quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Pior que está sempre pode ficar






A cada início de campanha e, principalmente, a cada programa no horário eleitoral gratuito, aumenta a certeza da necessidade de uma revisão geral nas regras eleitorais, dentro de uma verdadeira reforma política. Não dá mais para tolerar aquele amontoado de pseudopartidos, com pseudocandidatos, ocupando espaço nobre no rádio e na televisão. Não dá mais para aturar discursos vazios, caras-de-pau, piadinhas infames, ignorância e mais do mesmo. Não dá mais para aceitar palhaços brincando de políticos e políticos fazendo palhaçada. Não tem mais graça.

Na outra ponta, dos partidos e candidatos “sérios”, a situação não é muito melhor. O que vemos é uma falsa polarização de discursos na disputa pela Presidência, pois a oposição não faz oposição e a situação se contenta em converter uma candidatura forjada na simples continuidade de um governo, como se isso fosse realmente possível. É preciso mudar o que está aí. E, pelo que se vê a cada eleição, e ao contrário do que diz o slogan de um dos “palhaços candidatos”, pior do que está, pode ficar sim.


Ricardo Alécio

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Acompanhe o autor pelo Twitter: www.twitter.com/ricardoalecio

Texto extraído da coluna Xeque-Mate, do Correio Popular de 31/08/2010, Campinas/SP

Ilustração: charge de Dalcio (http://dalciomachado.blogspot.com/)

domingo, 29 de agosto de 2010

Quem quer brincar põe o dedo aqui!







Brincar é coisa de criança. Você provavelmente já ouviu (ou já disse) essa frase. Mas será que é isso mesmo? Segundo os dicionários (Houaiss e Aurélio), brincar é se distrair com jogos infantis, com um objeto ou uma atividade qualquer, como pular, correr, se agitar, se divertir infantilmente, foliar e dançar. 

O Artigo 31 da Convenção dos Direitos da Criança da ONU diz: "Toda criança tem o direito ao descanso e ao lazer, e a participar de atividades de jogo e recreação, apropriadas à sua idade, e a participar livremente da vida cultural e das artes". 

Se eu disser que brincar cumpre muitas funções fundamentais ao desenvolvimento das crianças e dos adultos e que não é necessário nenhum brinquedo para isso, você pensaria que eu estou... brincando? 

Eu poderia tentar convencer a todos, dizendo, "cientificamente", que brincar: — exercita potencialidades, favorece o conhecimento, sociabiliza, sensibiliza e desenvolve intelectual, física, social e emocionalmente (psicomotricidade, linguagem e criatividade); — estimula o pensamento e os sentidos através de atividades do dia-a-dia (mudar as coisas de lugar, bater a mão na mesa, brincar com bichos ou atirar coisas no chão, na parede, etc.); — exterioriza sua realidade interior, libera sentimentos e expressa opiniões; — ensina a seguir regras, experimenta formas de comportamento, tem papel decisivo nas relações entre a criança e o adulto, entre as próprias crianças e entre a criança e o meio ambiente; — cria meios para tornar as crianças responsáveis, atenciosas, trabalhadoras; — ensina a trabalhar em grupo, a compartilhar, negociar, solucionar conflitos e a defender pontos de vista. 

Ficou claro? Convenci vocês? Está política e cientificamente correto? Mas não existe uma forma mais divertida de entender essa questão e, mesmo assim... brincar? 

As crianças se espelham nos adultos próximos e queridos (familiares e professores, por exemplo). Assim, temos nossa parcela de responsabilidade, até em ensinar as crianças a não levarem tudo tão a sério e de forma tão adulta. Ou será que nós não podemos aprender com as crianças a sermos responsáveis apenas na medida e que podemos brincar mais com a vida, com as pessoas, com nossos filhos? 

Tempo e espaço. É tudo o que nós precisamos para brincar. De quanto espaço precisamos para sonhar? Quanto tempo é necessário para sorrir? 

A criança pode brincar com adultos, com outras crianças de qualquer idade e é importante que aprenda a brincar até sozinha, estimulando sua imaginação. Pode-se brincar com ou sem brinquedos e é importante que a criança conheça e use as duas possibilidades. 

Mas é no seu espaço, no seu lar, na sua família, que se forma a base de seu mundo de agora e de todos os tempos. Tempo e espaço. Diversão sem brinquedos pode ser a chave para unir mais a família. 

Muitas vezes, tentamos suprir nossa ausência e amenizar nossa culpa através de presentes, dando brinquedos para que nossos filhos se ocupem, enquanto não temos tempo ou espaço para eles em nossas vidas. A melhor brincadeira para eles (e para nós, sem nenhuma dúvida) é aquela que jogamos juntos, transmitindo nosso entusiasmo. 

E se nós priorizássemos, em busca de um futuro melhor para nosso mundo, um tempo e um espaço em nossa atribulada agenda para brincar com nossos filhos? Especialistas garantem que meia hora diária para brincar com os filhos é suficiente para incorporar essa atividade importante na rotina familiar. Baseado nessas opiniões e aproveitando uma campanha brilhante que já existe, eu proponho criar um movimento: O Agita Família. 

São apenas 30 minutos (tempo), em casa ou em algum outro lugar (espaço), que os pais podem dedicar a brincar com seus filhos de qualquer idade. Brincar de roda, contar histórias, esconde-esconde, fazer bolinhas de sabão, correr, pintar, dançar, fantasiar, amarelinha, pega-pega e muitas outras possibilidades que vocês brincavam quando crianças. 

Junte-se a esse movimento, brinque e vamos sair do "sedentarismo familiar".


Moises Chencinski
(o autor é médico homeopata, pediatra)

Extraído do jornal Correio Popular, de 10/10/2008, Campinas/SP 

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Foto: Fun theory, de Ben Smith (dotbenjamin)

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Luz






Às vezes...
Muitas vezes queria ser como a Luz
Que vai abrindo caminhos na obscuridade
E o que não vejo nas sombras, se revelasse em mim
O espelho que miro, nem sempre me reflete
Pois meus olhos já o atravessaram

Então, reflito sobre luz e escuridão...
Não como positivo-negativo ou, se há luz - não há trevas
Mas, como portas que se abrem pelo lado de dentro
E para dentro, para o profundo... para o imenso
Talvez como quem mergulhe no mar
Sem saber a profundidade
Talvez porque procuro por aquilo que nem sei o que é,
Mas sei estar lá...

A luz que lanço tem sido insuficiente para o lado mais sombreado
Problemas não são trevas e nem desaparecem à presença da luz.
São desafios que temperam os dias e as noites – há que se encarar,
Com e sem medo de ser aprendiz


Há que se confiar que há uma saída para cada túnel


Se pudesse...
Levaria tudo pro aconchego da noite, pois ela me entende e me acolhe
No escuro da noite, viajo e sou luz do meu farol...
Vislumbro horizontes!
Para ver é preciso fechar bem os olhos, abrir alma e coração

Se a Luz, por si mesma resolve... o que saberá sobre trevas?
Mas, se as perguntas são outras
As respostas estão no imenso mar de si mesmo
Mergulhar sem lanternas, feito luz das cadentes no oceano



Madá Freire

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Uma singela homenagem





José Saramago: um escritor de muitas vírgulas, poucos parágrafos e poucos pontos finais. Sua sabedoria deixou aos seus leitores muitos dois pontos. Seus livros serão eternos; seu estilo, único.

Com esta frase ganhei um livro do Saramago, “O Evangelho segundo Jesus Cristo”. Uebaaa!!

Foi num concurso cultural promovido pelo Jornal Metro, em homenagem ao escritor. Inclusive, a campanha desta promoção tem uma frase muito bacana: “A melhor forma de homenagear um revolucionário da escrita como José Saramago é não colocar um ponto final em seu legado.”

Neste concurso a frase tinha que ter no máximo trinta palavras. Parecia que estava digitando mo Twitter, tendo que me limitar. Ah, eu estava tão empolgado! Até me lembrar das regras. Com tantas alterações que fiz, nessa coisa de apagar aqui, mudar ali, sobrou pouca coisa, mas funcionou. Consegui passar a mensagem que queria, afinal alguém do jornal entendeu. Uou.

Ainda não li este livro, mas faz parte da lista faz um tempão. Agora não tenho desculpas. Li poucas coisas dele, mesmo assim virei um grande fã. O primeiro que li foi “O conto da ilha desconhecida”, que é simplesmente fantástico. Qualquer dia eu conto algo sobre ele.

Bom, mais um livrinho pra coleção. Mais um pra fila. Que está bem loooonga... Ô Jesuis!...

domingo, 25 de julho de 2010

Parabéns aos nossos queridos velhinhos





Recentemente, descobri que no mês de julho é comemorado o Dia da Avó, no dia 26, e no dia seguinte, o Dia dos Avós (casal). Aliás, é um erro estes dias não serem tão lembrados e celebrados como deveriam, diferentemente do que acontece com os tão badalados Dia das Mães e Dia dos Pais. Estou feliz em saber que existe um dia mais específico para comemorar e honrar esses velhinhos – se bem que muitos são avós bem antes de tornarem velhos. Tenho muito respeito e carinho pela minha avó. Ela me ensinou muito no decorrer da minha vida. Como todos os idosos, ela carrega uma boa tonelada de sabedoria e experiência.

Pena que nem todo mundo pode dar aquele abraço gostoso na vovó ou no vovô, especialmente no dia deles, ou porque eles moram longe, ou porque já se foram.

Mas não deixa de ser uma oportunidade para refletir sobre a importância da avó, ou mesmo do avô, na família e na sociedade. Claro que é muito legal comemorar, festejar, mostrar carinho, porém, é importante pensar com seriedade sobre a sua relevância na família e na sociedade.

Considerando que a maioria dos pais e mães trabalha fora de casa, muitos netos ficam sob a responsabilidade das avós, auxiliando, inclusive, na educação, além de transmitir sua sabedoria e experiência em diversos assuntos. A avó desempenha um papel cada vez mais importante nesse mundo tão atribulado atualmente – transmitindo amor, bondade, respeito pelo ser humano, simplicidade, humildade e o desapego das coisas materiais (só pra citar alguns exemplos) – colaborando efetivamente na formação do caráter de seus descendentes.

E o convívio com os netos traz muita alegria para as vovós. A presença dos netos anima, ocasionando mais vontade de viver. A grande alegria de uma mulher idosa é poder ser avó. Um sentimento muito valorizado no íntimo de cada mulher.

Que bom seria se toda família tivesse condições de amparar seus idosos, mesmo que eles prefiram ficar num asilo, com a justificativa de “não querer incomodar” ou por desejarem um pouco mais de privacidade. Distante de um lar apropriado, de um ambiente que se sinta totalmente confortável, que seja favorável aos seus anseios, o idoso se sente abandonado, desprezado e solitário, entristecendo-se amarguradamente a cada dia. Se os idosos não têm como morar com seus familiares, ao menos devem sempre receber visitas e serem convidados com frequencia para passarem um tempo com a família. Este sempre será um assunto complicado e uma situação assim é muito difícil de lidar.

Enfim, se você tem ou não sua avó ou avô, se seus pais já são avós, se os seus vizinhos já são avós, se a aquela senhora que te cumprimenta sempre que te vê na rua é vovó, parabenize-os pelo seu dia. E pelo simples fato de serem idosos, seja sempre amável, gentil e receptivo com eles todos os dias. Faça com que eles se sintam valorizados, que sintam que esse mundo não é totalmente injusto, que a maioria das pessoas não é insensível. Puxe conversa, sorria, dê um abraço. Certamente você estará fazendo o dia deles muito melhor.

E o seu também.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

A velha rabugenta





Que veem amigas? Que veem? Que pensam quando me olham? Uma velha rabugenta, não muito inteligente, de hábitos incertos, com seus olhos sonhadores fixos ao longe?

A velha que cospe comida, que não responde ao tentar ser convencida “de fazer um pequeno esforço”? A velha que vocês acreditam que não se dá conta das coisas que vocês fazem e que continuamente perde a sua escova ou o sapato? A velha, que, contra sua vontade, humildemente lhes permite fazer o que queiram, que me banhem e me alimentem só para o dia passar mais depressa.

É isso que vocês acham? É isso que vocês veem? Se assim for, abram os olhos, amigas, porque isso que vocês veem não sou eu! Vou lhes dizer quem sou, quando estou sentada aqui, tão tranquila como me ordenaram… Sou uma menina de 10 anos, que tem pai e mãe, irmãos e irmãs que se amam. Sou uma jovenzinha de 16 anos. Com asas nos pés, e que sonha encontrar seu amado. Sou uma noiva aos 20, que o coração salta nas lembranças. Quando fiz a promessa que me uniu até o fim de meus dias com o amor de minha vida. Sou ainda uma moça com 30 anos, que tem seus filhos, que precisam que eu os guie. Tenho um lugar seguro e feliz! Sou a mulher com 40 anos, com os filhos que crescem rápido, e estamos unidos com laços que deveriam durar para sempre. Quando tenho 50 anos meus filhos já cresceram e não estão em casa.

Mas ao meu lado está meu marido, que me acalenta quando estou triste. Aos 60, mais uma vez comigo deixam os bebês, meus netos, e de novo tenho a alegria das crianças, meus entes queridos junto a mim.

Aos 70 anos, sobre mim nuvens escuras aparecem, meu marido está morto; e quando olho meu futuro me arrepio toda de terror. Os meus filhos se foram, e agora têm os seus próprios filhos.

Então penso em tudo o que aconteceu e no amor que conheci. Agora sou uma velha.

Que cruel é a natureza... A velhice é uma piada que transforma um ser humano em um alienado. O corpo murcha, os atrativos e a força desaparecem. Ali, onde uma vez teve um coração, agora há uma pedra.

No entanto, nestas ruínas, a menina de 16 anos ainda está viva, e o meu coração cansado ainda está repleto de sentimentos vivos e conhecidos. Recordo os dias felizes e tristes em meus pensamentos. Volto a amar e a viver o meu passado. Penso em todos esses anos que foram, ao mesmo tempo poucos, mas que passaram muito rápido, e aceito o inevitável. Que nada pode durar para sempre.

Por isso, abram seus olhos e vejam: diante de vocês não está uma velha mal-humorada. Diante de vocês estou apenas eu, uma menina, mulher e senhora, viva.

E com todos os sentimentos de uma vida.


(autoria desconhecida)

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Às vezes é difícil compreendermos a forma como os idosos veem as coisas. Talvez essa rispidez toda aparece por sentirem medo do amanhã, pela própria solidão ou simplesmente por saudades de um tempo que não volta mais. Muitos idosos são ignorados ou esquecidos - é tão triste!

Ao se deparar com uma pessoa idosa mal-humorada, não a rejeite, procure entender o motivo de tanto mau humor, e tente fazer com que ela mude por meio de algum gesto seu, com um olhar de compreensão ou algo assim. É preciso tão pouco de nós, mas significa muito para quem precisa de amabilidade. E lembre-se: um dia você poderá estar no lugar dela.

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Ilustração: Old woman with cane, de Asuman e Atanur Dogan