artificial, inesperado e injusto. Sobretudo, costumamos vê-la como um evento exclusivo, pessoal, que isola quem sofre uma perda, por meio da dor, do resto do mundo. Quando, ao contrário, não há nada menos exclusivo do que morrer. Nem nada que perpasse mais a humanidade do que o sofrimento de uma perda.

Como está expresso na fábula tibetana, a morte não é privilégio nem desgraça particular de ninguém. Ela chega para todos, sem exceção.

Maria Fernanda Vomero


Trecho extraído da Revista Super Interessante –leia a matéria na íntegra aqui.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Escritor



Em homenagem ao Dia do Escritor, deixo minha reflexão sobre quem escreve e quem lê:


Hoje quase não leio, pois já li demais. Praticamente não escrevo, não que eu tenha escrito demais.

Na "era da informação", intuo que existem mais livros para se ler do que o total de segundos para se viver (o mesmo se pode dizer das músicas para se ouvir).

Cuidado para não transformar sua vida em "apenas" Leitura. Pois não devemos viver para ler, mas ler para viver.

Existe uma grande diferença entre "viver lendo" e "ler vivendo". Que sejamos bons escritores, dignos de serem lidos, e que sejamos bons leitores, lendo os que nos é digno.


Johannes de Silentio

sexta-feira, 31 de maio de 2013

A pizza insuperável




Meu amigo gosta de cozinhar. Uma coisa que ele nunca fez por prazer é pizza. Acha que comer pizza em casa não é a mesma coisa que na pizzaria. Ele tem hipóteses, diz que talvez não seja bem um problema da comida, o que fica faltando são o calorzinho, a conversa ruidosa, o cheiro da lenha queimando, os aromas do ambiente, mistura de orégano, queijo e massa no forno. Não fecha questão, admite que pode ser um estado de espírito, mas que é diferente é, diz ele. Bom, casou-se.

A mulher, nascida no bairro paulistano da Mooca velho reduto de italianos, falava de uma pizza inesquecível que a mãe fazia. Não saberia repeti-la, não cozinhava. O rapaz, de seus 30 anos, vinha de uma família calorosa, dada a almoços e jantares. Havia sempre um vinho passando de mão em mão, mas sem radicalismo que excluísse a cerveja dos aficionados. O pai achava engraçado comentar depreciativamente "Tem gosto pra tudo" antes de ir buscar a cerveja para algum amigo. Os filhos, três homens, e a mãe revezavam-se e rivalizavam-se na cozinha. "Eu estou com vontade de fazer aquele ragu de cogumelos", dizia um, "e eu estou com saudade daquela minha carne de porco alentejana", completava outro, e dali nascia mais um almoço, com dois ou três convidados. Divertiam-se com aquela gostosa competição.

Depois do casamento, passados os meses da lua-de-mel, da arrumação da cozinha, de ajeitar os presentes nos armários, de pendurar os quadros na parede e de arrumar os livros, os CDs e os DVDs na estante, o jovem marido resolveu encarar o desafio da falada pizza.

Primeiro, levou-a às melhores casas da cidade, fosse porque preferia comer pizza lá, fosse para estudar as preferências dela. A jovem esposa achava-as boas, mas a palavra "boa" saía sem ênfase, sem aquele aperto de olhos, sem o alongado "huuum!" que não deixa dúvidas. Volta e meia ela falava da insuperável pizza da mãe, falecida havia muito tempo.

Ele passou discretamente para a fase de tentativas em casa. Fazia a massa, "ponto de partida essencial", que havia aprendido com o amigo Ernesto, ex-vizinho a quem bajulava como o gênio da pizza e que tinha até forno a lenha no quintal de casa. Colocava as coberturas preferidas da jovem esposa. Ela, delicada, dizia "Está ótima", mas sem aquele "huuum!". Ele percebia, sem reclamar, que fora derrotado mais uma vez pela pizza-fantasma. Não se magoava, era bom jogador e sabia que muitas pessoas têm na cabeça umas comidas saborosas inigualáveis, temperadas pela memória emotiva. Talvez fosse o caso dela.

Numa sexta-feira, convidou uma turminha e convocou o próprio Ernesto para fazer uma rodada de pizzas, vários sabores. O Ernesto trouxe as fôrmas e os ingredientes, esmerou-se, enfarinhou-se todo, enfarinhou a cozinha, e o pessoal adorou, entre vinhos e cervejas. A dona da casa foi educada, elogiou e agradeceu, despediu-se do Ernesto com um "Precisamos repetir, hein?" e antes de dormir, nostálgica, comentou com o marido:

– As pizzas dele são ótimas, não estou pondo defeito, mas, sabe, a da mamãe tinha alguma coisa que eu não sei dizer o que é. Era ela, eu acho.

Ele tinha quase certeza de que sim, mas queria ainda fazer um teste. Lembrou-se de uma história contada pelo pai num daqueles almoços, caso de um macarrão de família que era uma gororoba e todo mundo adorava.

Esperou um dia propício. Foi a um supermercado, comprou uma redonda qualquer semipronta, temperou de qualquer jeito com purê de tomate de latinha, incrementado com pasta de alho, jogou por cima queijo-de-minas raladão, orégano, umas linguiças desmanchadas que sobraram do almoço, umas azeitonas pretas, passeou um azeite, assou e pôs na mesa. A queridinha cortou, serviu-o, serviu-se, provou e:

– Uau! Acertou! Yesss! Yeessss!!


Ivan Angelo

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Parte da trilha





É impressionante como tem música que me faz lembrar coisas boas lá da minha adolescência. E a Frou-Frou Foxes in Midsummer Fires da banda Cocteau Twins além de me levar de volta para a adolescência, também faz com que eu sinta muita paz e tranquilidade. Algo que eu nem imaginava querer naquela época; mais ou menos como: "eu era feliz e não sabia". Só que ao mesmo tempo me sinto como que transportado para um futuro que não parece inatingível, impossível, mas totalmente envolto em serenidade, como se nada fosse possível me perturbar. Na verdade, é um sentimento estranho. Quase dolorido. Quase triste. Mas que ao mesmo tempo me deixa alegre. Sem motivo. Sem causa. Sem querer. Sem desejar, mas desejando ao mesmo tempo.

São essas sensações estranhas e ao mesmo tempo deliciosas que eu sinto todas as vezes que a ouço num momento de sossego. E é dessa forma que me sinto totalmente absorto. Como que num momento de meditação, de concentração.

E assim vou eu, flutuando em sua melodia glacial, em sua sonoridade etérea, totalmente embalado pela voz angelical, além de totalmente hipnótica e encantadora da vocalista Elizabeth Fraser. A voz dela é simplesmente incrível. Uma das melhores vozes do mundo. Sem exagero. Algumas pessoas descrevem sua voz como "cintilante" - e não tem como discordar disso.

A banda escocesa Cocteau Twins possui em seu estilo algo bastante diferente, um potencial muito exótico. Suas músicas, repletas de acordes de guitarra e baixo penetrantes e irrequietos, sempre me fazem pensar em paisagens deslumbrantes, em algo mais etéreo, como a aurora boreal, por exemplo. Ou em seres aquáticos que nem parecem que estão no mar, parecem levitar em perfeita harmonia com a leveza e a beleza da natureza. Exatamente como no vídeo abaixo. Imagens perfeitas para a canção.


Márcio Luiz Soares


***
Abaixo, um cover desta canção soberba. Esta é uma das mais belas interpretações de piano de uma das canções mais lindas que eu já ouvi. A ausência de imagens no vídeo é proposital: feche os olhos e viaje.


quinta-feira, 21 de março de 2013

O repouso do guerreiro




“Quase tenho medo dele: não pensará em me perder? Para onde me arrasto? Eis que meu cérebro começa a abrigar noções irracionais de pecado, de queda, de vício, de perdição.”
Christiane Rochefort, in O repouso do guerreiro.


Recentemente, ao rever os livros da minha biblioteca, numa pequena arrumação insólita e praticamente improdutiva (improdutiva de tanto que eu mesmo me interrompia para ficar “namorando” os livros lidos e não lidos). E ao me deparar com O Repouso do Guerreiro, de Christiane Rochefortei, fui levado a fazer uma comparação: esta admirável escritora é, para mim, quase que a Clarice Lispector da França. Esse "quase" não permite que exista outra Clarice Lispector. Claro. Ela é única.

Este ótimo romance conta a história de Geneviève, uma jovem parisiense, estudante de psicologia muito educada e elegante, que se apaixona perdidamente por Renaud. E é essa paixão que a faz viver uma grande desilusão.

Renaud é um ex-soldado que perdeu a esperança após o bombardeio de Hiroshima e que dez anos mais tarde tenta se matar em um hotel de uma pequena cidade. Geneviève o encontra acidentalmente, salva sua vida, e torna-se sua amante. E com ele tem seus primeiros orgasmos.

Mas nem tudo é bonito e prazeroso nesse relacionamento: Renaud é uma pessoa muito atormentada, exigente, desprezível e rejeita o mundo como um todo. Além de ser violento e impedir Geneviève de rever amigos e a família. Ele acredita que Geneviève é guiada principalmente pelo apetite sexual e quer forçá-la a admitir. E isso faz com que se refugiem em delírios, mas é nessa devassidão que um se anula diante do outro.

A história é centrada na relação ambígua dos dois personagens principais. Não podemos deixar de perguntar por que Geneviève se agarra tão teimosamente a um personagem tão desprezível que inadvertidamente recusa o amor que recebe dela e que ainda insiste em afirmar que ela confunde o desejo sexual com amor sincero justamente por estarem intimamente ligados. O que nos leva a pensar no que exatamente ele teme. Ser pego em uma rotina? Teme ser pertencido a alguém? Tornar-se um hipócrita? No entanto, seja o que for que o impede de se entregar ou de deixar a jovem viver serenamente (sozinha, claro), fica evidente que sua própria arrogância não o impede de se odiar, sendo que é isso mesmo que o desconforta. E pra piorar faz questão de levar sua amante com ele em sua podridão desmesurada.

No decorrer da narrativa o que vemos, e o que nos revolta, é a decadência de uma mulher que faz tudo por amor e o quanto é fortemente afetada pela sua relação emocional e sexual, se afastando do seu mundo, correto e muito seguro, para embarcar numa submissão que aparentemente não terá fim. Tudo nos leva a imaginar que ela vai aceitar o pior e chegar ao fundo do abismo físico e moral.

Até que ponto uma mulher pode se perder em nome de uma paixão? E, afinal, qual é a tênue divisão entre moral, obsessão, decadência moral, dignidade, submissão e prazer? Aquela doce loucura deliciosa de se viver é sempre fascinante e intrigante, mas qual é o limite?

O título e os acontecimentos desse ótimo romance, que exalta a redenção, de forma alguma chega a enganar os leitores: a mulher é, sem dúvida alguma, o perfeito descanso do guerreiro.

A recíproca não é verdadeira.


Márcio Luiz Soares
*
Confira um trecho do livro aqui.

* * *
Imagem: frame do filme francês homônimo. O romance foi adaptado para o cinema em 1962, com direção de Roger Vadim e com a participação de Brigitthe Bardot no papel principal.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Lado sombrio





Todo mundo tem seus segredos e todos têm um lado dentro de si que protegem a todo custo. É instintivo.

Por mais bem certinha que uma pessoa demonstra ser, ela tem algo a esconder, mesmo que seja aquele segredinho que nem é nada demais, nada que a desabone, mas que ela prefere que fique enterrado dentro de si. Pode ser um pensamento nefasto, ou um desejo reprimido, ou uma fantasia sexual que sabe que nunca vai se realizar. Acho que, no fundo, no fundo, todos nós temos uma natureza pecaminosa ou egoísta. Nenhum de nós está livre de pecados e pensamentos obscuros. Nós nascemos assim. A diferença está em como cada indivíduo consegue se controlar. Muitos não conseguem. Muitos nem tentam. Outros nem têm noção do que é ou não sombrio.

Eu tenho um lado sombrio, não nego e não me importo em admitir. Até onde isso me prejudica? Até agora, em nada. Nunca me prejudicou. Nunca prejudicou ninguém.

E pra piorar o que você está pensando de mim nesse momento, saiba que eu gosto de alimentar esse meu lado sombrio. E tudo se resume ao fato de que, alimentando-o, consigo superar coisas excessivamente emotivas que me tornariam melancólico demais. Principalmente quando as minhas válvulas de escape não funcionam.

Enfim, na minha humilde opinião, todo mundo tem um esqueleto escondido no armário. Alguns esqueletos contam uma boa história ao sair.

Outros nem tanto.


Márcio Luiz Soares

***
No clipe, uma das minhas músicas preferidas da Kelly Clarkson, Dark Side. O que se vê nas imagens do clipe não condiz tão incisivamente com a letra dessa bela canção. Infelizmente. Mas tá valendo.


Aqui você acessa a letra original e com tudo que tem direito - aproveita e clica no play lá também.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Adam and dog




O brilhante curta-metragem Adam e Dog é uma verdadeira obra-prima da animação. Nele, tudo parece ter mais coração do que muitos filmes que eu vi ultimamente. É uma experiência artística cinematográfica que não deve ser desperdiçada.

Adão criou o vínculo homem/cão em primeiro lugar? Vai saber. De qualquer forma, este filme procura mostrar claramente que ambas as espécies, desde os primórdios da humanidade, tinham algo a oferecer um ao outro: a amizade.

Eis mais um ótimo curta criado especialmente para comover e emocionar e cheio de sacadas sutis. Nem uma palavra é dita nessa trama inteligente, a menos que você considere os latidos do animal. O silêncio ajuda a criar a serenidade do mundo edênico do filme, e tudo é contado sem esforço por meio de atos, gestos e expressões faciais. Assim que o cão se depara com Adam, ou Adão, a gente percebe que está se contando uma versão da história do primeiro cão do mundo e seu relacionamento no Jardim do Éden e, no fim, fica claro por que os cães são tão especiais para a humanidade. Mas a melhor sacada é a expulsão do Jardim do Éden e o quanto o cão é fiel nesse momento.

Contar boas histórias é uma arte extremamente sutil. Mesmo com a palavra escrita não é tão simples quanto se pensa. Contar boas histórias é muito mais que descrever situações e passar informações precisas. O narrador deve decidir, além de qual será a melhor forma de estabelecer detalhes sobre os personagens, como criar tensão narrativa e continuar contando a história sem se perder, sem deixar a peteca cair. E esse curta é assim, de forma bem eficiente cria um mundo e estabelece o amor entre dois personagens, em menos de 15 minutos, num ritmo absolutamente sem pressa e nem por isso a gente perde o interesse, e nem imagina o que, afinal, vai acontecer. Nem mesmo que pode se surpreender. E se caso acertar o final, vai gostar muito mais.

Os curtas-metragens são impressionantes, pois permitem aos seus produtores e cineastas a oportunidade de ser diferentes e experimentais, sem o custo de um filme de longa-metragem e garantindo um bom entretenimento e diversão a nós, meros espectadores. E o espectador que se desarmar de certos conceitos ou de preconceitos vai sentir o quanto esse curta é deslumbrante e poderoso.


Márcio Luiz Soares


sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Chove Chuva





Chove chuva, chove sem parar.
Jorge Ben

A “manhã” está tão fria, chove lá fora.
Esta saudade enjoada não vai embora.
Onde estás, como estás,
com quem estás agora?
Tito Madi


Naquela manhã de sábado, ela acordou tranquila. Meio preguiçosa, como não poderia deixar de ser, já que chovia aquela chuvinha mansa e constante, nublando o céu, e escondendo a cidade sob uma névoa estranha e desconhecida para os padrões tropicais.

Cada dia mais, Valentina confrontava suas atitudes atuais com as suas atitudes de outrora, e ficava pasma ao ver o quanto havia mudado.

Nada de ansiedade, nem tristezas, nem dúvidas. Apenas uma calma interior, um sossego, tranquilidade em tudo e por tudo.

Ocasionalmente, dias chuvosos a deprimiam. Traziam-lhe uma tristeza funda, uma saudade de si mesma, um descontentamento sem motivo. Nunca gostou de chuva. Só à noite, quando ainda menina e sua mãe ou seu pai seguravam-lhe as mãozinhas até ela dormir, e aquele bater da chuva no telhado ia embalando seu sono, até ela se desligar do mundo que a cercava.

Era bom.

Depois mais tarde, quando já adulta e morando no campo, Valentina gostava de reconhecer os sons diferentes que a chuva e o vento faziam ao tocar as árvores, o telhado, o cimentado do terreiro de café. Nestas ocasiões, se aninhava nos braços de Sergei e adorava pensar que estava viva, casada, e sentia-se amada e feliz. Como era bom estar casada com o grande amor da sua vida!

As circunstâncias da vida mudam as pessoas, moldam as pessoas, renovam as pessoas, se elas se deixarem renovar.

Manhã de um sábado. Na noite anterior, foi jantar com uma amiga, depois assistiu uma leve e engraçada comédia de amor. Não pense que é redundância. Não. Pois nem todas as comédias são engraçadas como se propõem. Gosta de graça sutil, inteligente, nada usual.

Quando a maturidade chega, duas coisas podem acontecer: ou você se torna plena de carinho, de afetos, de amizade, de alegria e com a completude de quem sabe o que quer, o que viveu, a recordar o passado sem remorsos ou sentimento de culpa – ou, então, vive uma vida amargurada, pensando no que perdeu, no que viveu e não vive mais, fechando-se para vida, para o outro, para as alegrias que ainda pode ter e sentir.

Felizmente, Valentina pertence ao primeiro grupo. Ela é feliz por ela mesma. É atávico e não há nada neste mundo que consiga roubar-lhe sentimentos bons de alegria e esperança. Sua tristeza dura uma noite, como diz o salmista ou o proverbista, foge-lhe agora a exatidão de quem seja que disse estas palavras, mas sabe a continuidade delas: a alegria vem pela manhã.

Leva sua vida entre seus discos, seus livros, suas pinturas, seus amigos do mundo virtual, ou do mundo real. Todos lhe dão um sentido de estar conectada com o universo e com a vida em si, de uma maneira mais íntima e coesa dentro do macrocosmo. A vida é boa. Claro que vê e sente as vicissitudes que a vida lhe impõe. Nem sempre tudo decorre na calma que gostaria, mas sabe que viver traz em seu bojo coisas boas e coisas não tão boas e, de quebra, coisas péssimas.

Já disse alguém que sem sofrimento não há crescimento e que, embaixo de árvore frondosa, não cresce grama. Adorou este conceito simples, mas verdadeiro dito pelo amigo querido.

Todos têm momentos de introspecção e pensamentos de sonhos e derrotas, Valentina sabe disso, mas aprendeu a administrar suas desesperanças e desapontamentos e sempre acreditar no amanhã. Tudo muda, nada é para sempre. Como dizia sua mãe, passa o bom e passa o ruim, e depois de passados, ambos não existem mais: são simples lembranças. Memórias… e memórias só existem na nossa cabeça. Já não fazem parte do mundo real. Ou será que elas é que são nosso mundo real?

Não sei. Valentina também não sabe. O que ambas sabemos é que tudo conspira pra que saibamos que o que passou, passou, e que o que temos hoje é o que realmente importa.

Só poderemos estar bem no amanhã, se o nosso hoje for plenamente vivido, observado e usufruído.

A vida flui e deflui, como um rio. Valentina gosta dessa imagem. O rio vai em frente, serpenteando por margens limpas e verdejantes, outras vezes por barrancos feios e sujos, mas não para jamais. Vai que vai. Leva em seu correr, música e beleza, mas, algumas vezes, leva terra barrenta e suja. Lixo… Não importa, sua meta é chegar, nem sabe onde, é verdade, mas caminha, sempre em frente molhando margens, carregando peixes, matando sede, enfeitando paisagens. O rio é a coisa mais parecida com a vida que se tem nesta terra. Por isso gostamos, Valentina e eu, das palavras de Cecília Meirelles: “Sou como um rio que flui e deflui!”.

Nestes dias frios e meio solitários, com a casa quieta, sem barulho de filhos, ou netos ou amigos, ou irmãs, Valentina gosta de mexer em suas coisas. Textos escritos, poemas impressos, cartões recebidos, seus livros, seus CD’s, fotos, suas pinturas, e fica pensando o que farão os filhos com tudo isso, quando ela se for.

A gente passa a vida escolhendo coisas a serem guardadas, separando-as em pastas, em cadernos, em arquivos, arrumando-as em gavetas ou estantes e, nos finalmente, elas dizem de perto apenas a nós. Fazem parte da nossa existência e ao outro, tudo isso não sabe a nada.

Farão por certo uma grande fogueira, sim, grande, porque ela é a rainha dos guardados… Ri de si mesma, ri pra si mesma e sente-se feliz com o que fez durante estes não tão longos anos.

Digo isto, porque pra Valentina a vida passou muito rápida. Como diz o proverbista, agora com certeza: “A vida é um conto ligeiro”.

Tudo pra ela é tão real, tão hoje, tão nítido e vívido, que é capaz de fechar os olhos e sentir o gosto, o cheiro e a presença dos que povoaram sua vida. Mas o interessante disto tudo é que nada disso, nem todas as lembranças do seu mundo, a fazem se esquecer de viver o presente. Sua vida é hoje. Suas emoções são de agora, e seus desejos reais, como esta chuva fina que insiste em cair, molhando esta manhã deste sábado de julho.

Manhã fria, pedindo um café quente, um leite adoçado como o da infância, pedindo a companhia de alguém. Um alguém qualquer, que a fizesse compartilhar essa preguiça de uma manhã meio cinzenta.

Sim, Valentina ainda sonha com o amor pleno e completo de um homem que entenda o poder das palavras e o poder do silêncio. O poder das mãos que acariciam e o poder da presença quente e acolhedora de braços que saibam abraçar sem usura.

Quando ainda na cama, esta manhã, muitos pensamentos vieram-lhe à cabeça. Recapitulou a maneira de ser e agir dos filhos. Pensou na alegria que sente em ser avó, sentiu-se plena por estar vivendo numa era de tanta modernidade e tecnologia, e satisfeita por ter vivido em época mais amena e calma. A vida moderna é assustadora, com seus perigos eminentes de violência, medo, doenças desconhecidas. A vida moderna nos torna gigantes ou pigmeus. Não podemos nos ausentar dela. Vivemos o dia-a-dia incrustados nestas maluquices que nos assombram e nos fazem temer sair às ruas. 

Contudo, a natureza humana traz embutida dentro de si mesma um alienamento necessário, que nos faz caminhar pelos acontecimentos sem que nos deixemos arranhar demais. E vamos levando a vida como se tudo fosse um mar caribenho em tardes turquesa de verão.

Esse mecanismo de ausência presente é a nossa defesa e garantia de sobrevivermos neste caos instalado de injustiças, tristezas, misérias, desconforto e insanidade. Há deslumbramentos a serem sentidos, há pessoas maravilhosas a serem conhecidas e amadas. Há lugares lindos a serem conhecidos e descobertos em meio a este caos. Mas o caos está aí, nas nossas barbas.

Paradoxo? A vida é um paradoxo! O ser humano tem uma dualidade incrível e inexplicável embutida em si mesmo, na sua maneira de ser e estar no mundo.

Todos temos sentimentos ambíguos de ser e não ser, de estar e não sentir, de viver da melhor maneira possível, mesmo em meio às tragédias que nos cercam.

A vida é um circo. Temos espetáculos diários de trapezistas atuando com concentração inconteste para não despencar das alturas, temos equilibristas tentando a travessia até o outro lado do abismo, pisando em corda bamba, e temos palhaços nos fazendo rir às gargalhadas, mesmo que estejam sofrendo dores na alma ou no corpo. Não pode chover muito porque o circo é de lona, não pode o sol ser escaldante demais porque a lona é colorida e desbotará. Não pode ter amarras, nem fronteiras permanentes, nem nada ser definitivo, porque o circo é itinerante. A vida é como o circo, sim – passageira num mundo também passageiro.

O público está lá. Pronto a aplaudir ou não. O espetáculo tem de ser bom. Sempre! Não importa o sentimento de quem o produz. Somos todos palhaços, equilibristas, trapezistas ou atores da peça que se representava nos circos de antigamente. Vamos seguindo em frente, nos mudando, nos moldando aos tempos e às circunstâncias. Somos sobreviventes.

Valentina sabe disto tudo. Valentina gosta de estar viva e sentir a vida. Vida pra ela vai desde uma canção ouvida muitas vezes, ou de um perfume bom que lhe faz sentir cheirosa e feminina. A vida pra Valentina passa pela camisola de seda que veste e a faz sentir mulher, e a comida bem feita que coloca sobre a mesa arrumada como se fosse receber visitas pro almoço ou jantar. Desfruta o café da manhã como se fosse a última refeição a ser feita.

Vida é viver todas as coisas com plenitude de alma, coração e corpo. Vida é ter amigos, falar com os filhos, estejam onde estiverem, e vê-los pela webcam, rir com eles e ouvir-lhes os feitos, os sonhos, as vivências diferentes em cada um deles e que a um só tempo os faz tão iguais e tão diferentes. Vida é saber que Deus a guarda, a conforta e a enche de esperança.

Vida é sonhar dormindo e contar o sonho pela manhã àquela pessoa que estiver presente em seu dia. Vida é também sonhar acordada, fazer planos de realizar coisas, de Natais que ainda virão, de verões na praia e invernos nas montanhas. Vida é sonhar com viagens ainda não realizadas e relembrar as já realizadas.

Vida, para Valentina, é estar viva. Bênção maior que esta não pode haver. Como ela gosta de dizer, e já o fez diversas vezes: vida doida, vida doída, mas eita vida boa!

Sua manhã de sábado está indo… como tudo neste mundo, que nunca sossega. Logo, vai tomar mais um café, fazer alguns telefonemas e tomar seu banho. Terá que sair. Vai buscar sua roupa nova que mandou embainhar. Vai vesti-la hoje nem que seja pra ir à padaria comprar pão… mas vai vesti-la. Rio-me do jeito dessa mulher ainda tão menina em seu interior. A vida não roubou a infância feliz de Valentina. Ela é ainda a menina que, não mais de trancinhas enlaçadas por fitas de tafetá xadrez, canta muito.

Canta canções de amor, canta canções tristes, canta enquanto pinta, enquanto faz um doce, enquanto arruma. Quando mergulha dentro de si mesma, vem à tona:

Eu fui no Itororó,
Beber água, não achei.
Encontrei bela menina,
Que no Itororó deixei…
Aproveite minha gente
Que uma noite não é nada…
Se não durmo lá de noite,
Durmo lá de madrugada…

E em suas lembranças mais antigas, lá esta ela, balançando em sua cadeirinha de balanço, cantando com sua vozinha rouca, rindo à toa, feliz com a família à sua volta, sempre a aplaudindo em tudo o que fazia. “Cante, Valentina, cante, que o papai quer ouvir…”.



Ercília Pollice

* * *
Viva a Vida. E muitos vivas para uma vida de Valentina!