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terça-feira, 21 de abril de 2015

Sylvia Plath



Esta semana assisti a um comovente drama baseado em fatos reais: Sylvia - Paixão além de palavras, com Gwyneth Paltrow (ótima no filme) interpretando Sylvia Plath, poetiza americana que teve o seu primeiro poema publicado aos oito anos de idade, além de centenas de poemas escritos ainda em sua época de estudante. Considero o filme comovente pela forma como abordou a depressão que foi tomando, envolvendo e encurralando a personagem principal. O filme retrata o relacionamento da poetiza com o também poeta e escritor Ted Hughes (interpretado por Daniel Craig). 

Logo no início, acompanhamos o namoro dos dois, ainda como estudantes e cheios de criatividade literária. O filme segue mostrando seu casamento tumultuado enquanto trabalhavam e criavam dois filhos pequenos, passando por um misto de amargura e infidelidade, em meio ao sucesso de Hughes e a insatisfação profissional de Sylvia Plath. Após o divórcio, num período de poucos meses ela produziu as poesias surpreendentes que a faria muito mais famosa. Mesmo tendo atingido o sucesso que desejava e escrito um romance (A redoma de vidro - com o pseudônimo de Vitoria Lucas), a poetiza teve um fim trágico. 

Este drama é muito bom, embora triste e melancólico, vale a pena. A personagem, apesar da obsessão doentia, é envolvente. Seus poemas foram pouco explorados no filme, mas os que foram citados já denotam a carga emotiva e a qualidade textual peculiar da poetiza. 

Eu já conhecia algumas de suas poesias, mas agora, depois de ver este filme, fiquei muito mais interessado. Corri pra procurar seus textos na internet, e saber algo mais sobre sua vida. Fui muito influenciado pelo filme, claro, pois as poesias são narradas no filme de uma forma relativamente sombria e isto, admito, me atraiu bastante. 

Aliás, seus textos, além de muito confessionais, são deliciosamente sombrios. Gosto de textos que deixam algo no ar e que ao mesmo tempo expressam uma certa obscuridade, que o autor se expõe ou que parece se expor, querendo indicar algo que aparentemente só ele é capaz de ver ou de sentir. Não sei se consegui me expressar, mas o que quero dizer é que, como disse uma das personagens do filme, "há uma perturbação neles". E me identifico com isso também, principalmente por eu já ter rascunhados alguns textos sombrios que, de tão obscuros, não os tiros da gaveta. Pelo menos por enquanto. 

O que se observa na poesia de Sylvia Plath é a agressividade, o sarcasmo, o vasto uso de metáforas e a maneira como expressa suas emoções, fazendo com que o leitor imagine determinadas imagens (que beiram o surreal) e, por meio delas, é possível compreender seus sentimentos. Para mim, seja em poesias ou em qualquer tipo de texto, isto é bem marcante. Destaco: Daddy (Papaizinho); Ariel; Lady Lazarus; Mirrors (Espelhos); Words (Palavras); The Munich mannequins (Os manequins de Munique); e Frog Autumn (Outono de rã). 

Abaixo, reproduzi parte do diálogo que a personagem tem com seu ex-marido numa tentativa de reconciliação. 

Na sequência, a ótima poesia que abre o filme. E que abertura!


Márcio Luiz Soares

*
“Nem somos duas pessoas. Mesmo antes de nos conhecermos, éramos apenas duas metades andando por aí com grandes espaços vazios no formato de outra pessoa. Quando nos encontramos, finalmente nos completamos.”

*

A árvore da vida


Às vezes eu sonho com uma árvore,
E essa árvore é a minha vida.
Um galho é o homem com o qual me devo casar
E as folhas, os meus filhos.
Outro galho é o meu futuro como escritora.

E cada folha é um poema.

Um outro galho é a minha brilhante carreira acadêmica.
Mas enquanto eu estou lá, tentando escolher,
As folhas começam a ficar marrons e começam a cair
Até que a árvore fica completamente nua.


Sylvia Plath

*
Quer ver mais poesias dela? Então clique aqui e aqui. Também pesquise pelos títulos que mencionei - poderá encontrar várias traduções divergentes, já adianto. 

E como eu sou bonzinho, veja aqui a abertura do filme que encontrei no Youtube.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Morte




Há muito tempo, no Tibete, uma mulher viu seu filho, ainda bebê, adoecer e morrer em seus braços, sem que ela nada pudesse fazer. Desesperada, saiu pelas ruas implorando que alguém a ajudasse a encontrar um remédio que pudesse curar a morte do filho. Como ninguém podia ajudá-la, a mulher procurou um mestre budista, colocou o corpo da criança a seus pés e falou sobre a profunda tristeza que a estava abatendo. O mestre, então, respondeu que havia, sim, uma solução para a sua dor. Ela deveria voltar à cidade e trazer para ele uma semente de mostarda nascida em uma casa onde nunca tivesse ocorrido uma perda. A mulher partiu, exultante, em busca da semente. Foi de casa em casa. Sempre ouvindo as mesmas respostas. “Muita gente já morreu nessa casa”; “Desculpe, já houve morte em nossa família”; “Aqui nós já perdemos um bebê também.” Depois de vencer a cidade inteira sem conseguir a semente de mostarda pedida pelo mestre, a mulher compreendeu a lição.

Voltou a ele e disse: “O sofrimento me cegou a ponto de eu imaginar que era a única pessoa que sofria nas mãos da morte”.

A morte pode ser vista como um mistério incompreensível. Ou como um absurdo inaceitável. A morte pode até ser tratada como um tabu, assunto do qual a maioria das pessoas não gosta de falar. Mas, seja como for, aceitemos isso ou não, a morte é um fato, uma realidade inexorável. E que vem para todos nós. Por mais que queiramos nos esconder dela, deixar de existir é uma coisa tão natural quanto existir. Na verdade, a morte é provavelmente a única coisa certa na sua existência ou na minha – e também na de nossos pais, nossos filhos, nossos ídolos e inimigos, de todas as pessoas que amamos e mesmo daquelas que jamais chegaremos a conhecer: é certo que todos nós vamos morrer um dia. Pessoas boas, pessoas ruins, gente em Xanxerê, Santa Catarina, ou em Nagano, no Japão. E esse dia pode acontecer amanhã ou daqui a 60 anos.

A morte faz parte da vida. Todos começamos a morrer exatamente no dia em que nascemos. A morte, portanto, é uma etapa da nossa existência com a qual temos que conviver. Pode-se conviver melhor ou pior com ela. Mas não se pode evitá-la. Pode-se aceitar a sua inevitabilidade e olhá-la de frente. Ou pode-se negá-la, fugir dela, imaginar que não pensar na morte possa fazer com que ela deixe de acontecer com você ou com a sua família. Mas o fato é que todos nós estamos programados para nascer, crescer e morrer – uma obviedade esquecida por boa parte da sociedade ocidental contemporânea, que teima em ver a morte como um evento artificial, inesperado e injusto. Sobretudo, costumamos vê-la como um evento exclusivo, pessoal, que isola quem sofre uma perda, por meio da dor, do resto do mundo. Quando, ao contrário, não há nada menos exclusivo do que morrer. Nem nada que perpasse mais a humanidade do que o sofrimento de uma perda.

Como está expresso na fábula tibetana, a morte não é privilégio nem desgraça particular de ninguém. Ela chega para todos, sem exceção.

Maria Fernanda Vomero


Trecho extraído da Revista Super Interessante –leia a matéria na íntegra aqui.

domingo, 24 de março de 2013

Parte da trilha



Eu soube que nos tornaríamos um só imediatamente
À primeira vista, eu senti essa energia dos raios de sol
Eu vi a vida dentro de seus olhos

***
Diamonds, com a Rihanna. Uma bela canção para ser ouvida (e cantada) com sentimento. Difícil não se emocionar.



Não deixe de ver essa ótima versão cheia de sentimento.



Veja esse outro clipe bem legal, de uma versão bem feitinha. Outra versão bem interessante, você curte clicando aqui.

E aqui você vê a letra e a tradução.


terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Perdição




Deixe-me sofrer se você quiser
pode me deixar
despertado do sono.

Vallejo


Provido de seu alimento intelectual, atira-se à cama. Ei-lo ao abrigo. Sua vida limita-se a ações simples: dormir, comer, beber, fumar, fazer amor. Sua assiduidade para comigo, se bem que tome grande parte do dia e da noite, restringe-se a meu corpo. O que sabe de mim, é aquilo que consegui encaixar na conversação, eventualmente; logo que falo de mim, que quero exprimir uma ideia, tenho a impressão de nadar no seco. Possuo apenas a existência material. Não ouve o que digo, olha-me; é uma impressão bastante curiosa, como se eu existisse ao lado de mim. Encolhido em sua liteira, observa-me, e, sem levar em conta hora e circunstância, quando passo ao seu alcance, agarra-me, mesmo se estou passando o aspirador ou se tenho nas mãos os quatro cinzeiros. Foi assim que quebrei o quinto.

Em silêncio, puxa-me para a grande cama que é o seu domínio, o lugar onde dispõe de suas forças como Anteu e a terra. Ele, tão frágil em pé, que não se pode manter erguido e dir-se-ia arrastar-se de uma estação à outra, revive uma vez deitado. Essa cama! Mundo completo, fechado, segregado de tudo, tem sua vida, sua paisagem de cinzeiros e livros negros; seu próprio sol: a lâmpada que Renaud conserva acesa mesmo durante o dia, como se não soubesse que existe a claridade diurna; sua fauna: o grande animal que mora encolhido, e o pequeno que gravita em redor e se deixa cair na armadilha, vítima continuamente devorada e complacente.

Com um vigor que raia pelo sistema, pela tática militar, como uma máquina de guerra, abate, uma a uma, minhas defesas solidamente dispostas. Se distingue um receio em meus olhos, um arremedo de fuga, uma crispação, é por aí que ele vai, é por aí que desfecha o ataque, e luta até minha rendição; a rendição, essa tem que ser total. Nada o incita mais que um trêmulo "não"; um não nada mais é que algo que deve ser transformado em sim. Meu Deus! será possível que haja tantos nãos no corpo de uma mulher? Como eu fazia disso uma ideia limitada! "Mocinha de princípios, vem cá." Um princípio deve ser cercado. Pudor, para ele, significa: qualquer coisa lá por baixo. Se resisto demasiado, renuncia com uma indiferença desdenhosa, mais dolorosa que o mais doloroso de seus empreendimentos, e mergulha na leitura de Peter Cheney. Perdida, despedida por impotência, envergonhada, será preciso que eu dê o primeiro passo e ofereça aquilo que negava. Pouco a pouco, desmantelada, avanço pelo país desconhecido de meu corpo, e avalio, para meu espanto, como eu vivia longe de mim mesma. Mas o quê, podia desconhecer-me a tal ponto? Tudo jazia ali, aquilo que Renaud, quase à força desaloja, teria eu deixado dormir a vida inteira? Essa reflexão me confunde, não sei concluí-la, leva-me à beira de um abismo, penso em Claude, em Pierre, na maioria das pessoas que conheço e que são como eu, ou melhor, como fui: será possível que todo mundo, essas pessoas empertigadas que não gostam de falar "dessas coisas", que lhe dão as costas, vigilantes em defenderem-se delas, e que, de resto, a elas se entregam facilmente - como eu chegava até ali, sem luta, através de um sistema de viseiras, uma modalidade de esquecimento -, que será possível que essas pessoas passem ao largo de si mesmas, viviam serenamente nessa letargia dos sentidos de onde, dificilmente, sob a férula de uma chantagem amorosa, saio como de um longo sono? Isso dá uma estranha medida do uso que fazemos de nós.

Ainda estou longe de ser completa; o essencial me escapa. Incomodam-se as próprias atenções de Renaud, analiso-me demais, perco-me na procura, envergonham-me seus esforços infrutíferos sob seus olhos sempre abertos, tenho medo de desgostá-los com minha inaptidão para o prazer, eu que outrora - outrora: ontem - enfadava-me com o prazer. Mas Renaud parece dispor de uma paciência infinita; esse monstro de egoísmo, que não se preocupa com amar, é o mais generoso dos amantes, no amor nunca pensa em si mesmo, e, para cúmulo, reserva seu próprio prazer para quando já estão esgotados os que pode me proporcionar. Se não ama, muito menos se ama é preciso fazer-lhe justiça. E esse aprendizado pelo qual ele me faz passar não é para seu deleite, mas para meu governo: não são lições de erotismo que me dá, mas uma única lição; se amas, ao menos sê capaz dos atos do amor, ou então, cala-te. Então, uma espécie de honra convida-me a me abandonar sempre e cada vez mais.

Honra: honra que ontem eu teria chamado precisamente desonra. Tudo vacila, onde estão os valores? O amor se resolveu, fez deles um caos; não sei se decaio ou se me formo, não tenho mais moral, não estará justamente aí armadilha de que se fala, essa demência com a qual, segundo se diz, o amor costuma cegar, não estarão aí os extravios dos sentidos? Ora tenho vergonha do que era, ora do que passo a ser: não sou uma escrava? Ou serei uma verdadeira mulher? Quando estou presa à contemplação dos lábios de Renaud, possuída de desejos inconfessáveis que ele imediatamente percebe, ou, se a um sinal dele, dispo-me e me exponho às suas exigências, ou se ouço as queixas que ele não me permite abafar - será isso sensualidade natural, ou serão aberrações perversas, enfim, serei ainda normal, ou já estarei viciada? Esse prazer, ao mesmo tempo demasiado forte e parcial, o único ao qual ainda aquiesço, entorpece-me e obceca. A necessidade apodera-se de mim tão violentamente, em meio a ocupações tão pouco propícias, que cuido descobrir o velho sentido da tentação: de fato mais forte que a gente. Renaud me vê, minha face em fogo, pronta a passar por onde ele quiser, ele sorri, e esse sorriso não merece outra qualificação a não ser a de diabólico. Quase tenho medo dele: não pensará em me perder? Para onde me arrasta? Eis que meu cérebro começa a abrigar noções irracionais de pecado, de queda, de vício, de perdição.

Quando deixo essa cama, esse mundo sem tempo, onde o dia e a noite se entrelaçam e onde nenhuma ordem, nenhum indício, nenhum apoio aparecem, verdadeiramente é de outro planeta que venho, e não mais reconheço este aqui.

Não me lembro de nada. Viro-me, os braços inertes - onde estava eu? Esse homem quebrou o tempo, dele fez uma grande noite uniforme, interrompido apenas pelos chamados que vêm de fora: é minha mãe, é Pierre, é Claude que se inquietam, e ouço-lhes as vozes ao longe, como quando estive muito doente: do fundo da indiferença fisiológica é que os rumores da vida mais atingem. É verdade, estou doente, desfiz-me do tempo, enveredei pelo sombrio reino de Renaud, que morreu. Vivo com um morto que me aspira a seu lado.

Após essas viagens necessito de horas, ou talvez dias, não sei, para me refazer. Eu que, quando bandeirante era chamada "Abelha Laboriosa"! Acontece que, saindo para o almoço, deparo-me com a noite lá fora, dir-se-ia que Renaud lança um sortilégio sobre os relógios: desmantelam-se, um após outro. E, certa manhã, vendo minha árvore sem folhas, dou-me conta de que, também eu, esqueci meu jardim. Começa a trabalhar-me o medo de haver perdido a matrícula, e de quase ter perdido o mundo; é como se eu estivesse num convento. Claude me escreve: julga-me doente. Minha mãe, ultrajada, manifesta sua existência por meio de um silêncio total dos mais opressivos. Por fim, Pierre agarra o inimigo de frente, interroga: "Não me esconda a verdade, peço-lhe" - diz-me, certa noite, ao telefone. "Já compreendi que se passa alguma coisa." Respondo que sim, num suspiro. "Algo grave?" Sim... Não era nada fácil explicar ao telefone, com Renaud ali. "É preciso que me diga imediatamente. "Escute, quer me encontrar amanhã?" "Você acha que, agora, vou deixar passar mesmo que seja uma noite? Venha imediatamente." Vi, afinal, com um pouco de clareza, o que estava fazendo, e concordei com um encontro em Duroc, de onde ele me telefonava.

- Tenho que sair por um momento.

Renaud, que, entretanto, ouvira o bastante para compreender, emite um grunhido indiferente: com ele, gozo de minha plena liberdade. Se anunciasse: tenho que ir encontrar-me com um novo amante, ele não teria outra reação. Está lendo Hadley Chase. Pergunto-me se o devo beijar antes de deixá-lo.

- Até logo, Renaud...

Ergue o grande nariz, faz um aceno e volta a abismar-se. Como se eu fosse buscar o jornal.

*
Extráido do livro O Repouso do Guerreiro, de Christiane Rochefort.

***
Ilustração: Café (1949). Quadro de Leonard Tsuguharu Foujita (Japanese, 1886-1962).

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Parte da trilha





Ela olha pra você, seu humor normal, sua alma tão limpa.
E ela imagina: eu sou tão feliz quanto poderia ser?

Se você quiser ficar no chão fale por si mesmo.
Se você quiser deixá-la por aí, deixe-a ser ela mesma.

Ela quer paixão, ilusão, brigas e mentiras.
Ela quer desejar, desafiar, gritar, voar!!

Ela quer os danos que não pode achar no seu beijo.



* * *
Texto compilado da letra da música que foi feita pra ouvir bem alta - bota o fone e curte o clipe aí!

She - Brollies & Apples


A letra e a tradução você pega aqui.

sábado, 14 de julho de 2012

Parte da trilha





É preciso brindar o destino
É preciso gritar começou
Se jogar nessa dança na vida
Sem medo do escuro

Impossível não falar de amor

Cada vida tem a sua estrada
Acredite no poder das palavras

É preciso falar
A verdade


(Trechos da música É preciso - A próxima parada)

* * *
Clipe oficial




Confira a letra completa aqui.

Outras versões bem interessantes:




sábado, 30 de junho de 2012

A trégua






“A vida é suficientemente amarga para que, além disso, fiquemos chorosos, melindrosos ou histéricos só porque algo se antepôs em nosso caminho e não nos deixa seguir nosso percurso até a felicidade, que às vezes vai lado a lado com o desatino.”

***
Domingo, 17 de março

Se eu algum dia me suicidar, será num domingo. É o dia mais desalentador, o mais sem graça. Quem me dera ficar na cama até tarde, pelo menos até as nove ou as dez, mas às seis e meia acordo sozinho e já não consigo pregar o olho. Às vezes penso o que farei quando toda a minha vida for domingo. Quem sabe? Vai ver que me acostumo a despertar às dez horas. Fui almoçar no Centro, porque os rapazes saíram para o fim de semana fora, cada um para seu lado. Comi sozinho. Nem sequer tive forças para entabular com o garçom o fácil e ritualístico intercâmbio de opiniões sobre o calor e os turistas. Duas mesas adiante, havia outro solitário. Tinha o cenho franzido, partia os pãezinhos a socos. Duas ou três vezes olhei para ele, e numa oportunidade seus olhos cruzaram com os meus. Tive a impressão de que ali havia ódio. O que haveria para ele nos meus olhos? Deve ser uma regra geral, isso de nós, os solitários, não simpatizarmos uns com os outros. Ou será que, simplesmente, somos antipáticos?

Voltei para casa, dormi a sesta e me levantei pesado, de mau humor. Tomei uns mates, mas estavam amargos, e me aborreci. Então me vesti e fui outra vez ao Centro. Desta vez me meti num café; consegui uma mesa junto à janela. Em um lapso de uma hora e 15, passaram exatamente 35 mulheres interessantes. Para me entreter, fiz uma estatística sobre o que mais me agradava em cada uma. Anotei tudo no guardanapo de papel. Este é o resultado. De duas, gostei de cara; de quatro, do cabelo; de seis, do busto; de oito, das pernas; de 15, do traseiro. Ampla vitória dos traseiros.

*
Segunda, 18 de março

Ontem Esteban voltou à meia-noite, Jaime à meia-noite e meia, Blanca à uma da manhã. Escutei todos, captei minuciosamente cada ruído, cada passo, cada palavrão murmurado. Acho que Jaime veio um pouco bêbado. Pelo menos, tropeçava nos móveis e por quase meia hora manteve aberta a torneira da pia. Os xingamentos, no entanto, eram de Esteban, que nunca bebe. Quando Blanca chegou, Esteban disse a ela alguma coisa lá do seu quarto, e ela o mandou ir cuidar da própria vida. Depois, silêncio. Três horas de silêncio. A insônia é a peste dos meus fins de semana. Quando eu me aposentar, será que não vou dormir nunca?

Hoje de manhã, falei somente com Blanca. Disse que não me agradava que ela chegasse àquela hora. Ela não é insolente, de modo que não merecia meus resmungos. Mas acima disso está o dever, o dever de pai e mãe. Eu deveria ser os dois ao mesmo tempo, e creio que não sou nada. Senti que passava dos limites quando me ouvi perguntar, em tom de admoestação: "O que você andou fazendo? Aonde foi?" Ela então, enquanto passava manteiga na torrada, respondeu: "Por que você se sente obrigado a bancar o mau? Há duas coisas das quais temos certeza: que temos carinho um pelo outro e que eu não estou fazendo nada errado." Fiquei derrotado. Ainda assim acrescentei, só mesmo para salvar as aparências: "Tudo depende do que você entende por errado".

* * *

Esses textos foram extraídos de A trégua, de Mario Benedetti. Um livro excepcional, daqueles que quando a gente começa a ler não dá vontade de parar, mas que quando chega ao final, seja por simplesmente terminá-lo ou pelos acontecimentos derradeiros, dá uma sensação de desamparo, de algo que vai deixar de ter ou de acompanhar, enfim, uma perda. Não sinto constrangimento em admitir que me emocionei a ponto de deixar rolar algumas lágrimas enquanto lia o finalzinho do livro, talvez pelo fato de eu ter me envolvido demais com o narrador/personagem. Na verdade, sempre me envolvo, me aprofundo bastante nos livros que leio, principalmente em romances tocantes como esse.

Narrado como diário, o autor encontrou a forma perfeita para narrar a história de Martín Salomé, um viúvo cinquentão, prestes a se aposentar e, por isso mesmo, atormentado e temeroso de que a futura rotina, cinzenta e dolorosamente previsível, o consuma de forma implacável e irremediável.

Porém, tudo isso pode mudar ao conhecer Laura Avellaneda, uma jovem tímida e muito discreta com quem Martín volta a descobrir o amor.

Tudo isso seria normal para qualquer leitor menos exigente, mas as palavras escolhidas pelo autor, de forma incisivamente desconcertante, ferina, intoxicante, e, por muitas vezes, demolidora, demonstra o quanto sua obra é emblemática e primorosa, apresentando um personagem central construído com esmero, um homem inseguro, passivo, pessimista, incapaz de lidar com o tempo, lutando para não se perder em seu próprio vazio que ameaça se avolumar a cada dia.

E é dessa forma que Benedetti conquista o leitor mais exigente. Além de proporcionar uma profunda reflexão sobre diversos temas, como velhice, amor, sociedade, família, amizade, trabalho e felicidade. Principalmente por se tratar de uma linda história de amor, de grande sensibilidade, e que derruba as barreiras do preconceito. Fazendo até mais que isso, pois ao acompanhar o cotidiano do personagem sentimos com ele a dor de sua busca, de sua redenção, do seu autoconhecimento e toda a sua ironia que o acompanhou durante sua vida e que agora é dinamizada pela busca da felicidade.

Exatamente como qualquer um deve fazer ao se encontrar na mesma situação. Ainda mais quando reencontra o amor, pois é nessa hora que a pessoa se rende e dá a devida trégua para uma vida entristecida pelo tempo e pelas armadilhas que nem sempre conseguimos escapar.


Márcio Luiz Soares

domingo, 18 de março de 2012

Noite sem fim




Toda Noite e toda Manhã
Alguns nascem para a Miséria
Toda Manhã e toda Noite
Alguns nascem para o Doce Deleite,
Alguns nascem para o Doce Deleite,
Alguns para a Noite sem Fim.


William Blake
Augúrios da Inocência

*
Every Night and every Morn
Some to Misery are born
Every Morn and every Night
Some are born to Sweet Delight,
Some are born to Sweet Delight,
Some are born Endless Night.

(Auguries of Innocence)

* * *
Imagem: Flickr - Galeria de Ana Gentili.


quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Espelho





"O que é um espelho? É o único material inventado que é natural. Quem olha um espelho, quem consegue vê-lo sem se ver, quem entende que a sua profundidade consiste em ele ser vazio, quem caminha para dentro de seu espaço transparente sem deixar nele o vestígio da própria imagem - esse alguém então percebeu o seu mistério de coisa."


Clarice Lispector
Extraído do livro Água Viva.

domingo, 16 de outubro de 2011

Existência





Só existo de verdade quando estou escondido numa brecha do tempo no Hotel Danúbio, quando não há roupas nem medo, vergonha nem fingimento, quando somos só desejo e confiança. No resto do tempo me sinto uma cópia falsificada de mim mesmo.


Extraído do filme As Melhores Coisas do Mundo, de Laís Bodanzky.

***
Imagem: pivesives (Flickr).

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Ausência






“(...) Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar, mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas duas pernas. Sei que somente com as duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.”


Clarice Lispector (A Paixão Segundo G.H.) 


quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Contextualize






Quando o primeiro elo da corrente é forjado, o primeiro discurso censurado, o primeiro pensamento proibido, a primeira liberdade negada, nos acorrenta a todos, irrevogavelmente. A primeira vez em que a liberdade de um é espezinhada, todos somos feridos.

* * *
Pense nisso.

Frase extraída da série Star Trek – A Nova Geração, episódio Inquisição (4ª temporada). Sim, eu sou um Trekker e com muito orgulho.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Uma hora de amor




Se eu tivesse somente uma hora de amor
Se fosse a única coisa que eu teria
Uma hora de amor
Nesta terra
Meu amor então
Eu te daria.

(Um Mouro)

* * *
Extraído do filme Um Olhar do Paraíso, de Peter Jackson. O poema, provavelmente, faz referências à peça Othello, de William Shakespeare, comentada no filme. Filmão!

* * *
Imagem: cena do filme.

sábado, 2 de abril de 2011

Viva a vida





Acabei de ver o último episódio da primeira temporada do seriado The Big C (pelo canal HBO) e fiquei muito emocionado. Se você tiver a chance de assistir a série, aproveite. Ela é muito, muito boa, mesmo.

Laura Linney está excelente como Cathy Jameson, uma mulher que manifesta diversos sentimentos e emoções após descobrir que tem câncer terminal. Pode parecer que se trata de uma série piegas, mas não é. Apesar do tema delicado, a série apresenta uma mistura refinada de drama e comédia que faz a gente se envolver no carrossel de emoções juntamente com Cathy e se surpreendendo a cada decisão, a cada atitude que ela toma, provando pra gente que o que realmente importa na vida é procurar realizar nossos sonhos e aproveitar o agora, aproveitar o tempo incerto, aproveitar cada dia como se fosse o último. Em cada episódio uma baita lição de vida. Nunca é tarde para começar a viver de verdade.

Eu não podia deixar de citar a trilha sonora que é impecável. Desde a música tema até as canções que encerram cada episódio. Destaco nesta postagem, a canção que rolou durante as cenas finais do episódio que mencionei. Capaz de provocar lágrimas.

* * *

Na edição do clipe abaixo: Adam, o filho de Cathy, descobre os presentes que a mãe deixou para os seus “próximos aniversários” em que ela, provavelmente, não estará presente. Não esqueça de parar as músicas do blog clicando no pause do player ao lado.

E não deixe de ouvir a música completa e de ler a letra e a tradução: tudo aqui.

Inté.



Se prefere ver em tela maior, veja aqui.

* * *

Imagem: por Showtime – © Showtime 2010.

sábado, 26 de março de 2011

História dos Sentimentos





A base desta historinha, que adaptei, me mandou Martha Herzberg, terapeuta fantástica e amada amiga. Segundo ela, o autor é anônimo, mas desconfio que foi dela essa deliciosa ideia.

Os Sentimentos Humanos certo dia se reuniram para brincar. Depois que o Tédio bocejou três vezes porque a indecisão não chegava a conclusão nenhuma e a Desconfiança estava tomando conta, a Loucura propôs que brincassem de esconde-esconde. A Curiosidade quis saber todos os detalhes do jogo, e a Intriga começou a cochichar com os outros que certamente alguém ali iria trapacear.

O Entusiasmo saltou de contentamento e convenceu a Dúvida e a Apatia, ainda sentadas num canto, a entrarem no jogo. A Verdade achou que isso de esconder não estava com nada, a Arrogância fez cara de desdém pois a ideia não tinha sido dela, e o Medo preferiu não se arriscar: “Ah, gente, vamos deixar tudo como está”, e como sempre perdeu a oportunidade de ser feliz.

A primeira a se esconder foi a Preguiça, deixando-se cair no chão atrás de uma pedra, ali mesmo onde estava. O otimismo escondeu-se no arco-íris, e a Inveja se ocultou junto com a Hipocrisia, que sorrindo fingidamente atrás de uma árvore estava odiando tudo aquilo.

A Generosidade quase não conseguia se esconder porque era grande e ainda queria abrigar meio mundo, a Culpa ficou paralisada pois já estava mais do que escondida em si mesma, a Sensualidade se estendeu ao sol num lugar bonito e secreto para saborear o que a vida lhe oferecia, porque não era nem boba nem fingida; o Egoísmo achou um lugar perfeito onde não cabia ninguém mais.

A Mentira disse para a Inocência que ia se esconder no fundo do oceano, onde a inocente acabou afogada, a Paixão meteu-se na cratera de um vulcão ativo, e o Esquecimento já nem sabia o que estavam fazendo ali.

Depois de contar até 99 a Loucura começou a procurar.

Achou um, achou outro, mas ao remexer num arbusto espesso ouviu um gemido: era o Amor, com os olhos furados pelos espinhos.

A Loucura o tomou pelo braço e seguiu com ele, espalhando beleza pelo mundo. Desde então o Amor é cego e a Loucura o acompanha.

Juntos fazem a vida valer a pena – mas isso não é coisa para os medrosos nem para os apáticos, que perdem a felicidade no matagal dos preconceitos, onde rosnam os deuses melancólicos da acomodação.


Lya Luft

Extraído do livro Pensar é transgredir.

* * *

Imagem: site Jootix

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Alter ego





Bill (David Carradine) atira um dardo com o soro da verdade em Beatrix Kiddo (Uma Thurman). Enquanto a droga não faz efeito, ele conversa com ela sobre o seu personagem de HQ favorito.


Bill - Como você sabe, eu gosto muito de revistas em quadrinhos. Especialmente aquelas sobre super-heróis. Considero toda a mitologia envolvendo super-heróis fascinante. Veja meu super-herói favorito, o Super-Homem. Não é uma ótima revista, não foi bem desenhada, mas a mitologia... A mitologia não só é ótima, é única.

Beatrix - Quanto tempo esta merda leva para fazer efeito?

Bill - Uns dois minutos. O bastante para eu concluir meu raciocínio. Daí que a base da mitologia do super-herói é que há super-herói e há o alter ego. Batman, na verdade, é Bruce Waine. O Homem-Aranha é Peter Parker. Quando o personagem acorda de manhã ele é Peter Parker. Ele tem de vestir uma fantasia para se tornar o Homem-Aranha. E é por causa desta característica que o Super-Homem se destaca. O Super-Homem não se tornou Super-Homem. O Super-Homem nasceu Super-Homem. Quando o Super-Homem acorda, ele é o Super-Homem. O alter ego dele é Clark Kent. A roupa dele, com um grande “S” vermelho, é feita do manto que o envolvia quando os Kents o encontraram. Aquela roupa é dele. O que Kent usa, os óculos, o terno executivo, essa é a fantasia. Essa é a fantasia que o Super-Homem usa para viver entre nós. Clark Kent é como o Super-Homem nos vê. E quais são as características de Clark Kent?

Beatrix - Ele é fraco...

Bill - Ele é inseguro, ele é um covarde. Clark Kent é a crítica do Super-Homem de toda a raça humana.


Diálogo extraído do filme Kill Bill – Volume 2, de Quentin Tarantino.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Vingança





A vingança nunca é uma linha reta. É como uma floresta onde é fácil perder o rumo e esquecer por onde entramos.


Frase extraída do filme Kill Bill - Volume 1, de Quentin Tarantino.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Falta do que não se tem





Na minha vida encontrarei milhares de corpos femininos.

Desses milhares, desejarei algumas centenas, mas dessas centenas de mulheres, estarei sempre amando só uma. E por que essa e não outra? O que me fará ter medo de perdê-la? Que parte desse corpo, que gesto dessa mulher, que palavra?

O jeito de levar a mão à cintura? Uma mecha de cabelo que cai sobre a testa? O livro que lê sozinha na praia?

São necessários muitos acasos e uma teia de coincidências, para que eu a encontre. Enquanto isso não acontece, estou condenado a buscá-la. Em estado de suspensão, com o espírito confuso, flutuando como o mar, soprando como o vento. Sem verdades, nem palavra.


* * *

O texto (sem título) foi extraído da série televisiva Afinal, o que querem as mulheres? (episódio 2), veiculado pela Rede Globo.

domingo, 29 de março de 2009

Ela está em toda parte





Morpheus: Eu imagino que, neste momento, você deva estar se sentindo como Alice. Humm? Despencando pela toca do coelho?
Neo: Por aí...
Morpheus: Eu vejo em seus olhos. Você tem o olhar de um homem que aceita o que vê porque está esperando acordar. Ironicamente, isso não está longe da verdade. Você acredita em seu destino, Neo?
Neo: Não.
Morpheus: Por que não?
Neo: Eu não gosto da idéia de que eu não controlo minha vida.
Morpheus: Eu sei exatamente o que você quer dizer. Deixe-me dizer por que você está aqui. Você está aqui porque sabe de algo. O que você sabe, não consegue explicar, mas você pode sentir. Você sentiu sua vida inteira, que algo está errado com o mundo. Você não sabe o que é, mas está lá, como uma farpa em sua mente, te deixando louco. Foi essa sensação que o trouxe até mim. Você sabe do que eu estou falando?
Neo: Matrix.
Morpheus: Você quer saber o que é?
Neo: Sim.
Morpheus: Matrix está em toda parte. Ao nosso redor. Mesmo agora, nesta sala. Você pode vê-la quando olhar por sua janela ou quando você liga a TV. Você a sente quando vai trabalhar... Quando vai à igreja... Quando paga seus impostos. É o mundo posto ante seus olhos para cegá-lo da verdade.
Neo: Que verdade?
Morpheus: Que você é um escravo, Neo. Como todo mundo, você nasceu em cativeiro. Em uma prisão que você não pode provar ou enxergar ou tocar. Uma prisão para sua mente... Infelizmente, é impossível dizer a alguém o que é Matrix. Você tem de ver com seus próprios olhos.

* * *

Este ano, o filme Matrix está completando dez anos. Um filme que, para mim, revolucionou o cinema. Extraiu conceitos filosóficos de diversas fontes e os reuniu de maneira inovadora. Sem falar do abuso tecnológico. Um show de imagens.

Me lembro que na época estava ansioso por uma novidade impactante no mundo da ficção científica, e o filme correspondeu às minhas expectativas. Induzido pelo filme, saí do cinema refletindo sobre alguns questionamentos e acabei desejando tomar a pílula vermelha. Para quem não sabe ou não lembra: a pílula vermelha provocava a descoberta da verdade e a azul para voltar a viver na Matrix (uma falsa realidade).

Mas será que não tomamos as pílulas vermelhas e azuis o tempo todo? Quando se deve tomar uma delas? Para alguns as vermelhas devem continuar escondidas no fundo da gaveta. Para outros, só existem as azuis.