segunda-feira, 30 de julho de 2012

Pausa para literatura





Começaram a surgir, nos embalos da Festa Literária de Paraty (Flip), uma série de eventos promovidos por editoras e livrarias em outras cidades do País. São lançamentos de livros, debates, sessões de autógrafo etc. Acho ótimo, é sinal de que a ideia surtiu efeito e está se proliferando. Mas tem uma coisa que torna a Flip incomparável a qualquer outro evento de literatura no Brasil e no mundo, algo impossível de substituir, que aparece discretamente representado na sigla pela letra P: a cidade de Paraty.

Este ano, a festa completou 10 anos. Li uma matéria publicada no último 4 de julho, dia da abertura oficial, em que diversos críticos e jornalistas discutiam seu futuro, listando prós e contras, sugerindo novos caminhos. É fato que se encontrou uma fórmula de sucesso. Seria a hora de mudar para não sucumbir à mesmice?

Chegaram a sugerir que a Flip fosse transferida para uma cidade maior, já que Paraty mal comporta o contingente de visitantes. Sabe, eu aceitaria várias mudanças numa boa, sou a favor de experimentar. Mas jamais trocaria aquele local. Porque, para mim, Paraty traduz perfeitamente a essência da literatura, que é viver outra vida em outro mundo.

Quem participou alguma vez da Flip entende o que estou dizendo. Tentarei explicar, em poucas palavras, para quem nunca foi.

A festa começa sempre numa noite de quarta-feira, com solenidades e show de abertura. Até esse momento, já li a programação inteira, acompanhei as notícias no site, comprei ingressos para uma ou outra mesa, enfim, estou ansioso. Quando soam as primeiras notas no palco, ainda estou em São Paulo, trabalhando. Chegarei a Paraty apenas no sábado, quando muita coisa já aconteceu. Infelizmente, é o máximo que posso fazer.

Tudo bem, não tem problema, entro no carro e parto cedinho. A estrada oferece paisagens maravilhosas. O frio vai ficando para trás, o sol do Rio de Janeiro começa a dar as caras, sei que estou perto.

Este ano, havia obras na estrada. Trânsito parado, sensação de que não vai dar tempo. Até aqui? Ai, ai...

Chego em cima da hora, estaciono onde dá e aperto o passo para alcançar a tenda onde ocorrem os debates. Então, acontece. Sou dominado pela magia que só a cidade de Paraty tem. Ao pisar nas ruas do centro histórico, pavimentadas com aquelas pedras enormes e irregulares, as casinhas pintadas de branco, os batentes coloridos, um monte de gente papeando com alegria no rosto e sacolas na mão... a realidade se transforma. É a tal essência literária de que falei.

Sou imediatamente transportado para outro mundo. Diminuo a velocidade, respiro fundo, sinto cheiro de praia e livro no ar. Cedo à ficção.

O tempo se espreguiça em Paraty. Vira página por página, vagueia sem compromisso pelas linhas. Conheço a cidade desde criança, mas ainda me perco em suas ruas. Elas foram feitas para isso. É fabuloso.

Assisto aos debates, que têm sempre um tom gostoso de informalidade. Os autores falam de seus livros, do método de escrita, do que têm lido ultimamente. Falam também da gozada — e perigosa — experiência de beber caipirinha e depois sair para um passeio. Invariavelmente alguém se perde. Ou acaba virando o pé, perdendo o chinelo e caindo de bunda. Ouvi isso da boca de diversos estrangeiros.

Diz a lenda que a cachaça é que dá o molejo para pular de pedra em pedra sem se machucar. Pode ser verdade, não faltam cachaçarias por ali. Ainda assim, prefiro deitar os olhos no chão.

A plateia faz perguntas e, terminado o bate-papo, saio à caça de um lugar para almoçar. Tem sempre um restaurante charmoso à espera. Aproveito para dar uma volta, ver as crianças brincarem com os livros que pendem das árvores, na praça, e com os bonecões feitos com papel machê, inspirados em faz de conta.

Depois do almoço, a sobremesa vem trotando pelas ruas em carrinhos de doces típicos. Pé-de-moleque, quebra-queixo, cocada, bolo de mandioca. Bate um sono danado. E também uma vontade de pertencer ainda mais àquilo tudo, de ficar ali para sempre.

Tem muito mais na Flip. Lojas, estandes de editoras, shows, bares animados, cafés, saraus, artistas de rua... Programação para todas as idades. O que eu mais gosto, no entanto, é deixar o mundo real durante algumas horas para participar daquela fantasia coletiva, em que as pessoas se divertem em torno de um bem comum: o amor à literatura.

Assim que voltei para casa, li um artigo em que Liz Calder, criadora do evento, se dizia muito satisfeita e que não pretende fazer mudanças drásticas. Para ela, a Flip atingiu o tamanho certo, não precisa crescer mais. O que precisa haver é outras festas similares no Brasil.

Reconheço o esforço de quem lê em tempos de internet, TV, congestionamentos e horas extras. Quem contraria a falta de paciência, a ansiedade por informação, o conhecimento objetivo, a velocidade acelerada do mundo real. A ficção tem seu próprio tempo, assim como Paraty. Também como Paraty, ela exige que você se deixe envolver, que entre no ritmo. Caso contrário, você tropeça e cai de volta na banalidade do dia a dia.


Edu Almeida
publicitário, crítico e historiador da arte
Jornal Correio Popular/Editoria Caderno C/Campinas 26/7/2012



* * *
Imagens: 1-Augusto Gomes / 2–Carol Lobo

sábado, 14 de julho de 2012

Parte da trilha





É preciso brindar o destino
É preciso gritar começou
Se jogar nessa dança na vida
Sem medo do escuro

Impossível não falar de amor

Cada vida tem a sua estrada
Acredite no poder das palavras

É preciso falar
A verdade


(Trechos da música É preciso - A próxima parada)

* * *
Clipe oficial




Confira a letra completa aqui.

Outras versões bem interessantes:




segunda-feira, 9 de julho de 2012

sábado, 30 de junho de 2012

A trégua






“A vida é suficientemente amarga para que, além disso, fiquemos chorosos, melindrosos ou histéricos só porque algo se antepôs em nosso caminho e não nos deixa seguir nosso percurso até a felicidade, que às vezes vai lado a lado com o desatino.”

***
Domingo, 17 de março

Se eu algum dia me suicidar, será num domingo. É o dia mais desalentador, o mais sem graça. Quem me dera ficar na cama até tarde, pelo menos até as nove ou as dez, mas às seis e meia acordo sozinho e já não consigo pregar o olho. Às vezes penso o que farei quando toda a minha vida for domingo. Quem sabe? Vai ver que me acostumo a despertar às dez horas. Fui almoçar no Centro, porque os rapazes saíram para o fim de semana fora, cada um para seu lado. Comi sozinho. Nem sequer tive forças para entabular com o garçom o fácil e ritualístico intercâmbio de opiniões sobre o calor e os turistas. Duas mesas adiante, havia outro solitário. Tinha o cenho franzido, partia os pãezinhos a socos. Duas ou três vezes olhei para ele, e numa oportunidade seus olhos cruzaram com os meus. Tive a impressão de que ali havia ódio. O que haveria para ele nos meus olhos? Deve ser uma regra geral, isso de nós, os solitários, não simpatizarmos uns com os outros. Ou será que, simplesmente, somos antipáticos?

Voltei para casa, dormi a sesta e me levantei pesado, de mau humor. Tomei uns mates, mas estavam amargos, e me aborreci. Então me vesti e fui outra vez ao Centro. Desta vez me meti num café; consegui uma mesa junto à janela. Em um lapso de uma hora e 15, passaram exatamente 35 mulheres interessantes. Para me entreter, fiz uma estatística sobre o que mais me agradava em cada uma. Anotei tudo no guardanapo de papel. Este é o resultado. De duas, gostei de cara; de quatro, do cabelo; de seis, do busto; de oito, das pernas; de 15, do traseiro. Ampla vitória dos traseiros.

*
Segunda, 18 de março

Ontem Esteban voltou à meia-noite, Jaime à meia-noite e meia, Blanca à uma da manhã. Escutei todos, captei minuciosamente cada ruído, cada passo, cada palavrão murmurado. Acho que Jaime veio um pouco bêbado. Pelo menos, tropeçava nos móveis e por quase meia hora manteve aberta a torneira da pia. Os xingamentos, no entanto, eram de Esteban, que nunca bebe. Quando Blanca chegou, Esteban disse a ela alguma coisa lá do seu quarto, e ela o mandou ir cuidar da própria vida. Depois, silêncio. Três horas de silêncio. A insônia é a peste dos meus fins de semana. Quando eu me aposentar, será que não vou dormir nunca?

Hoje de manhã, falei somente com Blanca. Disse que não me agradava que ela chegasse àquela hora. Ela não é insolente, de modo que não merecia meus resmungos. Mas acima disso está o dever, o dever de pai e mãe. Eu deveria ser os dois ao mesmo tempo, e creio que não sou nada. Senti que passava dos limites quando me ouvi perguntar, em tom de admoestação: "O que você andou fazendo? Aonde foi?" Ela então, enquanto passava manteiga na torrada, respondeu: "Por que você se sente obrigado a bancar o mau? Há duas coisas das quais temos certeza: que temos carinho um pelo outro e que eu não estou fazendo nada errado." Fiquei derrotado. Ainda assim acrescentei, só mesmo para salvar as aparências: "Tudo depende do que você entende por errado".

* * *

Esses textos foram extraídos de A trégua, de Mario Benedetti. Um livro excepcional, daqueles que quando a gente começa a ler não dá vontade de parar, mas que quando chega ao final, seja por simplesmente terminá-lo ou pelos acontecimentos derradeiros, dá uma sensação de desamparo, de algo que vai deixar de ter ou de acompanhar, enfim, uma perda. Não sinto constrangimento em admitir que me emocionei a ponto de deixar rolar algumas lágrimas enquanto lia o finalzinho do livro, talvez pelo fato de eu ter me envolvido demais com o narrador/personagem. Na verdade, sempre me envolvo, me aprofundo bastante nos livros que leio, principalmente em romances tocantes como esse.

Narrado como diário, o autor encontrou a forma perfeita para narrar a história de Martín Salomé, um viúvo cinquentão, prestes a se aposentar e, por isso mesmo, atormentado e temeroso de que a futura rotina, cinzenta e dolorosamente previsível, o consuma de forma implacável e irremediável.

Porém, tudo isso pode mudar ao conhecer Laura Avellaneda, uma jovem tímida e muito discreta com quem Martín volta a descobrir o amor.

Tudo isso seria normal para qualquer leitor menos exigente, mas as palavras escolhidas pelo autor, de forma incisivamente desconcertante, ferina, intoxicante, e, por muitas vezes, demolidora, demonstra o quanto sua obra é emblemática e primorosa, apresentando um personagem central construído com esmero, um homem inseguro, passivo, pessimista, incapaz de lidar com o tempo, lutando para não se perder em seu próprio vazio que ameaça se avolumar a cada dia.

E é dessa forma que Benedetti conquista o leitor mais exigente. Além de proporcionar uma profunda reflexão sobre diversos temas, como velhice, amor, sociedade, família, amizade, trabalho e felicidade. Principalmente por se tratar de uma linda história de amor, de grande sensibilidade, e que derruba as barreiras do preconceito. Fazendo até mais que isso, pois ao acompanhar o cotidiano do personagem sentimos com ele a dor de sua busca, de sua redenção, do seu autoconhecimento e toda a sua ironia que o acompanhou durante sua vida e que agora é dinamizada pela busca da felicidade.

Exatamente como qualquer um deve fazer ao se encontrar na mesma situação. Ainda mais quando reencontra o amor, pois é nessa hora que a pessoa se rende e dá a devida trégua para uma vida entristecida pelo tempo e pelas armadilhas que nem sempre conseguimos escapar.


Márcio Luiz Soares

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Saudade




“Parcele a saudade. Ela é insuportável quando deixamos para lembrar tudo num só dia.”

Fabrício Carpinejar

domingo, 10 de junho de 2012

Alimente o lobo




Alimente o lobo que está dentro de você.
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Ilustração: Fábio Moon e Gabriel Bá