quinta-feira, 31 de maio de 2012

Minha amada inatingível





“Eu realmente faço tudo pelos seus desejos?”

Esta pergunta se repete dentro de mim. Invade meus pensamentos de forma implacável e lamuriante, sempre que a imagem daquela que é a minha musa, a minha paixão inatingível, surge, do nada, confundindo meu raciocínio.

Tem sido assim há dias. Ainda no início do conflito em que me vi jogado, me fazendo sentir como se fosse uma bituca de cigarro abandonada por já ter servido aos seus propósitos, percebi o quanto podia me afundar cada vez mais - mas tudo estava sendo tão deliciosamente inebriante! No entanto, a cada confusão mental entremeada de lembranças de palavras que quiseram se libertar, de atitudes que foram pequenas diante da imensidão de meus desejos, meus sentidos eram aguçados diante de tudo que é verdadeiramente belo: das folhas das árvores acariciadas pelo vento; da ópera dos seres alados gracejando da própria alegria, num evidente agradecimento por existirem; do encantamento da luz solar, mergulhando entre os espaços, fingindo não encontrar obstáculos e aceitando a derrota perante o concreto, nem sempre frio, feito pelo homem.

Mas por mais pungente que fosse todo esse redespertar para a vida, essa sensibilidade apenas servia para dinamizar a fraqueza diante de uma ilusão alimentada pelos diálogos aquecidos por um instrumento que encurta distâncias. Esse monstro vil e maravilhoso, ou maravilhosamente ordinário, feito de códigos binários que se chama internet, que minimiza as perdas do tempo, que relativiza as ideias, que desafia a emoção, além de sobrepujar o entendimento daqueles que não se fazem de inocente.

Perdido em mim mesmo, rogo auxilio a Afrodite, mas sabendo que em breve terei que recorrer a Lilith. Sei que não terei alternativa, pois já me encontro mergulhado na minha fúria insana provocada pela efusão.

E a causa disso tudo é por ainda não ter encontrado a resposta para a pergunta que me coloca em xeque diante da premissa que escolhi para ser o meu lema de vida, mesmo depois de concluir que a simplicidade é o melhor modo de viver: "eu faço tudo pelos meus desejos".

Ou o que posso.

Nesse exato momento, lá vem ela outra vez. Puxo facilmente da memória. Aliás, não faço isso, não preciso. E nem conseguiria fugir se tentasse. As lembranças simplesmente bombardeiam minha mente - sua imagem sólida feita de pixels, suas palavras que pouco ouvi, que me provocam, provam que não fiz o suficiente. Talvez nunca faça. Qualquer exposição de meus sentimentos não foi capaz de frear sua recusa diante de uma oferta irrecusável para outras que não existem. Insólito!

Luto, esbravejo em silêncio, numa vã tentativa de me soltar dessas rédeas que me afogam no mar de angústia, justamente porque ela, a minha musa quase desconhecida, minha amada inatingível, ignora meus sentimentos. Apenas sabe que eu existo. E nada mais.

Então, nesse momento inusitado de desabafo, recebo de mim mesmo, de forma fria e inexorável, a resposta da pergunta que tanto me machuca e corrói por dentro: “Não, não faço”.

A dor aumentou.

Que Lilith me ajude.


Márcio Sclinder

terça-feira, 29 de maio de 2012

Ilusão





“Tudo o que não invento é falso.”

Manoel de Barros

domingo, 27 de maio de 2012

As três peneiras




Certa feita, um homem esbaforido, achegou-se a Sócrates e sussurrou-lhe aos ouvidos:
- Escuta, na condição de teu amigo, tenho alguma coisa muito grave para dizer-te, em particular.
- Espera! - ajuntou o sábio prudente. - Já passaste o que me vais dizer pelos três crivos?
-Três crivos?! – perguntou o visitante, espantado.
- Sim, meu caro amigo, três crivos. Observemos se tua confidência passou por eles. O primeiro é o crivo da verdade. Guardas absoluta certeza quanto àquilo que pretendes comunicar?
- Bem - ponderou o interlocutor - assegurar mesmo, não posso.  Mas ouvi dizer e… então…
- Exato. Decerto peineiraste o assunto pelo segundo crivo, o da bondade. Ainda que não seja real o que julgas saber, será pelo menos bom o que me queres contar?
Hesitando, o homem replicou:
- Isso não!… Muito pelo contrário…
- Ah! – tornou o sábio – Então recorramos ao terceiro crivo: o da utilidade. E notemos o proveito do que tanto te aflige.
- Útil? – aduziu o visitante ainda agitado. – Útil não é…
- Bem – rematou o filósofo num sorriso - se o que tens a confiar não é verdadeiro, nem bom e nem útil, esqueçamos o problema e não te preocupes com ele, já que nada valem casos sem edificações para nós.

* * *
E você? O que você conta por aí é realmente verdadeiro, bom e útil?

***
Imagem: de Atila Naddeo (2007) – Blog Olhares

terça-feira, 22 de maio de 2012

Contextualize



Eu faço de tudo
Pelos meus desejos


Penso
Como vai minha vida
Alimento todos os desejos
Exorciso as minhas fantasias
Todo mundo tem um pouco de medo da vida

Pra que perder tempo
Desperdiçando emoções
Grilar com pequenas provocações
Ataco se isso for preciso
Sou eu quem escolho e faço
Os meus inimigos

"Saudações a quem tem coragem"
Aos que estão aqui pra qualquer viagem
Não fique esperando a vida passar tão rápido
A felicidade é um estado imaginário

Não penso
Em tudo que já fiz
E não esqueço
De quem um dia amei
Desprezo os dias cinzentos
Eu aproveito pra sonhar
Enquanto é tempo

Eu rasgo o couro com os dentes
Beijo uma flor sem machucar
As minhas verdades
Eu invento sem medo
Eu faço de tudo
Pelos meus desejos

Pense, dance, pense, pense, dance
De olho no lance


Pense e Dance - Barão Vermelho