domingo, 4 de março de 2012

A arte de perder




Uma Arte


Não é tão difícil dominar a arte de perder;
tanta coisa parece preenchida pela intenção de ser perdida
que sua perda não é nenhum desastre.

Perca algo a cada dia. Aceite a agitação
de perder as chaves da porta, a hora mal gasta.
A arte de perder não é difícil de dominar.

Então, pratique perder mais, perder mais rápido:
lugares, nomes, e para onde foi que você quis
viajar. Nenhum deles trará desastre.

Perdi o relógio de minha mãe. E olhe! meu passado, ou
recentemente, três casas amadas se foram.
A arte de perder não é difícil de dominar.

Perdi duas cidades lindas. E, mais vasto,
alguns reinos que possuía, dois rios, um continente.
Sinto falta deles, mas não foi um desastre.

- Mesmo perder você (a voz brincando, um gesto
que eu amo) não posso mentir. É evidente
que a arte de perder não é muito difícil de dominar
embora possa parecer (Escreva isto!) um desastre.



Elizabeth Bishop

* * *
One Art

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three beloved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) a disaster.


Elizabeth Bishop


* * *
Imagem: Flickr – Galeria de Kaddy

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Recomeço





Quando ainda se escreviam crônicas de carnaval, as de Quarta-Feira de Cinzas eram as mais comuns. Tratavam de ressaca e remorso, de fim da folga e volta ao trabalho, e de todas as possibilidades dramáticas ou patéticas de um carro alegórico abandonado e um falso marquês estirado na sarjeta.

Havia até uma subcategoria de crônica de Quarta-Feira de Cinzas, a crônica de volta do marido para casa. Do reencontro, às vezes catastrófico, do brasileiro com a realidade na forma da Adalgisa esperando no portão, e não aceitando desculpas.

Quarta-Feira de Cinzas era uma coisa muito brasileira. Como ninguém tinha um carnaval parecido com o nosso, ninguém tinha um pós-carnaval tão triste. Uma queda de tanta altura.

Mas o curioso é que, quanto maior e mais coisa inédita brasileira fica o carnaval, mais o nosso pós-carnaval perde suas características — e seu valor literário. Hoje, a figura típica do pós-carnaval não é mais o folião deixando sua fantasia no caminho na volta ao seu duro cotidiano, é o finlandês embarcando no avião e levando sua fantasia para mostrar em casa.

E não tem mais Adalgisa esperando no portão. O marido que volta teve o mesmo destino de outros personagens clássicos: foi engolido pelo tempo e pela irrelevância. Ele não sai mais de casa no sábado e só reaparece na quarta-feira vestindo um cuecão e dizendo que foi sequestrado por sugadoras alienígenas, o que explica os chupões no pescoço. Isso é coisa do tempo antigo. De outros pós-carnavais.

Razão têm os baianos, que acabaram com o pós-carnaval. Lá chamam a Quarta-Feira de Cinzas de “Recomeço”, e emendam. E como gênero literário as crônicas de Quarta-Feira de Cinzas também perderam toda a legitimidade. Viraram anacrônicas. Como esta, que ainda por cima está saindo na quinta.

SILÊNCIO
Estou escrevendo sem saber o resultado da votação para as escolas do Rio. Fiquei impressionado com o Salgueiro, mas estou sem predispostos a ficar impressionado com o Salgueiro. Mas desconfio que este ficará na história como o carnaval da parada da bateria da Mangueira. Quer dizer, a coisa mais memorável do carnaval de 2012 será o silêncio.


Luis Fernando Verissimo

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O tamanho da gente





O homem acha o Cosmos infinitamente grande
E o micróbio infinitamente pequeno.
E ele, naturalmente,
Julga-se do tamanho natural...
Mas, para Deus, é diferente:
Cada ser, para Ele, é um universo próprio.
E, a Seus olhos, o bacilo de Koch,
A estrela Sírius e o Prefeito de Três Vassouras
São todos infinitamente do mesmo tamanho...


Mário Quintana

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O poder do assombro





“Eu deitava a cabeça no colo da menina,
E ela passava as mãos nos meus cabelos...
Era meu primeiro alumbramento!”

Manuela Bandeira – Recife


Fazendo um retrocesso em minha memória, fiquei pensando, neste início de ano, o que precisaria acontecer para que o homem contemporâneo se sentisse mais feliz e menos confuso, mais alegre e menos ansioso, mais simples e menos complicado, mais verdadeiro e menos fingidor em seus anseios, desejos, sonhos e expectativas.

Comecei a me lembrar de como sempre conseguia me deslumbrar com pequeninas coisas. Como fatos corriqueiros sempre me fizeram sentir encantamento. “Era tudo um alumbramento”, no dizer do poeta.

Percebo, então, que de um modo geral, o mundo perdeu o senso de assombro. Crescemos, foi isto? Já não perdemos o fôlego diante de um arco-íris, ou do perfume de um jasmim (alguém, porventura, ainda conhece jasmim?), como acontecia antes. Prova disso é ouvirmos as letras de música destes tempos.

Já não temos tempo de olhar para as estrelas, e duvido que algum jovem de hoje, saiba achar no céu o Cruzeiro do Sul ou as Três Marias, só para dar um exemplo. Os astros que eles reconhecem são outros.

As estrelas já não nos encantam, não mais temos tempo pra vê-las, nem, tampouco, formar figuras com nuvens, e além do mais, agora, já sabemos que a Lua não é feita de queijo, que pena!

As tempestades já não nos causam assombro, os aviões voam acima ou abaixo delas, e os satélites reduzem-nas a fotos. Só os desabrigados se importam e as temem! Simplesmente temos dados, temos estatísticas, temos certezas científicas, algumas nem tão boas... mas não nos assombram!

Nossa alma, parece-me, ficou vazia de significados e nosso coração falto de encantamento.

O novo nos impressiona hoje, até que algo mais novo ou sensacional surja em cima dele.
“À medida que a civilização avança o senso de assombro declina”. (Rabino Heschel).

Nosso mundo é saturado com a graça, e a presença furtiva de Deus é revelada não apenas no espírito, mas, também, na matéria. Por que nos privamos de vê-la?  

Nunca quero deixar-me cegar e não mais me encantar com as folhas secas que formam tapetes dourados, quando caem no outono, nem com o colorido que as flores dos ipês mancham o chão nas manhãs de primavera. O que dizer, então, da grama orvalhada ou de um crepúsculo dourado arrematando o dia numa tarde de verão?

Ah! As pequeninas grandes coisas que encantam a vida de quem consegue ver a graça de Deus abundando sobre nossa existência em cada detalhe...

Estamos tão fartos com a grandeza das coisas belas da natureza, que pisamos sobre flores, sobre douradas folhas secas, ouvimos os pássaros, molhamos os pés nas ondas do mar, e nem nos damos conta de que todas essas coisas são graça; esse dom, esse presente dado a nós, imerecidamente. Sim, pois se é por merecimento, deixará de ser graça.

Meu desejo é que neste início de ano, nossos corações se abram para a Graça de Deus em nossas vidas, através de Jesus Cristo e das consolações do Espírito Santo, e que a possamos desfrutar com corações agradecidos e mentes sábias, abrindo nosso espírito para o Divino espalhado em todo nosso redor, especialmente na vida das pessoas afetuosas que nos cercam. Usemos o dom maior - o amor - pois, no dizer do apóstolo Paulo: “Tudo passa, menos o amor”, a maior graça concedida pelo Pai a nós, maravilhosa graça, que jamais se afasta de nós, ainda que não correspondamos aos seus apelos.

Só o poder do assombro poderá nos salvar de vivermos vidas vazias de significados que nos devolvam o dom de ser felizes, apesar das vicissitudes, pelas quais temos de passar, pois fazem parte desse nosso viver.

Quero me assombrar de novo! Quero de novo enxergar com o coração! Quero amar a vida que mesmo que para alguns pareça sem graça, para mim é encantada, pois vem de Deus.


Ercília Pollice


quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Noite vazia





A fechadura invadiu o silêncio
Um eco perdido na escuridão

A casa o esperava sozinha
Escura
Sinuosa

Não houve o convite da cama
Fria
Imensa

Escondeu a solidão na sua lanterna mágica
Sem magia
Sem sono
Nem sonhos

Mais uma noite vazia


Márcio Luiz Soares

* * *
Imagem de Joana Puentes Vieira (Noite vazia, solidão acesa) – Blog Olhares

domingo, 1 de janeiro de 2012

Parte da trilha




Que tal começar o ano balançando o esqueleto com uma música sensacional?

O clipe abaixo é uma das melhores versões da ótima Moves Like Jagger (do Maroon 5 com a Christina Aguilera), bem interpretada por Jason Chen & Tiffany Alvord.


O clipe oficial do Maroon 5, com letra e tradução, você vê aqui.

* * *
Que 2012 seja cheio de surpresas agradáveis. As desagradáveis irão aparecer, claro, são inevitáveis, mas certamente vamos fazer de tudo para esquecer e, sempre que possível, tirar delas um aprendizado, exatamente como nos nossos erros.

Márcio Luiz Soares