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quarta-feira, 24 de junho de 2015

Sonhos e trapos...



Sonhos e trapos...

Sou um andarilho de pés nus,
de peito rasgado pelo sofrimento,
cabelos desalinhados pelo vento.
Sou um menino quase barbado,
um tanto violentado e sem sentimento.
Sou um ser apagado da sociedade,
um delinquente discriminado e valente.
Um menino sem sonhos e sem vaidade.
Estou desfigurado,
um menino em trapos,
que dorme em papelão puído.
Sou nada que me respeitem,
vagabundo, favelado,
rejeitado no meu canto poluído.
Não tenho cultura muito menos faculdade,
deste mundo fui excluído,
com tão pouca idade.
Nasci e fui abandonado,
no banco da praça largado.
As cores da minha vida foram apagadas,
com os chicotes das madrugadas.
Não sinto os sabores,
nem o calor de um abraço amigo.
Minha pele tem cicatrizes,
que não foram eu que fiz.
Se quer um mundo mais humano,
não cometa mais engano
ajude um menino de rua,
ser um pouco mais feliz!


Silvia Trevisani

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Vozerio




Vozerio

Colo meu rosto na mesa e sinto frestas em minha pele
Estou no espaço mudo onde o vasto pensar me cansa
A luz se abstém e os lençóis mal vistos debruçam sobre a cama
O desejo não vem e fraqueja a voz que rasga a garganta
Imersa em terra firme que não racha
Confronto a sombra de não dormir comigo
E é esse barulho a me atormentar
Flagelando as sequências de minha demência
Inquieta no lugar que me afasta
Entrei no espaço inexistente: eu
Que sentimento moribundo balbucia-me?
Corta palavras
Quebra o silêncio
E o barulho vem de dentro


Kate Manhães

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Enchendo



enchendo

invento os lugares
para não estar neles
escrevo palavras que não leio
para me deixar inacabado

o dia amanhece de graça
por isso não vou a espetáculos
vou botar fogo nos poemas
porque estão enchendo o saco


Xico Chaves

Ilustração: Hotel Window by Jane Fisher (Artwork Images)

terça-feira, 21 de abril de 2015

Sylvia Plath



Esta semana assisti a um comovente drama baseado em fatos reais: Sylvia - Paixão além de palavras, com Gwyneth Paltrow (ótima no filme) interpretando Sylvia Plath, poetiza americana que teve o seu primeiro poema publicado aos oito anos de idade, além de centenas de poemas escritos ainda em sua época de estudante. Considero o filme comovente pela forma como abordou a depressão que foi tomando, envolvendo e encurralando a personagem principal. O filme retrata o relacionamento da poetiza com o também poeta e escritor Ted Hughes (interpretado por Daniel Craig). 

Logo no início, acompanhamos o namoro dos dois, ainda como estudantes e cheios de criatividade literária. O filme segue mostrando seu casamento tumultuado enquanto trabalhavam e criavam dois filhos pequenos, passando por um misto de amargura e infidelidade, em meio ao sucesso de Hughes e a insatisfação profissional de Sylvia Plath. Após o divórcio, num período de poucos meses ela produziu as poesias surpreendentes que a faria muito mais famosa. Mesmo tendo atingido o sucesso que desejava e escrito um romance (A redoma de vidro - com o pseudônimo de Vitoria Lucas), a poetiza teve um fim trágico. 

Este drama é muito bom, embora triste e melancólico, vale a pena. A personagem, apesar da obsessão doentia, é envolvente. Seus poemas foram pouco explorados no filme, mas os que foram citados já denotam a carga emotiva e a qualidade textual peculiar da poetiza. 

Eu já conhecia algumas de suas poesias, mas agora, depois de ver este filme, fiquei muito mais interessado. Corri pra procurar seus textos na internet, e saber algo mais sobre sua vida. Fui muito influenciado pelo filme, claro, pois as poesias são narradas no filme de uma forma relativamente sombria e isto, admito, me atraiu bastante. 

Aliás, seus textos, além de muito confessionais, são deliciosamente sombrios. Gosto de textos que deixam algo no ar e que ao mesmo tempo expressam uma certa obscuridade, que o autor se expõe ou que parece se expor, querendo indicar algo que aparentemente só ele é capaz de ver ou de sentir. Não sei se consegui me expressar, mas o que quero dizer é que, como disse uma das personagens do filme, "há uma perturbação neles". E me identifico com isso também, principalmente por eu já ter rascunhados alguns textos sombrios que, de tão obscuros, não os tiros da gaveta. Pelo menos por enquanto. 

O que se observa na poesia de Sylvia Plath é a agressividade, o sarcasmo, o vasto uso de metáforas e a maneira como expressa suas emoções, fazendo com que o leitor imagine determinadas imagens (que beiram o surreal) e, por meio delas, é possível compreender seus sentimentos. Para mim, seja em poesias ou em qualquer tipo de texto, isto é bem marcante. Destaco: Daddy (Papaizinho); Ariel; Lady Lazarus; Mirrors (Espelhos); Words (Palavras); The Munich mannequins (Os manequins de Munique); e Frog Autumn (Outono de rã). 

Abaixo, reproduzi parte do diálogo que a personagem tem com seu ex-marido numa tentativa de reconciliação. 

Na sequência, a ótima poesia que abre o filme. E que abertura!


Márcio Luiz Soares

*
“Nem somos duas pessoas. Mesmo antes de nos conhecermos, éramos apenas duas metades andando por aí com grandes espaços vazios no formato de outra pessoa. Quando nos encontramos, finalmente nos completamos.”

*

A árvore da vida


Às vezes eu sonho com uma árvore,
E essa árvore é a minha vida.
Um galho é o homem com o qual me devo casar
E as folhas, os meus filhos.
Outro galho é o meu futuro como escritora.

E cada folha é um poema.

Um outro galho é a minha brilhante carreira acadêmica.
Mas enquanto eu estou lá, tentando escolher,
As folhas começam a ficar marrons e começam a cair
Até que a árvore fica completamente nua.


Sylvia Plath

*
Quer ver mais poesias dela? Então clique aqui e aqui. Também pesquise pelos títulos que mencionei - poderá encontrar várias traduções divergentes, já adianto. 

E como eu sou bonzinho, veja aqui a abertura do filme que encontrei no Youtube.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Ela




Tão sentimentalmente pura como água,
Tão loucamente lúcida como a morte,
Tão quietante quanto os gritos da solidão,
Tão divinamente simples quanto uma rosa,
Tão brilhante como o sol e,
Tão obscura quanto a noite.
Tão vivaz e envolvente como o amor,
Tão mágica e perdida quanto...


Sotiza
(Tainá Santos)
***
Extraído do blog A Moça dos Olhos Fúnebres
http://sotiza.blogspot.com.br

Recomendo.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Duas faces




Duas Faces

Por que bater, se com a outra mão vai alisar?
Por que xingar, se depois vai jurar amor?
Por que maltratar, se depois vai querer abraçar, pedir carinho?
Não dá para fazer duas coisas de uma vez
Com certeza em uma está sendo falso, decida-se
Quem ama não maltrata



Cristina Lopes

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Perdição




Deixe-me sofrer se você quiser
pode me deixar
despertado do sono.

Vallejo


Provido de seu alimento intelectual, atira-se à cama. Ei-lo ao abrigo. Sua vida limita-se a ações simples: dormir, comer, beber, fumar, fazer amor. Sua assiduidade para comigo, se bem que tome grande parte do dia e da noite, restringe-se a meu corpo. O que sabe de mim, é aquilo que consegui encaixar na conversação, eventualmente; logo que falo de mim, que quero exprimir uma ideia, tenho a impressão de nadar no seco. Possuo apenas a existência material. Não ouve o que digo, olha-me; é uma impressão bastante curiosa, como se eu existisse ao lado de mim. Encolhido em sua liteira, observa-me, e, sem levar em conta hora e circunstância, quando passo ao seu alcance, agarra-me, mesmo se estou passando o aspirador ou se tenho nas mãos os quatro cinzeiros. Foi assim que quebrei o quinto.

Em silêncio, puxa-me para a grande cama que é o seu domínio, o lugar onde dispõe de suas forças como Anteu e a terra. Ele, tão frágil em pé, que não se pode manter erguido e dir-se-ia arrastar-se de uma estação à outra, revive uma vez deitado. Essa cama! Mundo completo, fechado, segregado de tudo, tem sua vida, sua paisagem de cinzeiros e livros negros; seu próprio sol: a lâmpada que Renaud conserva acesa mesmo durante o dia, como se não soubesse que existe a claridade diurna; sua fauna: o grande animal que mora encolhido, e o pequeno que gravita em redor e se deixa cair na armadilha, vítima continuamente devorada e complacente.

Com um vigor que raia pelo sistema, pela tática militar, como uma máquina de guerra, abate, uma a uma, minhas defesas solidamente dispostas. Se distingue um receio em meus olhos, um arremedo de fuga, uma crispação, é por aí que ele vai, é por aí que desfecha o ataque, e luta até minha rendição; a rendição, essa tem que ser total. Nada o incita mais que um trêmulo "não"; um não nada mais é que algo que deve ser transformado em sim. Meu Deus! será possível que haja tantos nãos no corpo de uma mulher? Como eu fazia disso uma ideia limitada! "Mocinha de princípios, vem cá." Um princípio deve ser cercado. Pudor, para ele, significa: qualquer coisa lá por baixo. Se resisto demasiado, renuncia com uma indiferença desdenhosa, mais dolorosa que o mais doloroso de seus empreendimentos, e mergulha na leitura de Peter Cheney. Perdida, despedida por impotência, envergonhada, será preciso que eu dê o primeiro passo e ofereça aquilo que negava. Pouco a pouco, desmantelada, avanço pelo país desconhecido de meu corpo, e avalio, para meu espanto, como eu vivia longe de mim mesma. Mas o quê, podia desconhecer-me a tal ponto? Tudo jazia ali, aquilo que Renaud, quase à força desaloja, teria eu deixado dormir a vida inteira? Essa reflexão me confunde, não sei concluí-la, leva-me à beira de um abismo, penso em Claude, em Pierre, na maioria das pessoas que conheço e que são como eu, ou melhor, como fui: será possível que todo mundo, essas pessoas empertigadas que não gostam de falar "dessas coisas", que lhe dão as costas, vigilantes em defenderem-se delas, e que, de resto, a elas se entregam facilmente - como eu chegava até ali, sem luta, através de um sistema de viseiras, uma modalidade de esquecimento -, que será possível que essas pessoas passem ao largo de si mesmas, viviam serenamente nessa letargia dos sentidos de onde, dificilmente, sob a férula de uma chantagem amorosa, saio como de um longo sono? Isso dá uma estranha medida do uso que fazemos de nós.

Ainda estou longe de ser completa; o essencial me escapa. Incomodam-se as próprias atenções de Renaud, analiso-me demais, perco-me na procura, envergonham-me seus esforços infrutíferos sob seus olhos sempre abertos, tenho medo de desgostá-los com minha inaptidão para o prazer, eu que outrora - outrora: ontem - enfadava-me com o prazer. Mas Renaud parece dispor de uma paciência infinita; esse monstro de egoísmo, que não se preocupa com amar, é o mais generoso dos amantes, no amor nunca pensa em si mesmo, e, para cúmulo, reserva seu próprio prazer para quando já estão esgotados os que pode me proporcionar. Se não ama, muito menos se ama é preciso fazer-lhe justiça. E esse aprendizado pelo qual ele me faz passar não é para seu deleite, mas para meu governo: não são lições de erotismo que me dá, mas uma única lição; se amas, ao menos sê capaz dos atos do amor, ou então, cala-te. Então, uma espécie de honra convida-me a me abandonar sempre e cada vez mais.

Honra: honra que ontem eu teria chamado precisamente desonra. Tudo vacila, onde estão os valores? O amor se resolveu, fez deles um caos; não sei se decaio ou se me formo, não tenho mais moral, não estará justamente aí armadilha de que se fala, essa demência com a qual, segundo se diz, o amor costuma cegar, não estarão aí os extravios dos sentidos? Ora tenho vergonha do que era, ora do que passo a ser: não sou uma escrava? Ou serei uma verdadeira mulher? Quando estou presa à contemplação dos lábios de Renaud, possuída de desejos inconfessáveis que ele imediatamente percebe, ou, se a um sinal dele, dispo-me e me exponho às suas exigências, ou se ouço as queixas que ele não me permite abafar - será isso sensualidade natural, ou serão aberrações perversas, enfim, serei ainda normal, ou já estarei viciada? Esse prazer, ao mesmo tempo demasiado forte e parcial, o único ao qual ainda aquiesço, entorpece-me e obceca. A necessidade apodera-se de mim tão violentamente, em meio a ocupações tão pouco propícias, que cuido descobrir o velho sentido da tentação: de fato mais forte que a gente. Renaud me vê, minha face em fogo, pronta a passar por onde ele quiser, ele sorri, e esse sorriso não merece outra qualificação a não ser a de diabólico. Quase tenho medo dele: não pensará em me perder? Para onde me arrasta? Eis que meu cérebro começa a abrigar noções irracionais de pecado, de queda, de vício, de perdição.

Quando deixo essa cama, esse mundo sem tempo, onde o dia e a noite se entrelaçam e onde nenhuma ordem, nenhum indício, nenhum apoio aparecem, verdadeiramente é de outro planeta que venho, e não mais reconheço este aqui.

Não me lembro de nada. Viro-me, os braços inertes - onde estava eu? Esse homem quebrou o tempo, dele fez uma grande noite uniforme, interrompido apenas pelos chamados que vêm de fora: é minha mãe, é Pierre, é Claude que se inquietam, e ouço-lhes as vozes ao longe, como quando estive muito doente: do fundo da indiferença fisiológica é que os rumores da vida mais atingem. É verdade, estou doente, desfiz-me do tempo, enveredei pelo sombrio reino de Renaud, que morreu. Vivo com um morto que me aspira a seu lado.

Após essas viagens necessito de horas, ou talvez dias, não sei, para me refazer. Eu que, quando bandeirante era chamada "Abelha Laboriosa"! Acontece que, saindo para o almoço, deparo-me com a noite lá fora, dir-se-ia que Renaud lança um sortilégio sobre os relógios: desmantelam-se, um após outro. E, certa manhã, vendo minha árvore sem folhas, dou-me conta de que, também eu, esqueci meu jardim. Começa a trabalhar-me o medo de haver perdido a matrícula, e de quase ter perdido o mundo; é como se eu estivesse num convento. Claude me escreve: julga-me doente. Minha mãe, ultrajada, manifesta sua existência por meio de um silêncio total dos mais opressivos. Por fim, Pierre agarra o inimigo de frente, interroga: "Não me esconda a verdade, peço-lhe" - diz-me, certa noite, ao telefone. "Já compreendi que se passa alguma coisa." Respondo que sim, num suspiro. "Algo grave?" Sim... Não era nada fácil explicar ao telefone, com Renaud ali. "É preciso que me diga imediatamente. "Escute, quer me encontrar amanhã?" "Você acha que, agora, vou deixar passar mesmo que seja uma noite? Venha imediatamente." Vi, afinal, com um pouco de clareza, o que estava fazendo, e concordei com um encontro em Duroc, de onde ele me telefonava.

- Tenho que sair por um momento.

Renaud, que, entretanto, ouvira o bastante para compreender, emite um grunhido indiferente: com ele, gozo de minha plena liberdade. Se anunciasse: tenho que ir encontrar-me com um novo amante, ele não teria outra reação. Está lendo Hadley Chase. Pergunto-me se o devo beijar antes de deixá-lo.

- Até logo, Renaud...

Ergue o grande nariz, faz um aceno e volta a abismar-se. Como se eu fosse buscar o jornal.

*
Extráido do livro O Repouso do Guerreiro, de Christiane Rochefort.

***
Ilustração: Café (1949). Quadro de Leonard Tsuguharu Foujita (Japanese, 1886-1962).

sábado, 27 de outubro de 2012

Me encante




Me encante da maneira que você quiser, como você souber.
Me encante, para que eu possa me dar.

Me encante nos mínimos detalhes.
Saiba me sorrir: aquele sorriso malicioso,
Gostoso, inocente e carente.

Me encante com suas mãos,
Gesticule quando for preciso.
Me toque, quero correr esse risco.

Me acarinhe se quiser.
Vou fingir que não entendo,
Que nem queria esse momento.

Me encante com seus olhos.
Me olhe profundo, mas só por um segundo.
Depois desvie o seu olhar.
Como se o meu olhar,
Não tivesse conseguido te encantar.

E então, volte a me fitar.
Tão profundamente, que eu fique perdido.
Sem saber o que falar.

Me encante com suas palavras.
Me fale dos seus sonhos, dos seus prazeres.
Me conte segredos, sem medos,
E depois me diga o quanto te encantei.
 
Me encante com serenidade...
Mas não se esqueça também,
Que tem que ser com simplicidade,
Não pode haver maldade.

Me encante com uma certa calma,
Sem pressa. Tente entender a minha alma.

Me encante como você  fez com o seu primeiro namorado,
Sem subterfúgios, sem cálculos, sem dúvidas, com certeza.

Me encante na calada da madrugada,
Na luz do sol ou embaixo da chuva.

Me encante sem dizer nada, ou até dizendo tudo.
Sorrindo ou chorando. Triste ou alegre...
Mas, me encante de verdade, com vontade.

Que depois, eu te confesso que me apaixonei,
E prometo te encantar por todos os dias...
Pelo resto das nossas vidas!


Silvana Duboc


* * *

É muito bom encontrar uma pessoa que nos encanta naturalmente, sendo ela mesma, sem fingimentos, sem disfarces. Ficar encantado por alguém especial aumenta as nossas sensações de prazer e aqueles instantes de alegria se ampliam a ponto da gente achar que vai enlouquecer se ficar distante de quem nos encantou. Ou será que na verdade isso é feitiço? Ou será que é paixão? Tudo faz parte do pacote.

Márcio Luiz Soares

***
Ilustração: Goddess of Water by Ronnie Biccard

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Tempo





A filósofa e poeta Viviane Mosé deu um show de interpretação ao recitar uma poesia de sua autoria, inspirada nas obras de Nietzsche, durante uma apresentação no Café Filosófico, em Campinas.


quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele?
sulcos na pele? sulcos
quem tem olhos pra ver na pele o tempo soprando sulcos na pele?

o tempo andou riscando o meu rosto
com uma navalha fina

sem raiva nem rancor
o tempo riscou meu rosto
com calma

eu parei de lutar contra o tempo
ando exercendo instante
eu acho que eu ganhei presença

eu acho que a vida anda passando a mão em mim
eu acho que a vida anda passando
eu acho que a vida anda passando
eu acho que a vida anda
em mim a vida anda
eu acho que há vida em mim
a vida em mim anda passando
eu acho que a vida anda passando a mão em mim

e por falar em sexo
quem anda me comendo é o tempo
se bem que faz tempo mas eu escondia
porque ele me pegava à força e por trás

um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo
se você tem que me comer
que seja com o meu consentimento
e me olhando nos olhos

eu acho que eu ganhei o tempo
de lá pra cá ele tem sido bom comigo
dizem que ando até remoçando


Viviane Mosé

domingo, 18 de março de 2012

Noite sem fim




Toda Noite e toda Manhã
Alguns nascem para a Miséria
Toda Manhã e toda Noite
Alguns nascem para o Doce Deleite,
Alguns nascem para o Doce Deleite,
Alguns para a Noite sem Fim.


William Blake
Augúrios da Inocência

*
Every Night and every Morn
Some to Misery are born
Every Morn and every Night
Some are born to Sweet Delight,
Some are born to Sweet Delight,
Some are born Endless Night.

(Auguries of Innocence)

* * *
Imagem: Flickr - Galeria de Ana Gentili.


domingo, 4 de março de 2012

A arte de perder




Uma Arte


Não é tão difícil dominar a arte de perder;
tanta coisa parece preenchida pela intenção de ser perdida
que sua perda não é nenhum desastre.

Perca algo a cada dia. Aceite a agitação
de perder as chaves da porta, a hora mal gasta.
A arte de perder não é difícil de dominar.

Então, pratique perder mais, perder mais rápido:
lugares, nomes, e para onde foi que você quis
viajar. Nenhum deles trará desastre.

Perdi o relógio de minha mãe. E olhe! meu passado, ou
recentemente, três casas amadas se foram.
A arte de perder não é difícil de dominar.

Perdi duas cidades lindas. E, mais vasto,
alguns reinos que possuía, dois rios, um continente.
Sinto falta deles, mas não foi um desastre.

- Mesmo perder você (a voz brincando, um gesto
que eu amo) não posso mentir. É evidente
que a arte de perder não é muito difícil de dominar
embora possa parecer (Escreva isto!) um desastre.



Elizabeth Bishop

* * *
One Art

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three beloved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) a disaster.


Elizabeth Bishop


* * *
Imagem: Flickr – Galeria de Kaddy

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O tamanho da gente





O homem acha o Cosmos infinitamente grande
E o micróbio infinitamente pequeno.
E ele, naturalmente,
Julga-se do tamanho natural...
Mas, para Deus, é diferente:
Cada ser, para Ele, é um universo próprio.
E, a Seus olhos, o bacilo de Koch,
A estrela Sírius e o Prefeito de Três Vassouras
São todos infinitamente do mesmo tamanho...


Mário Quintana

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O poder do assombro





“Eu deitava a cabeça no colo da menina,
E ela passava as mãos nos meus cabelos...
Era meu primeiro alumbramento!”

Manuela Bandeira – Recife


Fazendo um retrocesso em minha memória, fiquei pensando, neste início de ano, o que precisaria acontecer para que o homem contemporâneo se sentisse mais feliz e menos confuso, mais alegre e menos ansioso, mais simples e menos complicado, mais verdadeiro e menos fingidor em seus anseios, desejos, sonhos e expectativas.

Comecei a me lembrar de como sempre conseguia me deslumbrar com pequeninas coisas. Como fatos corriqueiros sempre me fizeram sentir encantamento. “Era tudo um alumbramento”, no dizer do poeta.

Percebo, então, que de um modo geral, o mundo perdeu o senso de assombro. Crescemos, foi isto? Já não perdemos o fôlego diante de um arco-íris, ou do perfume de um jasmim (alguém, porventura, ainda conhece jasmim?), como acontecia antes. Prova disso é ouvirmos as letras de música destes tempos.

Já não temos tempo de olhar para as estrelas, e duvido que algum jovem de hoje, saiba achar no céu o Cruzeiro do Sul ou as Três Marias, só para dar um exemplo. Os astros que eles reconhecem são outros.

As estrelas já não nos encantam, não mais temos tempo pra vê-las, nem, tampouco, formar figuras com nuvens, e além do mais, agora, já sabemos que a Lua não é feita de queijo, que pena!

As tempestades já não nos causam assombro, os aviões voam acima ou abaixo delas, e os satélites reduzem-nas a fotos. Só os desabrigados se importam e as temem! Simplesmente temos dados, temos estatísticas, temos certezas científicas, algumas nem tão boas... mas não nos assombram!

Nossa alma, parece-me, ficou vazia de significados e nosso coração falto de encantamento.

O novo nos impressiona hoje, até que algo mais novo ou sensacional surja em cima dele.
“À medida que a civilização avança o senso de assombro declina”. (Rabino Heschel).

Nosso mundo é saturado com a graça, e a presença furtiva de Deus é revelada não apenas no espírito, mas, também, na matéria. Por que nos privamos de vê-la?  

Nunca quero deixar-me cegar e não mais me encantar com as folhas secas que formam tapetes dourados, quando caem no outono, nem com o colorido que as flores dos ipês mancham o chão nas manhãs de primavera. O que dizer, então, da grama orvalhada ou de um crepúsculo dourado arrematando o dia numa tarde de verão?

Ah! As pequeninas grandes coisas que encantam a vida de quem consegue ver a graça de Deus abundando sobre nossa existência em cada detalhe...

Estamos tão fartos com a grandeza das coisas belas da natureza, que pisamos sobre flores, sobre douradas folhas secas, ouvimos os pássaros, molhamos os pés nas ondas do mar, e nem nos damos conta de que todas essas coisas são graça; esse dom, esse presente dado a nós, imerecidamente. Sim, pois se é por merecimento, deixará de ser graça.

Meu desejo é que neste início de ano, nossos corações se abram para a Graça de Deus em nossas vidas, através de Jesus Cristo e das consolações do Espírito Santo, e que a possamos desfrutar com corações agradecidos e mentes sábias, abrindo nosso espírito para o Divino espalhado em todo nosso redor, especialmente na vida das pessoas afetuosas que nos cercam. Usemos o dom maior - o amor - pois, no dizer do apóstolo Paulo: “Tudo passa, menos o amor”, a maior graça concedida pelo Pai a nós, maravilhosa graça, que jamais se afasta de nós, ainda que não correspondamos aos seus apelos.

Só o poder do assombro poderá nos salvar de vivermos vidas vazias de significados que nos devolvam o dom de ser felizes, apesar das vicissitudes, pelas quais temos de passar, pois fazem parte desse nosso viver.

Quero me assombrar de novo! Quero de novo enxergar com o coração! Quero amar a vida que mesmo que para alguns pareça sem graça, para mim é encantada, pois vem de Deus.


Ercília Pollice


quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Noite vazia





A fechadura invadiu o silêncio
Um eco perdido na escuridão

A casa o esperava sozinha
Escura
Sinuosa

Não houve o convite da cama
Fria
Imensa

Escondeu a solidão na sua lanterna mágica
Sem magia
Sem sono
Nem sonhos

Mais uma noite vazia


Márcio Luiz Soares

* * *
Imagem de Joana Puentes Vieira (Noite vazia, solidão acesa) – Blog Olhares

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Aos homens do nosso tempo






Senhoras e senhores, olhai-nos.
Repensemos a tarefa de pensar o mundo.
E quando a noite vem
Vem a contrafacção dos nossos rostos
Rosto perigoso, rosto-pensamento
Sobre os vossos atos.

A muitos os poetas lembrariam
Que o homem não é para ser engolido
Por vossas gargantas mentirosas.
E sempre um ou dois dos vossos engolidos
Deixarão suas heranças, suas memórias

A IDEIA, meus senhores

E essa é mais brilhosa
Do que o brilho fugaz de vossas botas.

Cantando amor, os poetas na noite
Repensam a tarefa de pensar o mundo.
E podeis crer que há muito mais vigor
No lirismo aparente
No amante Fazedor da palavra

Do que na mão que esmaga.

A IDEIA é ambiciosa e santa.
E o amor dos poetas pelos homens
é mais vasto
Do que a voracidade que nos move.
E mais forte há de ser
Quanto mais parco

Aos vossos olhos possa parecer.


Hilda Hilst
[Poemas aos homens do nosso tempo – I - homenagem a Alexander Solzhenitsyn]

* * *
Para quem estava sentindo falta por aqui de uma poesia profunda, marcante e muito significativa, nada como essa da Hilda Hilst pra esse finalzinho de ano - período de reflexão e balanços da vida tão atribulada em que vivemos.