quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Aqui jaz - retrato da solidão




Os coveiros, a equipe de reportagem e uma chuva torrencial foram as únicas testemunhas daquele sepultamento ocorrido no último dia 15, exatamente às 8h11. Dentro do caixão que baixou na cova rasa tomada pelo barro do Cemitério da Saudade, em Sumaré (SP), estava um homem idoso, que não foi procurado por nenhum parente ou conhecido nos últimos meses.

Nada de orações, nada de despedidas, nada de lágrimas naquela manhã. O que se viu foi apenas o trabalho rápido e sério de quem precisou enfrentar a lama e um temporal para dar um descanso final a uma pessoa que para nós, vivos, acaba sendo considerada apenas um indigente. Toda a sua história de vida, o seu passado e suas ações na face da Terra estavam apagadas. Era apenas um corpo precisando encontrar um espaço para ser, aí sim, esquecido para sempre.

Quis o destino que, até em seus momentos finais, aquele homem ficasse sozinho. A caminho de uma quadra nos fundos do cemitério, a forte chuva pegou os coveiros de surpresa. Sem condições de fazer o seu serviço, eles foram, com razão, se abrigar em um local coberto e deixaram o carrinho com o caixão embaixo de uma árvore em um dos corredores dos túmulos. A cena era tocante. Ali estava, definitivamente, uma pessoa cumprindo a sua sina de não ter ninguém ao seu lado...

Fábio Gallacci
Jornal Correio Popular – Editoria Cidades
Campinas 01/11/2009

* * *

Foto de André Tuffy (02/2009)

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Caminho





"Não peço riquezas nem esperanças, nem amor, nem um amigo que me compreenda. Tudo o que eu peço é um céu sobre mim e um caminho a meus pés."

Robert Louis Stevenson

domingo, 22 de novembro de 2009

Planos






“A vida acontece quando você está ocupado fazendo outros planos”.
John Lennon


Não sou um primor de organização, mas gosto das coisas certas, de uma certa arrumação, de ver os objetos no seu devido lugar e acho saudável fazer planos para o futuro. Como muita gente.

Vários dos planos que fiz da minha vida para este ano deram errado. O pior é que fiz poucos planos! Isso é normal, dependendo de certos parâmetros estabelecidos, sempre existe a possibilidade de algo dar errado e seria surpreendente se tudo desse certo. E nem é preciso lembrar de Murphy. Quando quebrei o pé e tive que ficar em casa me recuperando, vi escorrer pelo ralo do inconformismo, a cada semana, a cada dia, a cada hora [oh, Deus!], muita coisa que havia planejado para este ano. Inclusive do próximo ano – o que me deixou mais estressado.

Como o ano ainda não terminou, vou me esforçar e torcer para que alguns daqueles planos dêem certo. Sou otimista por natureza, não costumo pintar um quadro desesperador, mas quando vejo que muitas coisas fogem do meu controle, começo a vislumbrar o pior. Dura pouco. Porém, nem deveria acontecer. O que me consola é que tudo não passa de uma reação natural do ser humano. A gente se arma perante os acidentes de percurso e nem sempre consegue apenas se lamentar, sem esbravejar, sem xingar o mundo todo. No entanto, é exatamente no momento de extremo pessimismo, quando me vejo mergulhado num lago de desesperança, acuado, que vejo a bóia da realidade na superfície e a agarro me fazendo acreditar que nem tudo está perdido. Ainda bem. Só que nessa altura do campeonato, a gastrite já tomou conta do pedaço!

De qualquer forma, com o tempo me recupero bem e chuto o balde. Neste ponto, paro de planejar os meus passos (ou a grande maioria deles), deixo que muita coisa aconteça e no final acabo vendo que foi a escolha certa.

O estranho de tudo isso é o fato de tornar a acontecer ano a ano, se repetindo e parece que nunca aprendo. Faço planos, alguns não dão certo, nem me importo tanto; outros não dão certos também, mas me estresso pacas, me aborreço, fico mal, para depois apertar o botão do “nem te ligo” e o resultado final acaba sendo positivo. O ano rendeu. Apesar das perdas.

Respeito muito o Senhor Destino, mas sou daqueles que acreditam que somos nós que temos as rédeas, que optamos por um ou outro caminho e, inclusive, por deixar a coisa rolar livremente. E por decidir deixar as coisas acontecerem, mesmo ficando na mão do destino, é que vejo o quanto a vida pode preparar algumas boas surpresas. Contando com uma ajudinha da sorte, habitando em algum canto junto com as chances e os planos, e me confortando em saber que não posso saber de tudo.

Assim, vou escrevendo o roteiro da minha vida, sem saber qual será o final. Apenas que terá um fim.


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[Ilustração de Mark Kostabi, “The Big Drawing” (1991)]

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Educação: uma porta de saída






Ok, eu já considerava ter passado da hora de postar algo por aqui. As cobranças, como já aconteceram outras vezes, vieram. Não me importo com isso. Pelo contrário. Já tinha ensaiado escrever ou reproduzir algo, porém, tinha que vir acompanhado de um clipe, como tem sido de praxe ultimamente nas minhas primeiras postagens de cada mês. E para contentar o Marcello e a Samantha - que descobriram esta minha opção - o clipe tem alguma coisa a ver com o mês da postagem. E é bom que eles saibam que isso não será sempre assim, não. Como tudo na vida, um dia acaba. (risos)

Ao menos eu tenho dado sorte. Ainda. Penso numa determinada música, procuro o clipe e encontro. Nem sempre é aquele que eu gostaria, mas ou dá pro gasto ou supera minhas expectativas.

Estava vasculhando minhas anotações e antes de encontrar alguma coisa, lembrei de uma canção interessante do Natiruts, Povo Brasileiro, e, por sorte, encontrei um clipe bem bacaninha no Youtube. Não lembrei da música por acaso - fui induzido pelo meu subconsciente (é, eu acredito nisso sim!), pois recentemente li algumas matérias num jornal e participei de um fórum virtual sobre o mesmo tema: a segregação social.

Gosto de debates, principalmente quando a discussão toma rumos interessantes e quando proporciona um aprendizado mais amplo aos participantes. Neste que participei, concluímos que (e não poderia ser diferente), a diminuição da segregação social se tornará possível com a melhora da qualidade da educação pública, substancialmente, não se limitando apenas à instrução, de uma maneira que afete todas as classes sociais. Muito se falou sobre evoluções radicais, defendendo novas formas de polarização sócio-econômica, maior participação da sociedade e das instituições e empresas socialmente responsáveis (estas já têm uma participação considerável), e a ocorrência de uma mutação econômica emergente, no entanto, sempre convergindo para a educação. 



É óbvio que qualquer governo já sabe o que precisa ser realizado, quais as diretrizes que devem ser aplicadas, assim como os formadores de opinião influentes nas administrações públicas reconhecem sua importância e necessidade. Mas porque tão pouco é efetivamente feito? Qual o motivo da lentidão? Houve muitas respostas no fórum e existem diversas dentro de cada um de nós. Algumas delas têm a ver com os nossos braços cruzados e a nossa impotência.

Bom, eu vou deixar uma pequena contribuição por aqui, talvez consiga arrancar uma reflexão, esperando que cada um faça a sua parte - se possível, claro -, após ler a frase abaixo, ver as imagens do clipe e ouvir a letra da canção.

* * *
“Se a educação sozinha não pode transformar a sociedade, tampouco sem ela a sociedade muda”.
Paulo Freire

sábado, 31 de outubro de 2009

Respeito




"Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que imagina que é ruim em você - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse seu único meio de viver."

Clarice Lispector

[frase atribuída à escritora – retirada de uma carta publicada por Caio Fernando Abreu em 1995 – www.tvcultura.com.br]

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Struck




Minha amiga Rosângela Araújo teve a feliz ideia de me enviar um link muito interessante, que dá acesso ao curta-metragem Struck The Film. Vi no site oficial que ele ganhou diversos prêmios. Merecidamente, diga-se de passagem.

Joel, o personagem principal, é flechado no peito e aparentemente não tem como retirar a flecha. Ele tenta levar uma vida normal, apesar de poucos aceitarem o que lhe aconteceu – inclusive suas possíveis pretendentes. Aos poucos, ele aprende a lidar não somente com a presença da flecha em seu corpo, mas com sua dolorosa solidão. Um filme deliciosamente metafórico e muito poético, que além de engraçado é capaz de inspirar corações. Principalmente de quem já sabe o que uma flechada desse tipo pode causar.

São sete preciosos minutos que você não vai desperdiçar ao assistir. E atenção: continue assistindo após os créditos finais. Tentei postar aqui a versão com som original, mas não consegui. Para tentar deixar registrado (caso algum dia o site oficial do curta fique indisponível), baixei uma versão que ainda está no Youtube. De qualquer forma, recomendo que você não deixe de assistir a versão original no site:
http://www.struckthefilm.com/

Divirta-se e emocione-se.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

As ruas





As ruas de Buenos Aires
já são minhas entranhas.
Não as ávidas ruas,
incômodas de gente e de bulício
mas as ruas indolentes do bairro,
quase invisíveis de tão usuais,
enternecidas de penumbra e de ocaso
e aquelas mais ao longe
carentes de árvores piedosas
onde austeras casinhas apenas se aventuram,
abrumadas por imortais distâncias,
a perder-se na profunda visão
de céu e de planura.
São para o solitário uma promessa
porque milhares de almas singulares as povoam,
únicas ante Deus e no tempo
e sem dúvida preciosas.
Para o Oeste, o Norte e o Sul
se desfraldaram - e são também a pátria - as ruas;
oxalá nos versos que traço
estejam essas bandeiras.


Jorge Luis Borges

Poema extraído do livro Fervor de Buenos Aires.
Foto de Rodolpho Oliveira.