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quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Morte




Há muito tempo, no Tibete, uma mulher viu seu filho, ainda bebê, adoecer e morrer em seus braços, sem que ela nada pudesse fazer. Desesperada, saiu pelas ruas implorando que alguém a ajudasse a encontrar um remédio que pudesse curar a morte do filho. Como ninguém podia ajudá-la, a mulher procurou um mestre budista, colocou o corpo da criança a seus pés e falou sobre a profunda tristeza que a estava abatendo. O mestre, então, respondeu que havia, sim, uma solução para a sua dor. Ela deveria voltar à cidade e trazer para ele uma semente de mostarda nascida em uma casa onde nunca tivesse ocorrido uma perda. A mulher partiu, exultante, em busca da semente. Foi de casa em casa. Sempre ouvindo as mesmas respostas. “Muita gente já morreu nessa casa”; “Desculpe, já houve morte em nossa família”; “Aqui nós já perdemos um bebê também.” Depois de vencer a cidade inteira sem conseguir a semente de mostarda pedida pelo mestre, a mulher compreendeu a lição.

Voltou a ele e disse: “O sofrimento me cegou a ponto de eu imaginar que era a única pessoa que sofria nas mãos da morte”.

A morte pode ser vista como um mistério incompreensível. Ou como um absurdo inaceitável. A morte pode até ser tratada como um tabu, assunto do qual a maioria das pessoas não gosta de falar. Mas, seja como for, aceitemos isso ou não, a morte é um fato, uma realidade inexorável. E que vem para todos nós. Por mais que queiramos nos esconder dela, deixar de existir é uma coisa tão natural quanto existir. Na verdade, a morte é provavelmente a única coisa certa na sua existência ou na minha – e também na de nossos pais, nossos filhos, nossos ídolos e inimigos, de todas as pessoas que amamos e mesmo daquelas que jamais chegaremos a conhecer: é certo que todos nós vamos morrer um dia. Pessoas boas, pessoas ruins, gente em Xanxerê, Santa Catarina, ou em Nagano, no Japão. E esse dia pode acontecer amanhã ou daqui a 60 anos.

A morte faz parte da vida. Todos começamos a morrer exatamente no dia em que nascemos. A morte, portanto, é uma etapa da nossa existência com a qual temos que conviver. Pode-se conviver melhor ou pior com ela. Mas não se pode evitá-la. Pode-se aceitar a sua inevitabilidade e olhá-la de frente. Ou pode-se negá-la, fugir dela, imaginar que não pensar na morte possa fazer com que ela deixe de acontecer com você ou com a sua família. Mas o fato é que todos nós estamos programados para nascer, crescer e morrer – uma obviedade esquecida por boa parte da sociedade ocidental contemporânea, que teima em ver a morte como um evento artificial, inesperado e injusto. Sobretudo, costumamos vê-la como um evento exclusivo, pessoal, que isola quem sofre uma perda, por meio da dor, do resto do mundo. Quando, ao contrário, não há nada menos exclusivo do que morrer. Nem nada que perpasse mais a humanidade do que o sofrimento de uma perda.

Como está expresso na fábula tibetana, a morte não é privilégio nem desgraça particular de ninguém. Ela chega para todos, sem exceção.

Maria Fernanda Vomero


Trecho extraído da Revista Super Interessante –leia a matéria na íntegra aqui.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Lição de humildade




Um visitante inesperado interrompe um velho monge que, a partir dessa interrupção, é levado a uma rápida e significativa jornada que o fará descobrir o sentido do companheirismo e da tolerância.

A percepção de que se está no caminho errado é uma grande lição de humildade.


segunda-feira, 11 de março de 2013

Lado sombrio





Todo mundo tem seus segredos e todos têm um lado dentro de si que protegem a todo custo. É instintivo.

Por mais bem certinha que uma pessoa demonstra ser, ela tem algo a esconder, mesmo que seja aquele segredinho que nem é nada demais, nada que a desabone, mas que ela prefere que fique enterrado dentro de si. Pode ser um pensamento nefasto, ou um desejo reprimido, ou uma fantasia sexual que sabe que nunca vai se realizar. Acho que, no fundo, no fundo, todos nós temos uma natureza pecaminosa ou egoísta. Nenhum de nós está livre de pecados e pensamentos obscuros. Nós nascemos assim. A diferença está em como cada indivíduo consegue se controlar. Muitos não conseguem. Muitos nem tentam. Outros nem têm noção do que é ou não sombrio.

Eu tenho um lado sombrio, não nego e não me importo em admitir. Até onde isso me prejudica? Até agora, em nada. Nunca me prejudicou. Nunca prejudicou ninguém.

E pra piorar o que você está pensando de mim nesse momento, saiba que eu gosto de alimentar esse meu lado sombrio. E tudo se resume ao fato de que, alimentando-o, consigo superar coisas excessivamente emotivas que me tornariam melancólico demais. Principalmente quando as minhas válvulas de escape não funcionam.

Enfim, na minha humilde opinião, todo mundo tem um esqueleto escondido no armário. Alguns esqueletos contam uma boa história ao sair.

Outros nem tanto.


Márcio Luiz Soares

***
No clipe, uma das minhas músicas preferidas da Kelly Clarkson, Dark Side. O que se vê nas imagens do clipe não condiz tão incisivamente com a letra dessa bela canção. Infelizmente. Mas tá valendo.


Aqui você acessa a letra original e com tudo que tem direito - aproveita e clica no play lá também.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

O poder das palavras




As palavras certas fazem uma conexão emocional com as pessoas. Uma das principais considerações deve ser a forma de causar o maior impacto possível sobre o público. Se as palavras escolhidas não surtem o efeito desejado, então, realmente, não há muito sentido em dizer ou escrevê-las. Comprove.


domingo, 27 de maio de 2012

As três peneiras




Certa feita, um homem esbaforido, achegou-se a Sócrates e sussurrou-lhe aos ouvidos:
- Escuta, na condição de teu amigo, tenho alguma coisa muito grave para dizer-te, em particular.
- Espera! - ajuntou o sábio prudente. - Já passaste o que me vais dizer pelos três crivos?
-Três crivos?! – perguntou o visitante, espantado.
- Sim, meu caro amigo, três crivos. Observemos se tua confidência passou por eles. O primeiro é o crivo da verdade. Guardas absoluta certeza quanto àquilo que pretendes comunicar?
- Bem - ponderou o interlocutor - assegurar mesmo, não posso.  Mas ouvi dizer e… então…
- Exato. Decerto peineiraste o assunto pelo segundo crivo, o da bondade. Ainda que não seja real o que julgas saber, será pelo menos bom o que me queres contar?
Hesitando, o homem replicou:
- Isso não!… Muito pelo contrário…
- Ah! – tornou o sábio – Então recorramos ao terceiro crivo: o da utilidade. E notemos o proveito do que tanto te aflige.
- Útil? – aduziu o visitante ainda agitado. – Útil não é…
- Bem – rematou o filósofo num sorriso - se o que tens a confiar não é verdadeiro, nem bom e nem útil, esqueçamos o problema e não te preocupes com ele, já que nada valem casos sem edificações para nós.

* * *
E você? O que você conta por aí é realmente verdadeiro, bom e útil?

***
Imagem: de Atila Naddeo (2007) – Blog Olhares

segunda-feira, 9 de abril de 2012

A primeira pedra




E os fariseus trouxeram a Jesus uma mulher apanhada em adultério, e perguntaram a Jesus se ela não deveria ser apedrejada até a morte, como mandava a lei de Moisés. E disse Jesus: aquele entre vós que estiver sem pecado que atire a primeira pedra. E a vida da mulher foi poupada, pois nenhum dos seus acusadores era sem pecado. Assim está na Bíblia, evangelho de São João 8, 1 a 11.

Mas imagine que a Bíblia não tenha contado toda a história. Tudo o que realmente aconteceu naquela manhã, no Monte das Oliveiras. Na versão completa do episódio, um dos fariseus, depois de ouvir a frase de Jesus, pega uma pedra do chão e prepara-se para atirá-la contra a mulher, dizendo: “Eu estou sem pecado!”

— Pera lá — diz Jesus, segurando o seu braço. — Você é um adultero conhecido. Larga a pedra.

— Ah. Pensei que adultério só fosse pecado para as mulheres — diz o fariseu, largando a pedra.

Outro fariseu junta uma pedra do chão e prepara-se para atirá-la contra a mulher, gritando: “Nunca cometi adultério, sou puro como um cordeiro recém-nascido!”

— Falando em cordeiro — diz Jesus, segurando o seu braço também — e aquele rebanho que você foi encarregado de trazer para o templo, mas no caminho desviou dez por cento para o seu próprio rebanho?

— Nunca ficou provado nada! — protesta o fariseu.

— Mas eu sei — diz Jesus. — Larga a pedra.

Um terceiro fariseu pega uma pedra do chão e prepara-se para atirá-la contra a adultera, dizendo: “Não só não sou corrupto como sempre combati a corrupção. Fui eu que denunciei o escândalo da propina paga mensalmente a sacerdotes para apoiar a os senhores do templo.”

— Mas foste tu o primeiro a receber propina — diz Jesus, segurando seu braço.

— No meu caso foi para melhor combater a corrupção!

— Larga a pedra.

Um quarto fariseu junta uma pedra do chão e prepara-se para atirá-la contra a mulher, dizendo: “Não tenho pecados, nem da carne, nem de cupidez ou ganância!”

— Ah, é? — diz Jesus, segurando o seu braço. — E aquela viúva que exploravas, tirando-lhe todo o dinheiro?

— Mas isto foi há muito tempo, e a mulher já morreu.

— Larga a pedra, vai.

E quando os fariseus se afastam, um discípulo pergunta a Jesus:

— Mestre, que lição podemos tirar deste episódio?

— Evitem a hipocrisia e o moralismo relativo — diz Jesus.

E, pensando um pouco mais adiante:

— E, se possível, a política partidária.


Luis Fernando Verissimo

***
Em tempo de eleição indireta em Campinas, entenda como quiser...

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O poder do assombro





“Eu deitava a cabeça no colo da menina,
E ela passava as mãos nos meus cabelos...
Era meu primeiro alumbramento!”

Manuela Bandeira – Recife


Fazendo um retrocesso em minha memória, fiquei pensando, neste início de ano, o que precisaria acontecer para que o homem contemporâneo se sentisse mais feliz e menos confuso, mais alegre e menos ansioso, mais simples e menos complicado, mais verdadeiro e menos fingidor em seus anseios, desejos, sonhos e expectativas.

Comecei a me lembrar de como sempre conseguia me deslumbrar com pequeninas coisas. Como fatos corriqueiros sempre me fizeram sentir encantamento. “Era tudo um alumbramento”, no dizer do poeta.

Percebo, então, que de um modo geral, o mundo perdeu o senso de assombro. Crescemos, foi isto? Já não perdemos o fôlego diante de um arco-íris, ou do perfume de um jasmim (alguém, porventura, ainda conhece jasmim?), como acontecia antes. Prova disso é ouvirmos as letras de música destes tempos.

Já não temos tempo de olhar para as estrelas, e duvido que algum jovem de hoje, saiba achar no céu o Cruzeiro do Sul ou as Três Marias, só para dar um exemplo. Os astros que eles reconhecem são outros.

As estrelas já não nos encantam, não mais temos tempo pra vê-las, nem, tampouco, formar figuras com nuvens, e além do mais, agora, já sabemos que a Lua não é feita de queijo, que pena!

As tempestades já não nos causam assombro, os aviões voam acima ou abaixo delas, e os satélites reduzem-nas a fotos. Só os desabrigados se importam e as temem! Simplesmente temos dados, temos estatísticas, temos certezas científicas, algumas nem tão boas... mas não nos assombram!

Nossa alma, parece-me, ficou vazia de significados e nosso coração falto de encantamento.

O novo nos impressiona hoje, até que algo mais novo ou sensacional surja em cima dele.
“À medida que a civilização avança o senso de assombro declina”. (Rabino Heschel).

Nosso mundo é saturado com a graça, e a presença furtiva de Deus é revelada não apenas no espírito, mas, também, na matéria. Por que nos privamos de vê-la?  

Nunca quero deixar-me cegar e não mais me encantar com as folhas secas que formam tapetes dourados, quando caem no outono, nem com o colorido que as flores dos ipês mancham o chão nas manhãs de primavera. O que dizer, então, da grama orvalhada ou de um crepúsculo dourado arrematando o dia numa tarde de verão?

Ah! As pequeninas grandes coisas que encantam a vida de quem consegue ver a graça de Deus abundando sobre nossa existência em cada detalhe...

Estamos tão fartos com a grandeza das coisas belas da natureza, que pisamos sobre flores, sobre douradas folhas secas, ouvimos os pássaros, molhamos os pés nas ondas do mar, e nem nos damos conta de que todas essas coisas são graça; esse dom, esse presente dado a nós, imerecidamente. Sim, pois se é por merecimento, deixará de ser graça.

Meu desejo é que neste início de ano, nossos corações se abram para a Graça de Deus em nossas vidas, através de Jesus Cristo e das consolações do Espírito Santo, e que a possamos desfrutar com corações agradecidos e mentes sábias, abrindo nosso espírito para o Divino espalhado em todo nosso redor, especialmente na vida das pessoas afetuosas que nos cercam. Usemos o dom maior - o amor - pois, no dizer do apóstolo Paulo: “Tudo passa, menos o amor”, a maior graça concedida pelo Pai a nós, maravilhosa graça, que jamais se afasta de nós, ainda que não correspondamos aos seus apelos.

Só o poder do assombro poderá nos salvar de vivermos vidas vazias de significados que nos devolvam o dom de ser felizes, apesar das vicissitudes, pelas quais temos de passar, pois fazem parte desse nosso viver.

Quero me assombrar de novo! Quero de novo enxergar com o coração! Quero amar a vida que mesmo que para alguns pareça sem graça, para mim é encantada, pois vem de Deus.


Ercília Pollice


sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Deixe para trás



Por enquanto é só. E nem precisa mais.

* * *
Imagem de Caio Mosca Pantarotto.
[clique na imagem para ampliar]

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Aos homens do nosso tempo






Senhoras e senhores, olhai-nos.
Repensemos a tarefa de pensar o mundo.
E quando a noite vem
Vem a contrafacção dos nossos rostos
Rosto perigoso, rosto-pensamento
Sobre os vossos atos.

A muitos os poetas lembrariam
Que o homem não é para ser engolido
Por vossas gargantas mentirosas.
E sempre um ou dois dos vossos engolidos
Deixarão suas heranças, suas memórias

A IDEIA, meus senhores

E essa é mais brilhosa
Do que o brilho fugaz de vossas botas.

Cantando amor, os poetas na noite
Repensam a tarefa de pensar o mundo.
E podeis crer que há muito mais vigor
No lirismo aparente
No amante Fazedor da palavra

Do que na mão que esmaga.

A IDEIA é ambiciosa e santa.
E o amor dos poetas pelos homens
é mais vasto
Do que a voracidade que nos move.
E mais forte há de ser
Quanto mais parco

Aos vossos olhos possa parecer.


Hilda Hilst
[Poemas aos homens do nosso tempo – I - homenagem a Alexander Solzhenitsyn]

* * *
Para quem estava sentindo falta por aqui de uma poesia profunda, marcante e muito significativa, nada como essa da Hilda Hilst pra esse finalzinho de ano - período de reflexão e balanços da vida tão atribulada em que vivemos.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Papai Noel - the day after





* * *
Ilustração de Ivan Jerônimo

* * *
Aviso aos navegantes: que o seu Natal seja, ou tenha sido, cheio de paz, harmonia e de muita integração com amigos e familiares. E se não receber o presente que tanto deseja, se ganhar algo que nem sabe o que fazer com ele, não se importe, afinal alguém se preocupou contigo, se lembrou de você. Na verdade, o mais importante é a alegria e a oportunidade de poder se reunir, nesse dia tão especial, com as pessoas que tanto estimamos e amamos.

* * *
Veja o vídeo da campanha publicitária de Natal de uma rede de lojas britânica, é muito surpreendente. 


Tradução do final da campanha: "Para os presentes que você não pode esperar para dar".

sábado, 29 de outubro de 2011

Descomplique





"Tudo deveria se tornar o mais simples possível, mas não simplificado."

Albert Einstein

* * *
Deveríamos buscar a simplicidade sempre. Não somente caminhando na praia, andando de bicicleta sem destino, indo a qualquer lugar sem compromisso, sem pressa, numa conversa tranquila com qualquer pessoa, mas também cozinhando, trabalhando, fazendo qualquer coisa. Basta acordar, dar uma respirada profunda e considerar que o dia que se inicia, faça chuva ou faça sol, frio ou calor, é um belíssimo dia. Exatamente porque nos mostra que estamos vivos e que, apenas por isso, devemos aproveitar cada segundo. Intensamente.

Não procuro simplificar os problemas, ou fugir deles - nem dos resultados ruins. Seria querer escapar da dura realidade. E depois sofrer com isso. E nem desejo que a vida não tenha complicações, sem suas complexidades ou obter as coisas gratuitamente. Ela seria muito sem graça. Precisamos dos obstáculos, das dificuldades. Moldamos o nosso caráter e a nossa personalidade enfrentando os desafios, encarando os problemas, superando as tristezas, se conformando com as perdas, tendo desejos e ambições e diversas motivações que nos levam pra frente.

Levar uma vida simples é uma gratificante tentativa de viver mais e melhor, de forma saudável, gostosa, trabalhando com alegria, encarando tudo com tranquilidade e inteligência. Descomplicando tudo mesmo - ou o máximo que puder.

Mais que antes, ultimamente tenho buscado a simplicidade, pra tornar a vida mais leve, mais serena, com a intenção de atrair energias positivas. Tem dado certo. Mas quando não dá, lembro que amanhã é outro dia.


Márcio Luiz Soares

sábado, 22 de outubro de 2011

Diferença





O Barbeiro

O florista foi ao barbeiro para cortar seu cabelo. Após o corte perguntou ao barbeiro o valor do serviço e o barbeiro respondeu:

- Não posso aceitar seu dinheiro porque estou prestando serviço comunitário essa semana.

O florista ficou feliz e foi embora. No dia seguinte, ao abrir a barbearia, havia um buquê com uma dúzia de rosas na porta e uma nota de agradecimento do florista.

Mais tarde, no mesmo dia, veio um padeiro para cortar o cabelo. Após o corte, ao pagar, o barbeiro disse:

- Não posso aceitar seu dinheiro porque estou prestando serviço comunitário essa semana.

O padeiro ficou feliz e foi embora. No dia seguinte, ao abrir a barbearia, havia um cesto com pães e doces na porta e uma nota de agradecimento do padeiro.

No outro dia apareceu um deputado para um corte de cabelo. Novamente, ao pedir para pagar, o barbeiro disse:

- Não posso aceitar seu dinheiro porque estou prestando serviço comunitário essa semana.

O deputado ficou feliz e foi embora.

No dia seguinte, quando o barbeiro veio abrir sua barbearia, havia uma dúzia de deputados, com seus filhos, tios, sobrinhos, afilhados, vizinhos, cabos eleitorais, todos fazendo fila para cortar cabelo.

Essa é apenas uma das diferenças entre os cidadãos de bem e os políticos.


Autoria desconhecida

* * *
Encontre as seis diferenças entre as fotos de sapatos de boliche. Clique na imagem para ver mais de perto.
Imagem:  Find the Differences - Glow Images (Flickr)

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Respeite a sua vida





Muitas pessoas buscam a realização profissional, a estabilidade financeira, um bom casamento, constituir uma família equilibrada, adquirir, além de uma boa casa, outros bens materiais, procuram seguir alguma religião para se sentir bem espiritualmente e tudo isso resume, direta ou indiretamente, na busca da felicidade.

Esses são ingredientes básicos e essenciais para uma vida plena e significativa. Ironicamente, nessa corrida para garantir a felicidade, mesmo que não se deem conta disso, as pessoas costumam esquecer do item mais importante para manter e garantir todas as outras coisas: a saúde. Muitos indivíduos, mergulhados numa louca ambição, acabam se afastando cada vez mais disso e quando se dão conta, pode ser tarde. A vida se tornou tão agitada e ocupada que está tendo seus efeitos sobre nossa saúde e bem-estar. Mais e mais pessoas parecem estar sofrendo de uma série de problemas relacionados com a saúde e com as tensões da vida cotidiana.

Parece ridículo, mas é bem verdadeira aquela frase que diz que "os homens que perdem a saúde para juntar dinheiro e depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde. Por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem o presente, de tal forma que acabam por nem viver no presente nem no futuro. Vivem como se nunca fossem morrer e morrem como se nunca tivessem vivido”. Há mais vida além das posses e realizações profissionais, a saúde e o bem-estar não são comercializados nos mercados.

É importante reconhecer que a felicidade, quando alcançada, mesmo que efêmera, colabora para preservar a boa saúde. É o que chamam de prosperidade emocional. O objetivo é descobrir o que é preciso para viver bem, ter uma vida gratificante e envelhecer de forma saudável.

Alguns fatores que predizem um envelhecimento saudável, tanto física como psicologicamente, são adquiridos de forma muito simples: uma boa educação, um bom casamento, não fumar, não abusar do álcool, praticar exercícios regularmente, manter um peso saudável e, acredite, se comportar de forma altruísta - ser voluntário em causas nobres que gratificam tanto a mente quanto o espírito. E quando estas pessoas atingem um nível estoicista, a gratificação pode ser ainda maior.

Colabora com tudo isso o poder do relacionamento, fator condicionante para uma boa vida. A aptidão social nos leva a um envelhecimento saudável e bem sucedido emocionalmente. Para muitos é o posicionamento social ou o brilhantismo intelectual, ou seja, a alimentação do ego, que provoca um tipo de bem-estar. É errado pensar assim. Nada disso terá importância quando a experiência mostrar que já se viveu o suficiente para ter uma vida plena e quando o indivíduo deixar de ter o mesmo vigor físico e emocional para enfrentar as tempestades do dia a dia. Pois coisas terríveis acontecem a todo momento e ninguém pode se sentir imune. Temos que manter aceso o senso de humor, fazer amigos, dar algo de si aos outros, se divertir e aprender coisas novas.

O efeito de felicidade, ou o bem-estar subjetivo, nos leva a uma vida mais longa, entre outros fatores. Mas como atingir esta felicidade? Em paralelo às outras necessidades básicas, devemos evitar os sentimentos negativos que mais impactam na nossa saúde mental: raiva, intolerância, ciúme e outros venenos. Quantas vezes a gente se depara com algum conhecido que sempre reclama da vida dele ou da dos outros? Não precisa se afastar de pessoas assim, mas evite dar trela a esses papinhos.

Sinto-me orgulhoso com aqueles que enfrentam os desafios da vida com um belo ou singelo sorriso estampado no rosto. Eles até podem carregar uma nuvem negra sobre suas cabeças de vez em quando, mas parecem ter a receita perfeita para fazer surgir o sol por trás da nuvem e espalhar seu brilho ao seu redor no processo de atenuar os seus próprios problemas emocionais ou físicos. São pessoas que tem um controle emocional grandioso e por meio de sua força de vontade e uma disposição invejável afastam a negatividade, espalhando alegria na vida de todos que entram em contato com elas.

Se você não é assim, não tem essa energia toda, que tal começar agora? E em todas as manhãs, ao acordar, faça uma oração matinal de agradecimento a Deus por estar vivo, peça para que te cubra o dia todo de satisfação e alegria. Ao encontrar as pessoas no seu caminho, enriqueça os olhos daqueles que receberem o teu sorriso contagiante. Claro que não é fácil viver a vida toda assim, não se pode viver eternamente num mar de rosas e viajar constantemente num céu de brigadeiro, no entanto, torna a vida mais fácil, mais suportável e cheia de otimismo.

O segredo desta receita de bem-estar é respeitar a vida com todos os seus altos e baixos, e vivê-la intensamente como se não houvesse amanhã.


Márcio Luiz Soares


segunda-feira, 23 de maio de 2011

Fome ou vontade de comer?





Para muitas pessoas a comida serve para aliviar a dor emocional.

Você já ouviu aquela conhecida música dos Titãs?: “Você tem sede de quê? / Você tem fome de quê? / (...) A gente não quer só comer / A gente quer comer e quer fazer amor / A gente não quer só comer / A gente quer prazer pra aliviar a dor”. Realmente muitas vezes o que se esconde por trás de uma compulsão alimentar e de uma sensação de fome constante, não é apenas um alerta de que o nosso estômago está vazio.

Como diz a música, para a maioria das pessoas a comida serve para aliviar a dor emocional, aplacar a carência, descontar a raiva do trânsito, dos pais, do marido, da namorada e etc. Quantas vezes você já se pegou literalmente comendo os seus problemas? Daí como consequência, vêm o excesso de peso e a queda da auto-estima, que também nos leva a comer mais e entrar em um círculo vicioso de comida, problema, aumento de peso, queda de auto-estima, comida, excesso de peso, maior queda de auto-estima e assim por diante.

No fundo, não somos totalmente culpados por esses hábitos, pois quando pequenos nossas mães e tias (e aqui vai um alerta para quem tem filhos pequenos) resolviam todos os nossos problemas, medos, dores físicas e choros noturnos com um chazinho bem doce, uma sopinha, um mingau de aveia ou um pedacinho de bolo, e sem perceber nos estimulavam a associar a comida, o sabor doce e o ato de mastigar como solução às nossas carências, como forma de afeto e consolo.

Devido a esse condicionamento, para algumas pessoas é praticamente impossível cortar o doce da dieta ou não comer diante das adversidades da vida. Como forma de aliviar o vazio interno, algumas pessoas por mais que comam, ainda sentem o estômago com um buraco e não conseguem se saciar. Mas é importante você começar a diferenciar a fome da vontade de comer e identificar quando o vazio não é no estômago e sim nas emoções, e até na alma.

Tenho consciência de que essa tarefa não é fácil, principalmente com o passar dos anos e com o gradual acúmulo de mágoas e frustrações que carregamos. No entanto, há outros hábitos e técnicas mais saudáveis de compensar a sua carência, como, por exemplo, caminhadas, meditação (como forma de relaxamento), boxe (imagine como você estivesse lutando com quem te magoou), corrida (para deixar os problemas para trás) e massagem (para aliviar a carência).

Portanto, da próxima vez que você sentir vontade de atacar um pudim de madrugada, ou terminar de almoçar e ainda continuar com a sensação de estômago vazio, pergunte-se: Você tem fome de quê?


Milena Lhano

Terapeuta floral, grafóloga e iridóloga

* * *

Imagem: cena do filme Comer, rezar, amar, de Ryan Murphy.

sábado, 7 de maio de 2011

Apenas sendo humano





Por diversas vezes, durante a leitura de algum livro ou logo após terminá-lo, fico matutando sobre algumas coisas que tenha sido abordado pelo autor. Isso acontece também depois de assistir alguns filmes ou após uma conversa descontraída com amigos. E foi justamente numa conversa que tive há alguns dias com Esdras Reginato, meu colega de trabalho, que, além de me fazer refletir sobre algo que nunca tinha dado a devida atenção, me fez lembrar de um texto da Martha Medeiros, o qual disponibilizei na postagem anterior. A conversa foi sobre o filme P.S. Eu te Amo. Quando ele me contou que deixou cair algumas lágrimas assistindo ao filme junto com a sua namorada, me toquei no quanto é benéfico se deixar levar por essa emoção arrebatadora, capaz de deixar a gente bem vulnerável e que nem sempre manda recado: o choro.

Os motivos são diversos e a grande maioria vem acompanhada de grande e irremediável tristeza, angústia ou dor. E quando a dor não é física parece que nunca vai acabar.

Apesar de muitas pessoas considerarem o choro como uma emoção negativa, estas mesmas pessoas não podem negar que chorar faz bem. Os sentimentos e a intensidade da dor física ou mental que levam ao choro podem variar de pessoa para pessoa e algumas se esforçam para não deixar isso transparecer, com medo de mostrar fragilidade. Ledo engano.

É interessante como o choro também é um meio de comunicação. É a primeira emoção com que uma criança é introduzida no mundo. Os bebês, antes de falar, choram. É a única maneira de expressar que estão sentindo dor, fome, medo e até mesmo frustração. E essa forma de comunicação dura a vida toda.

Diferentes línguas podem criar obstáculos para a comunicação, mas as emoções são universais. Há também as razões culturalmente aceitáveis para chorar que unem as pessoas, tal como em funerais, em casamentos ou em tragédias. O ser humano chora ao se relacionar com qualquer outro ser. Quem já não chorou ao perder um animalzinho de estimação?

Chorar é a melhor maneira de dar vazão a todas as emoções, seja sob a forma de frustração, raiva ou felicidade. A explosão desencadeia emoções negativas e positivas. Expressando a tristeza pedimos indiretamente o apoio e conforto de nossos pares. E dificilmente não somos atendidos.

O choro também faz bem para a saúde. É considerado como a melhor maneira de reduzir e gerenciar o nível de estresse, desanuviando a tensão mental e diminuindo a pressão arterial. É melhor até para limpar os olhos. A poeira e a sujeira que se instala e fica depositado no olho é removida pela lágrima.

Chorar ajuda a esquecer e amenizar a gravidade de algum evento ruim. Colocamos pra fora os mais profundos sentimentos enraizados. As pessoas reconhecem que se sentem menos onerosas depois de chorar. Principalmente depois que transmitimos nosso amor para com as pessoas que amamos e prezamos.

Chorar faz realmente muito bem. Mesmo quando a gente se depara numa situação limite, nos derrubando, fazendo a gente perceber que estamos mergulhados num turbilhão de sentimentos que estão fragilmente encobertos pela couraça da falsa quietude. Nisso, surge a melancolia. É exatamente nestes momentos que compreendemos o que realmente acontece dentro de nós. Por isso, muitos escritores admitem que a melancolia é um gerador de inspiração.

Deixar escorrer algumas lágrimas durante um filme sentimental não significa que você é uma pessoa exageradamente sensível. Na verdade, significa que você está se comportando como um ser humano perfeitamente normal, que sabe se entregar aos seus mais profundos sentimentos. Que vive. Que é humano.

Encerro com uma frase anônima que recebi por intermédio da minha amiga Ana Luisa Pontes, ao comentar sobre este assunto, a qual sintetiza bem isso tudo: “Quem não se permite sentir a tristeza quando está triste, também não se permite ser feliz quando tem que ser”.


Márcio Luiz Soares

* * *

Imagem: Sorrow longing tears, de Westia.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Chorar faz bem





Comecei a ficar mais atenta às verdadeiras razões dos meus choros, que, aliás, costumam ser raros. Já aconteceu de eu quase chorar por ter tropeçado na rua, por uma coisa à-toa. É que, dependendo da dor que você traz dentro, dá mesmo vontade de aproveitar a ocasião para sentar no fio da calçada e chorar como se tivéssemos sofrido uma fratura exposta.

Qualquer coisa pode servir de motivo. Chorar porque fomos multados, porque a empregada não veio, porque o zíper arrebentou bem na hora de sairmos pra festa. Que festa, cara-pálida? Por dentro, estamos em pleno velório de nós mesmos, chorando nossa miséria existencial, isso sim. Não pretendo soar melodramática, mas é que tem dias em que a gente inventa de se investigar, de lembrar dos sonhos da adolescência, de questionar nossas escolhas, e descobre que muita coisa deu certo, e outras não. Resolve pesar na balança o que foi privilegiado e o que foi descartado, e sente saudades do que descartou.

Normal, normalíssimo. São aqueles momentos em que estamos nublados, um pouco mais sensíveis do que gostaríamos, constatando a passagem do tempo. Então a gente se pergunta: o que é que estou fazendo da minha vida? Vá que tudo isso passe pela sua cabeça enquanto você está trabalhando no computador. De repente, a conexão cai, e em vez de desabafar com um simples palavrão, você faz o quê? Cai no berreiro. Evidente.

Eu sorrio muito mais do que choro, razões não me faltam para ser alegre, mas chorar faz bem, dizem. Eu não gosto. Meu rosto fica inchado e o alívio prometido não vem. Em público, então, sinto a maior vergonha, é como se estivesse sendo pega em flagrante delito. O delito de estar emocionada. Mas emocionar-se não é uma felicidade? Neste admirável mundo de contradições em que a gente vive, podemos até não gostar de chorar, mas trata-se apenas da nossa humanidade se manifestando: a conexão do computador, às vezes, cai; por outro lado, a conexão conosco mesmo, às vezes, se dá.

Sendo assim, sou obrigada a reconhecer: chorar faz bem, não importa o álibi. É sempre a dor do crescimento.


Martha Medeiros

Extraído do seu livro Coisas da Vida

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Imagem: I saw you cry, de alineblood [Deviantart]

domingo, 20 de março de 2011

Responsabilidade se adquire





Aprender com os erros. Isto serve para tantas coisas na vida da gente. A cada tropeço, a cada queda, a cada reconhecimento de nossos erros, vamos moldando nossa personalidade, nosso caráter, e, assim, auxiliando na construção da responsabilidade que aplicamos em diversas situações por toda a vida.

Quem não aprende com os próprios erros e não se esforça, que transfere a culpa a alguém ou a alguma coisa, comete os mesmos erros repetidamente e a possibilidade de se tornar uma pessoa fracassada, de mal com a vida, é enorme.

Responsabilidade se adquire. Não é algo a que tem direito. Se você notar que alguém hesita dar-lhe alguma responsabilidade adicional, provavelmente é porque você foi indiferente com outra responsabilidade que já tinha. Se você é do tipo de pessoa que pensa “se me derem algo para fazer que seja desafiante, levarei mais a sério”, saiba que essa é uma atitude irresponsável.

Existem pessoas que somente fazem as coisas enquanto elas são um desafio, quando é novidade e quando é divertida - e quando isso se desvanece, elas perdem o interesse. Claro que diversas atividades com o passar do tempo se tornam cansativas, rotineiras e desestimulantes, mas isso não significa que devemos executá-las de qualquer jeito, fazendo por fazer, dando a entender que aquilo é inútil, quando na verdade devemos considerar que é por meio delas que pagamos nossas contas.

Em qualquer situação, sempre existem alguns fatores que não podemos controlar. As pessoas irresponsáveis tendem a transferir a culpa para esses fatores, e acabam acreditando piamente que o problema não é delas. Quando fazem uma desculpa, quando dizem "eu não sou responsável por isso por que...", o que estão realmente dizendo é: "Eu não sou responsável."

Preste atenção em como você pensa e fala - você se encontra fazendo desculpas? As desculpas surgem de diversas formas e o mais comum é: "Eu ia fazer, mas...". Ah, esse “mas”!

Volta e meia me deparo com pessoas que se dizem vítimas das circunstâncias. Ninguém tem o controle absoluto sobre tudo, mas se alguém está sendo forçado a fazer algo contra sua vontade, deve raciocinar que, mesmo assim, ainda tem uma chance de influenciar o resultado. Muitas pessoas que não assumem a responsabilidade por suas atitudes se veem como pessoas indefesas e seus próprios esforços como futilidades.

Assumir a responsabilidade por algo que você vai levar a culpa, se ele não funcionar, é uma atitude coerente que denota que você sabe superar seus fracassos e que aprende com eles. Em outras palavras, não é o fim do mundo se você errar! Reconheça o seu papel. Não tenha vergonha de admitir seus erros e demonstre o quanto se esforça em deixar de cometê-los. Não só irá reforçar o seu próprio senso de responsabilidade, como também vai ganhar o devido respeito.

Outra coisa que devemos considerar como importante dentro da esfera da responsabilidade, conforme diz o ditado, é: não morda mais do que você pode mastigar. Não assuma compromissos que você provavelmente não poderá cumprir. Às vezes, dizer "não" é a coisa mais responsável a fazer.

Perda de confiança e falta de motivação, ao longo do caminho, é totalmente natural e certamente você encontrará uma maneira de superar esses incômodos. Tenha em mente que o importante é o que você recebe de volta.


Márcio Luiz Soares

domingo, 22 de novembro de 2009

Planos






“A vida acontece quando você está ocupado fazendo outros planos”.
John Lennon


Não sou um primor de organização, mas gosto das coisas certas, de uma certa arrumação, de ver os objetos no seu devido lugar e acho saudável fazer planos para o futuro. Como muita gente.

Vários dos planos que fiz da minha vida para este ano deram errado. O pior é que fiz poucos planos! Isso é normal, dependendo de certos parâmetros estabelecidos, sempre existe a possibilidade de algo dar errado e seria surpreendente se tudo desse certo. E nem é preciso lembrar de Murphy. Quando quebrei o pé e tive que ficar em casa me recuperando, vi escorrer pelo ralo do inconformismo, a cada semana, a cada dia, a cada hora [oh, Deus!], muita coisa que havia planejado para este ano. Inclusive do próximo ano – o que me deixou mais estressado.

Como o ano ainda não terminou, vou me esforçar e torcer para que alguns daqueles planos dêem certo. Sou otimista por natureza, não costumo pintar um quadro desesperador, mas quando vejo que muitas coisas fogem do meu controle, começo a vislumbrar o pior. Dura pouco. Porém, nem deveria acontecer. O que me consola é que tudo não passa de uma reação natural do ser humano. A gente se arma perante os acidentes de percurso e nem sempre consegue apenas se lamentar, sem esbravejar, sem xingar o mundo todo. No entanto, é exatamente no momento de extremo pessimismo, quando me vejo mergulhado num lago de desesperança, acuado, que vejo a bóia da realidade na superfície e a agarro me fazendo acreditar que nem tudo está perdido. Ainda bem. Só que nessa altura do campeonato, a gastrite já tomou conta do pedaço!

De qualquer forma, com o tempo me recupero bem e chuto o balde. Neste ponto, paro de planejar os meus passos (ou a grande maioria deles), deixo que muita coisa aconteça e no final acabo vendo que foi a escolha certa.

O estranho de tudo isso é o fato de tornar a acontecer ano a ano, se repetindo e parece que nunca aprendo. Faço planos, alguns não dão certo, nem me importo tanto; outros não dão certos também, mas me estresso pacas, me aborreço, fico mal, para depois apertar o botão do “nem te ligo” e o resultado final acaba sendo positivo. O ano rendeu. Apesar das perdas.

Respeito muito o Senhor Destino, mas sou daqueles que acreditam que somos nós que temos as rédeas, que optamos por um ou outro caminho e, inclusive, por deixar a coisa rolar livremente. E por decidir deixar as coisas acontecerem, mesmo ficando na mão do destino, é que vejo o quanto a vida pode preparar algumas boas surpresas. Contando com uma ajudinha da sorte, habitando em algum canto junto com as chances e os planos, e me confortando em saber que não posso saber de tudo.

Assim, vou escrevendo o roteiro da minha vida, sem saber qual será o final. Apenas que terá um fim.


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[Ilustração de Mark Kostabi, “The Big Drawing” (1991)]