domingo, 20 de março de 2011

Responsabilidade se adquire





Aprender com os erros. Isto serve para tantas coisas na vida da gente. A cada tropeço, a cada queda, a cada reconhecimento de nossos erros, vamos moldando nossa personalidade, nosso caráter, e, assim, auxiliando na construção da responsabilidade que aplicamos em diversas situações por toda a vida.

Quem não aprende com os próprios erros e não se esforça, que transfere a culpa a alguém ou a alguma coisa, comete os mesmos erros repetidamente e a possibilidade de se tornar uma pessoa fracassada, de mal com a vida, é enorme.

Responsabilidade se adquire. Não é algo a que tem direito. Se você notar que alguém hesita dar-lhe alguma responsabilidade adicional, provavelmente é porque você foi indiferente com outra responsabilidade que já tinha. Se você é do tipo de pessoa que pensa “se me derem algo para fazer que seja desafiante, levarei mais a sério”, saiba que essa é uma atitude irresponsável.

Existem pessoas que somente fazem as coisas enquanto elas são um desafio, quando é novidade e quando é divertida - e quando isso se desvanece, elas perdem o interesse. Claro que diversas atividades com o passar do tempo se tornam cansativas, rotineiras e desestimulantes, mas isso não significa que devemos executá-las de qualquer jeito, fazendo por fazer, dando a entender que aquilo é inútil, quando na verdade devemos considerar que é por meio delas que pagamos nossas contas.

Em qualquer situação, sempre existem alguns fatores que não podemos controlar. As pessoas irresponsáveis tendem a transferir a culpa para esses fatores, e acabam acreditando piamente que o problema não é delas. Quando fazem uma desculpa, quando dizem "eu não sou responsável por isso por que...", o que estão realmente dizendo é: "Eu não sou responsável."

Preste atenção em como você pensa e fala - você se encontra fazendo desculpas? As desculpas surgem de diversas formas e o mais comum é: "Eu ia fazer, mas...". Ah, esse “mas”!

Volta e meia me deparo com pessoas que se dizem vítimas das circunstâncias. Ninguém tem o controle absoluto sobre tudo, mas se alguém está sendo forçado a fazer algo contra sua vontade, deve raciocinar que, mesmo assim, ainda tem uma chance de influenciar o resultado. Muitas pessoas que não assumem a responsabilidade por suas atitudes se veem como pessoas indefesas e seus próprios esforços como futilidades.

Assumir a responsabilidade por algo que você vai levar a culpa, se ele não funcionar, é uma atitude coerente que denota que você sabe superar seus fracassos e que aprende com eles. Em outras palavras, não é o fim do mundo se você errar! Reconheça o seu papel. Não tenha vergonha de admitir seus erros e demonstre o quanto se esforça em deixar de cometê-los. Não só irá reforçar o seu próprio senso de responsabilidade, como também vai ganhar o devido respeito.

Outra coisa que devemos considerar como importante dentro da esfera da responsabilidade, conforme diz o ditado, é: não morda mais do que você pode mastigar. Não assuma compromissos que você provavelmente não poderá cumprir. Às vezes, dizer "não" é a coisa mais responsável a fazer.

Perda de confiança e falta de motivação, ao longo do caminho, é totalmente natural e certamente você encontrará uma maneira de superar esses incômodos. Tenha em mente que o importante é o que você recebe de volta.


Márcio Luiz Soares

domingo, 6 de março de 2011

Parte da trilha






Quem me conhece, sabe. Quando se trata de música sou eclético, mas mais que isso sou bem nostálgico, bem saudosista. Muito disso é do apelo que a música carrega, me levando ao passado, para minhas memórias. Que vínculo é esse, meu Deus?!?

Mesmo que as imagens do passado não explodam na minha frente, sou remetido a um momento de paz, ou de uma certa melancolia, ou de alegria, ou de tristeza; ou um misto disso tudo ou nada de uma coisa ou outra - apenas uma enorme vontade de ouvir, balançando o esqueleto ou não. Faço uma viagem bem gostosa, dentro ou fora de mim.

A trilha de hoje é mais uma música que se tornou clássica. Como centenas da década de oitenta. Já naquela época, eu ficava intrigado como os músicos, os cantores e os compositores pareciam criar canções que pareciam feitas de encomenda pra gente. Ficava imaginando no que eles pensavam quando criavam essas canções que se tornaram a trilha sonora das nossas vidas.

Segue abaixo uma pequena amostra de dezenas de músicas clássicas de Daryl Hall & John Oates, One on One, numa gravação esplêndida realizada numa apresentação em 2002.

Quem tem mais de 35 anos pode sentir saudade. Quem nunca ouviu falar deles, talvez aprecie, se torne mais um fã e o melhor: descobre que clássico nunca envelhece.

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A letra e a tradução você encontra aqui






Quer ver numa tela maior? Direto do Youtube: aqui.

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Ilustração: Think Music, por Irezumi (Awei Walpaper)

quarta-feira, 2 de março de 2011

Contextualize





[nada de mal me quer, bem me quer...]

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“Se quer ser amado, ame.”

Sêneca

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Clique na imagem para ampliar - recomendo!

Foto de: Iana (http://diz-funcional.blogspot.com/)

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Tenho um plano





Tenho um plano

Para cada dia da semana

Para disfarçar cada engano

Cada enguiço

Preguiça

Premissa

Percalço

Que por acaso

Me assalte

Te asfalte

Feito esmalte

Que fixa

Asfixia

Durante estes sete dias

Que se repetem por covardia



Paula Taitelbaum


quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Contextualize





“A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás; mas só pode ser vivida olhando-se para frente.”


Soren Kierkergaard


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Edição da imagem: Matheus Castro.


domingo, 13 de fevereiro de 2011

Gabriela Bautista





Noite. O calor parece não dar trégua nenhuma. Tampouco a poeira. Calor e poeira se grudam nos corpos. As peles transpiram terra. Redemoinhos de borrachudos e mosquitos flutuam no ar imóvel e fervente. Zumbem junto aos ouvidos e picam, implacáveis. Um trio de coiotes uiva no morro. As cascavéis se retorcem no cascalho ardente dos caminhos. Os bichos se abrigam embaixo das algarobeiras, fugindo de um sol que ainda perdura no escuro. Ao longe, o rio e seu murmúrio sossegado. E o calor, o maldito calor, avassalando tudo.

Gabriela Bautista não dorme, a angústia não deixa. Nem o medo. Inquieta, aguarda o regresso do marido a qualquer momento para cobri-la de pancadas e, muito provavelmente, matá-la. Não tem para onde fugir nem onde se esconder. Mantém a leve esperança de que ele não saiba de nada, mas não, a esta hora já deve ter sido informado de sua infidelidade. Se está demorando a chegar, é porque foi cobrar do Cigano a afronta.

A porta range. Gabriela Bautista se encolhe atrás da cama. É ele, e vai matá-la. Um minuto se escoa lentamente, depois mais um. O rangido não se repete. Gabriela Bautista apóia a cabeça sobre a cama e fecha os olhos. Transpira um suor que vem do âmago. O mesmo suor que a percorrera na noite anterior, quando uma luz brutal a descobrira esfregando sua carne à carne do Cigano. Uma luz sem nome, insistente, calada, que os cegou no meio da noite e esquadrinhou sua nudez.

- Boa-noite – gritou o Cigano à luz muda.

Não houve resposta, só o silêncio e a luz. Gabriela Bautista se escondeu atrás do Cigano e transpirou medo.

- Boa-noite – repetiu o Cigano.

Nada, luz e silêncio, e a fria sensação de estarem sendo tocaiados pelo silêncio.

O Cigano adivinhou na escuridão o reflexo do cano de uma arma. Empurrou Gabriela em direção ao morro e ambos começaram a correr, e a luz atrás deles, e sabe Deus quem atrás da luz. Correram tanto quanto puderam, tropeçando, ferindo os pés nos espinhos, rasgando braços e pernas, até que a luz deixou de penetrar a espessa ramagem do matagal. Encolheram-se numa vala, embaixo de uns arbustos, respirando agitados, inundados pelo ar quente da noite. Não falaram uma só palavra. Ela se agarrou a ele e ele a beijou e acariciou e Gabriela Bautista se deixou beijar e acariciar e beijou e acariciou, cada vez mais temerosa de si mesma.

Fizeram amor. Ao terminarem, o Cigano se levantou, fechou a calça e partiu por entre o matagal. Ela ficou quieta, impregnada de sexo e medo. Ouviu a distância o ronronar da caminhonete do Cigano, que se afastava pela trilha. Ficou escutando até que ele se perdesse na madrugada. Então se ergueu, sacudiu o vestido e ajeitou a roupa. Começou a andar, com passo pesado. Tinha sido descoberta e não sabia para onde fugir. Chegou à sua casa e se escondeu no único lugar no qual achou que poderia se esconder: atrás da cama, onde passou todo este domingo e de onde escuta agora a porta ranger. Percebe quando ela se abre e vê entrar Pedro Salgado, seu marido.


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Extraído do livro Um doce aroma de morte, de Guillermo Arriaga.

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Imagem: recorte de cena do filme A teta assustada (direção: Claudia Llosa).


quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Cisne Negro




Ontem fui assistir Cisne Negro e fiquei impressionado. Trata-se de um filme fora do comum, muito intrigante, muito profundo, e que pode ser interpretado em muitos níveis. E é de tirar o fôlego. Resumindo, é muito impactante.

Logo que o filme começa pede uma atenção especial ao espectador. Não é qualquer atenção, como na maioria dos filmes. Tem que perceber os detalhes, se concentrando nas ações, nos movimentos. Aliás, no filme todo! Detalhes existentes até na cena da mutilação de um novo par de sapatos de balé, cena em que fica notório o quanto sofre uma bailarina, que sacrifícios precisa fazer para ter nem que seja um pequeno papel de destaque. Foi a partir daí que percebi o quanto iria sofrer junto com a personagem da Natalie Portman, Nina. Detalhes. Entendeu?

Rapidamente viajamos na trama, acompanhando e torcendo para que Nina, uma pessoa que sente intensamente a necessidade de, finalmente, assumir o papel de uma vida, antes de cair no esquecimento. Sentimos, ou embarcamos, em sua angustia de não conseguir atingir a perfeição para o papel do Cisne Negro na peça O Lago dos Cisnes, muito embora seja perfeita para encarnar o papel de Cisne Branco, só que obrigatoriamente tem que ser realizado pela mesma bailarina. Passei boa parte do filme torcendo para que Nina se soltasse, que deixasse sua grande passividade diante dos obstáculos e fosse agressivamente ambiciosa e decidida. Ela teme deixar sua técnica de lado caso se entregue à paixão na tentativa de melhorar seu desempenho. Tornar-se o Cisne Negro não exigiria pouco de si mesma, deveria entregar-se mais, de uma forma que imaginava ser impossível, inatingível. E isso a incomodava muito.

O Lago dos Cisnes exige uma dançarina que atue tanto como o Cisne Branco com inocência e graça, e como o Cisne Negro, que representa a malícia e sensualidade. Nina se encaixa no papel do Cisne Branco perfeitamente, mas tem pela frente uma concorrente que é a própria personificação do Cisne Negro. E nessa rivalidade Nina começa a ficar mais em contato com seu lado obscuro, com uma imprudência que ameaça destruí-la.

Pra piorar, o mundo de Nina é muito pequeno. Ela tem que se submeter aos caprichos de uma mãe superprotetora, mora num apartamento apertado e divide um camarim abarrotado de coisas com um bando de dançarinas. Dá uma certa sensação de claustrofobia – que é o que o diretor queria passar mesmo. Atrás de cada canto parece que paira uma ameaça. Sem falar da sensação de frustração iminente, dando a entender que Nina vai se ferrar a qualquer momento. É o peso da pressão, somado ao da superação que precisa ser conquistada, mas tudo isso junto com a enorme necessidade de atingir a perfeição. Só que pra atrapalhar um pouquinho, Nina passa por crises de medo e de subjugação e é nisso que o trabalho da atriz Natalie Portman demonstra ser magistral, fazendo que o filme não seja um simples melodrama. Simplesmente brilhante. Sem uma grande atuação da atriz principal, o filme seria bom, ficaria acima da média, obviamente, porém, seria frio, seco e não seria tão fantástico.

E fantástico seria dizer o mínimo. Méritos para o diretor, o sempre surpreendente Aronofsky, que consegue um equilíbrio convincente entre o surreal e o real, fazendo a gente se infiltrar na psique de Nina. Uma grande sacada é a constante utilização de espelhos que simbolicamente reflete a mente atormentada da bailarina. Ela passa por tudo aquilo mesmo ou estava só imaginando? O que é real e o que é alucinação?

O diretor nos leva a um grande labirinto sobre a questão da sanidade de Nina e sobre a obsessão pela perfeição e que caminho foi seguido dentro deste labirinto, tendo em vista a rigorosa disciplina do balé. Ele consegue fazer o filme crescer a cada minuto, a cada frame, culminando num desfecho arrasador, para, enfim, nos apresentar uma personagem que soube passar o que aprendeu a duras penas (sem trocadilho). Soube passar o que aprendeu tanto aos companheiros da apresentação do balé quanto ao público do filme Cisne Negro. E você não pode ficar de fora disso.