domingo, 30 de setembro de 2012

Apelido



Um camarada mudou-se para uma cidade onde todos eram inapelavelmente alcunhados por algum apelido. Sua casinha tinha, na frente, uma grande árvore.

Não deu outra: passaram a chamá-lo de “Zé da Árvore”. Ele mandou cortar a árvore. Seu apelido mudou para “Zé do Tronco”. Arrancou o tronco, ficou o buraco.

Aí veio o novo apelido: “Zé do Buraco”. Ele tapou o buraco, certo que o problema estava, enfim, resolvido.

No outro dia, passou um cidadão sorridente pela sua porta e lhe disse, para sua surpresa:

— Bom dia, Seo Zé do Buraco Tapado!


Millôr Fernandes

domingo, 23 de setembro de 2012

Alguém que eu conhecia





Sinto uma aura de anos 80 quando ouço Somebody That I Used To Know, do Gotye. Na atraente e intrigante abertura principalmente. O uso das vozes masculinas e femininas descrevendo uma relação que não deu certo lembra muito uma música do Human League, "Don't You Want Me" [que você pode conhecer ou lembrar vendo o clipe aqui]. Depois, há o timbre da voz-sósia de Sting no refrão. Sério, quando ouvi pela primeira vez, achei que era uma música nova do Sting. O ponto alto desta música é a intimidade desta gravação que a torna fascinante, especial, elegante e que nos conquista de imediato, seja pela sonoridade, pela letra convincente e pelos vocais emocionais.

Quando o cantor diz "Alguém que eu costumava conhecer", expressa uma ironia muito refinada. A letra toda, expondo simplesmente um relacionamento que teve um triste fim, estabelece a dor nua no final infeliz de um casal, mas mostra de forma impecável uma enorme realidade constante nas vidas das pessoas, levantando mais perguntas sobre os protagonistas do que respostas. Então ouvimos o lado feminino da história, elevando a música ao brilho. 

A maioria de nós também pode relacionar com a dor torturante de alguém importante tornando-se, simplesmente, "alguém que eu costumava conhecer".

A canção até pode não ser chamativa, mas é instantaneamente memorável e está destinada a ser um clássico. Esta será uma das músicas do ano para 2012.

*
Abaixo, dois clipes. O primeiro é sensacional e o outro é uma versão de estúdio que exala tanto a simpatia dos envolvidos que vale a pena ver.




quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Tempo





A filósofa e poeta Viviane Mosé deu um show de interpretação ao recitar uma poesia de sua autoria, inspirada nas obras de Nietzsche, durante uma apresentação no Café Filosófico, em Campinas.


quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele?
sulcos na pele? sulcos
quem tem olhos pra ver na pele o tempo soprando sulcos na pele?

o tempo andou riscando o meu rosto
com uma navalha fina

sem raiva nem rancor
o tempo riscou meu rosto
com calma

eu parei de lutar contra o tempo
ando exercendo instante
eu acho que eu ganhei presença

eu acho que a vida anda passando a mão em mim
eu acho que a vida anda passando
eu acho que a vida anda passando
eu acho que a vida anda
em mim a vida anda
eu acho que há vida em mim
a vida em mim anda passando
eu acho que a vida anda passando a mão em mim

e por falar em sexo
quem anda me comendo é o tempo
se bem que faz tempo mas eu escondia
porque ele me pegava à força e por trás

um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo
se você tem que me comer
que seja com o meu consentimento
e me olhando nos olhos

eu acho que eu ganhei o tempo
de lá pra cá ele tem sido bom comigo
dizem que ando até remoçando


Viviane Mosé

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

The Lighthouse




The Lighthouse, de Po Chou Chi.
Confira por que essa bela animação ganhou 27 prêmios internacionais.



Falar dessa animação é tarefa difícil, quase banal. Talvez por isso Po Chou Chi, o jovem diretor, natural de Taiwan, radicado em Los Angeles, não usou nenhuma palavra em The Lighthouse (O Farol).

Cheio de sutilezas e simbolismos, o filme trata delicadamente da relação entre pai e filho, do crescimento, de amor e respeito. Mostra, em pouco mais de 7 minutos, o crescimento, o aprendizado, a partida, o retorno e o envelhecimento. E o fim, que é também começo.

O Farol é a casa, o lar, o porto seguro, o sinalizador de que está tudo certo, o abraço do pai. Os barcos a um só tempo simbolizam as conquistas, mas também as indas e vindas. Cartas são escritas, o pai espera, as estações mudam, e o inverno chega.

Tudo embalado, como a cereja do bolo, pelo delicado piano de Chien Yu Huang.

O Farol, como não podia deixar de ser, foi dedicado aos pais de Po Chou Chi.

Rita de Sousa
(Coluna do Ricardo Setti - Veja.com, 12/8/2012)