segunda-feira, 2 de maio de 2011

Chorar faz bem





Comecei a ficar mais atenta às verdadeiras razões dos meus choros, que, aliás, costumam ser raros. Já aconteceu de eu quase chorar por ter tropeçado na rua, por uma coisa à-toa. É que, dependendo da dor que você traz dentro, dá mesmo vontade de aproveitar a ocasião para sentar no fio da calçada e chorar como se tivéssemos sofrido uma fratura exposta.

Qualquer coisa pode servir de motivo. Chorar porque fomos multados, porque a empregada não veio, porque o zíper arrebentou bem na hora de sairmos pra festa. Que festa, cara-pálida? Por dentro, estamos em pleno velório de nós mesmos, chorando nossa miséria existencial, isso sim. Não pretendo soar melodramática, mas é que tem dias em que a gente inventa de se investigar, de lembrar dos sonhos da adolescência, de questionar nossas escolhas, e descobre que muita coisa deu certo, e outras não. Resolve pesar na balança o que foi privilegiado e o que foi descartado, e sente saudades do que descartou.

Normal, normalíssimo. São aqueles momentos em que estamos nublados, um pouco mais sensíveis do que gostaríamos, constatando a passagem do tempo. Então a gente se pergunta: o que é que estou fazendo da minha vida? Vá que tudo isso passe pela sua cabeça enquanto você está trabalhando no computador. De repente, a conexão cai, e em vez de desabafar com um simples palavrão, você faz o quê? Cai no berreiro. Evidente.

Eu sorrio muito mais do que choro, razões não me faltam para ser alegre, mas chorar faz bem, dizem. Eu não gosto. Meu rosto fica inchado e o alívio prometido não vem. Em público, então, sinto a maior vergonha, é como se estivesse sendo pega em flagrante delito. O delito de estar emocionada. Mas emocionar-se não é uma felicidade? Neste admirável mundo de contradições em que a gente vive, podemos até não gostar de chorar, mas trata-se apenas da nossa humanidade se manifestando: a conexão do computador, às vezes, cai; por outro lado, a conexão conosco mesmo, às vezes, se dá.

Sendo assim, sou obrigada a reconhecer: chorar faz bem, não importa o álibi. É sempre a dor do crescimento.


Martha Medeiros

Extraído do seu livro Coisas da Vida

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Imagem: I saw you cry, de alineblood [Deviantart]

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Parte da trilha





Gosto muito de ouvir e colecionar diversas versões de uma mesma música. Sempre gostei disso, desde que me aprofundei um pouco mais no maravilhoso mundo da música, ainda moleque. Há pouco estava lembrando as coisas que eu fazia para manter a minha coleção ou satisfazer meu ego. Trocava fitas com os colegas que tinham acesso aos produtos importados ou em produtoras musicais e também ficava horas caçando novidades nas lojas de discos, além de gravar os programas especializados das rádios. Às vezes, varava a madrugada fazendo isso. Com o passar dos anos, devidos aos outros interesses e falta de tempo ou dinheiro, abandonei este hábito.

Hábito que voltou em parte, recentemente. Agora, com o Youtube, reservo algumas horinhas por mês pra fazer minhas garimpadas. Hoje, dei uma sorte danada: encontrei uma versão da Every Breath You Take, do The Police (mas apenas com o Sting), justo umas das minhas preferidas, e que é a mesma que assisti inúmeras vezes na casa de um amigo há muitos anos, gravada numa fita de vídeo-cassete, considerado um artigo de museu para muitas pessoas hoje em dia.

A fita do meu amigo estragou-se com o tempo, mas o clipe está eternizado no Youtube e aqui também - eu espero.

Antes de ver o clipe abaixo, clique no pause do player das músicas do blog, aqui ao lado, se você o acionou, claro. Você também pode acompanhar a versão original lendo a letra em inglês ou traduzida, clicando aqui. A versão original sempre será superior, ao menos para mim.



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Ilustração: de Mailfor (Deviantart)

segunda-feira, 18 de abril de 2011

O amor que não se pode dar





Amar nem sempre é possível ou correto. Manifestar ativamente um comportamento amoroso pode ser errado, não importa o que ideais e coração digam. Esta constatação vale para todo tipo de relação que envolve aquele sentimento chamado “amor".

Uma mãe pode se ver na necessidade de não arrumar mais o quarto do filho, de não cuidar de sua comida e segurar o carinho que gostaria de expressar. Um amante pode ter que deixar a pessoa amada, e um irmão afastar-se do irmão. O sorriso pode ter que ser engolido e a mão retirada. A vontade de dar, de abrir os braços e ajudar pode precisar ser contida, calada e ignorada. Por quê?

Porque o amor exige reciprocidade. Quando o que se dá não encontra eco da parte de quem recebe, o dar é fora de lugar e continuar a oferecer se torna um ato neurótico. Ela está lutando contra o reconhecimento do que é.

Há momentos em que ser mãe é deixar de dar ao filho o que por anos foi o cerne dos cuidados maternos. As mães podem reconhecer este momento pelo cansaço que sentem.

O amante sente quando é hora de ir embora quando o vazio se torna insuportável. E o amigo dá adeus ao companheiro ao perceber que, por vezes demais, os fatos não rimam com as palavras.

Como um terreno que dá abundante colheita, mas não é nutrido chega a secar, assim, o doador de amor, achando que está fazendo uma coisa bonita, continua a agir conforme seus sentimentos até encontrar-se seco e cansado.

Se amar é uma função de ligação, ela só pode funcionar quando há autosustentabilidade. Amor é um processo psíquico que se autoalimenta pelas ações das partes envolvidas. A ação habitual é ativa e positiva, o dar. Se ela não estiver surtindo efeitos, é preciso passar à sua forma negativa e passiva, o retirar, ausentar-se, silenciar e afastar-se. Somente desta forma se preserva o equilíbrio psicológico.

Inevitavelmente, a tristeza é sua consequência. Deixar de expressar o carinho que se sente ou até virar-lhe as costas é doloroso para quem tem sentimentos. Entretanto, é o único caminho sustentável do ponto de vista psicológico.

Amadurecer passa por reconhecer o que é. Aceitar a realidade exposta a cada minuto de que o amigo, o filho, o amante, o irmão não retornam o amor que recebem implica para a pessoa consciente parar de jogar pérolas aos porcos.

E, assim fazendo, oferecer um último gesto de amor, o de criar o vazio para permitir que no outro o sentimento possa crescer e florescer.


Adriana Tanese Nogueira

http://www.psicologiadialetica.com

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Ótima sugestão da minha amiga Helena Alves.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Devora-me






O que me devora...

É essa sede que tenho de viver!

O que me devora são esses desejos

Que sinto sem satisfazer...

O que me devora são meus sentidos

Que fervem quando te vê...

O que me devora é o amor

Que quando te viu começou a florescer...

O que me devora ... é você.



Sue Nery


sábado, 9 de abril de 2011

Por quê?






Ilustração: Dálcio Machado, Jornal Correio Popular (Campinas) em 08/04/2011, sobre a tragédia ocorrida no colégio público em Realengo, no Rio de Janeiro.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Luto





Pelas crianças e adolescentes, vítimas do massacre em Realengo, no Rio de Janeiro.

sábado, 2 de abril de 2011

Viva a vida





Acabei de ver o último episódio da primeira temporada do seriado The Big C (pelo canal HBO) e fiquei muito emocionado. Se você tiver a chance de assistir a série, aproveite. Ela é muito, muito boa, mesmo.

Laura Linney está excelente como Cathy Jameson, uma mulher que manifesta diversos sentimentos e emoções após descobrir que tem câncer terminal. Pode parecer que se trata de uma série piegas, mas não é. Apesar do tema delicado, a série apresenta uma mistura refinada de drama e comédia que faz a gente se envolver no carrossel de emoções juntamente com Cathy e se surpreendendo a cada decisão, a cada atitude que ela toma, provando pra gente que o que realmente importa na vida é procurar realizar nossos sonhos e aproveitar o agora, aproveitar o tempo incerto, aproveitar cada dia como se fosse o último. Em cada episódio uma baita lição de vida. Nunca é tarde para começar a viver de verdade.

Eu não podia deixar de citar a trilha sonora que é impecável. Desde a música tema até as canções que encerram cada episódio. Destaco nesta postagem, a canção que rolou durante as cenas finais do episódio que mencionei. Capaz de provocar lágrimas.

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Na edição do clipe abaixo: Adam, o filho de Cathy, descobre os presentes que a mãe deixou para os seus “próximos aniversários” em que ela, provavelmente, não estará presente. Não esqueça de parar as músicas do blog clicando no pause do player ao lado.

E não deixe de ouvir a música completa e de ler a letra e a tradução: tudo aqui.

Inté.



Se prefere ver em tela maior, veja aqui.

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Imagem: por Showtime – © Showtime 2010.