segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

O melhor espetáculo


[clique na imagem para ampliar]


Para que o seu espetáculo seja sempre vibrante e emocionante, faça tudo com intensidade, corra riscos (exceto os desnecessários, claro), seja uma pessoa audaciosa, acredite em você e nunca, nunca deixe de sonhar!


Márcio Luiz Soares

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Parte da trilha




Phil Collins dispensa comentários pra quem curtiu as suas músicas há algumas décadas e com certeza curte até hoje. Depois de sua passagem inicial como vocalista do Genesis, ele surpreendeu as ondas de rádio com diversas músicas, mas destaco aqui a ótima In the Air Tonight.

Dá gosto ouvir a batida dos tambores de uma forma que ainda não tinha sido feito antes, complementados por grooves contagiantes e seu impressionante alcance vocal. Seu modo de tocar, embora de forma única, sem dúvida, foi um pouco ofuscada pela engenharia de estúdio e mixagem final, mas isso logo seria corrigido em suas apresentações ao vivo. Sempre fascinante! Um baterista de rock muito talentoso. Dá gosto vê-lo cantar e lembrar de sua marca na música pop com suas batidas de bateria notáveis.

Veja uma das melhores apresentações de In the Air Tonight ao vivo.


Aqui você pega a letra com tradução e veja aqui o clipe oficial.


segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

O poder das palavras




As palavras certas fazem uma conexão emocional com as pessoas. Uma das principais considerações deve ser a forma de causar o maior impacto possível sobre o público. Se as palavras escolhidas não surtem o efeito desejado, então, realmente, não há muito sentido em dizer ou escrevê-las. Comprove.


sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Chove Chuva





Chove chuva, chove sem parar.
Jorge Ben

A “manhã” está tão fria, chove lá fora.
Esta saudade enjoada não vai embora.
Onde estás, como estás,
com quem estás agora?
Tito Madi


Naquela manhã de sábado, ela acordou tranquila. Meio preguiçosa, como não poderia deixar de ser, já que chovia aquela chuvinha mansa e constante, nublando o céu, e escondendo a cidade sob uma névoa estranha e desconhecida para os padrões tropicais.

Cada dia mais, Valentina confrontava suas atitudes atuais com as suas atitudes de outrora, e ficava pasma ao ver o quanto havia mudado.

Nada de ansiedade, nem tristezas, nem dúvidas. Apenas uma calma interior, um sossego, tranquilidade em tudo e por tudo.

Ocasionalmente, dias chuvosos a deprimiam. Traziam-lhe uma tristeza funda, uma saudade de si mesma, um descontentamento sem motivo. Nunca gostou de chuva. Só à noite, quando ainda menina e sua mãe ou seu pai seguravam-lhe as mãozinhas até ela dormir, e aquele bater da chuva no telhado ia embalando seu sono, até ela se desligar do mundo que a cercava.

Era bom.

Depois mais tarde, quando já adulta e morando no campo, Valentina gostava de reconhecer os sons diferentes que a chuva e o vento faziam ao tocar as árvores, o telhado, o cimentado do terreiro de café. Nestas ocasiões, se aninhava nos braços de Sergei e adorava pensar que estava viva, casada, e sentia-se amada e feliz. Como era bom estar casada com o grande amor da sua vida!

As circunstâncias da vida mudam as pessoas, moldam as pessoas, renovam as pessoas, se elas se deixarem renovar.

Manhã de um sábado. Na noite anterior, foi jantar com uma amiga, depois assistiu uma leve e engraçada comédia de amor. Não pense que é redundância. Não. Pois nem todas as comédias são engraçadas como se propõem. Gosta de graça sutil, inteligente, nada usual.

Quando a maturidade chega, duas coisas podem acontecer: ou você se torna plena de carinho, de afetos, de amizade, de alegria e com a completude de quem sabe o que quer, o que viveu, a recordar o passado sem remorsos ou sentimento de culpa – ou, então, vive uma vida amargurada, pensando no que perdeu, no que viveu e não vive mais, fechando-se para vida, para o outro, para as alegrias que ainda pode ter e sentir.

Felizmente, Valentina pertence ao primeiro grupo. Ela é feliz por ela mesma. É atávico e não há nada neste mundo que consiga roubar-lhe sentimentos bons de alegria e esperança. Sua tristeza dura uma noite, como diz o salmista ou o proverbista, foge-lhe agora a exatidão de quem seja que disse estas palavras, mas sabe a continuidade delas: a alegria vem pela manhã.

Leva sua vida entre seus discos, seus livros, suas pinturas, seus amigos do mundo virtual, ou do mundo real. Todos lhe dão um sentido de estar conectada com o universo e com a vida em si, de uma maneira mais íntima e coesa dentro do macrocosmo. A vida é boa. Claro que vê e sente as vicissitudes que a vida lhe impõe. Nem sempre tudo decorre na calma que gostaria, mas sabe que viver traz em seu bojo coisas boas e coisas não tão boas e, de quebra, coisas péssimas.

Já disse alguém que sem sofrimento não há crescimento e que, embaixo de árvore frondosa, não cresce grama. Adorou este conceito simples, mas verdadeiro dito pelo amigo querido.

Todos têm momentos de introspecção e pensamentos de sonhos e derrotas, Valentina sabe disso, mas aprendeu a administrar suas desesperanças e desapontamentos e sempre acreditar no amanhã. Tudo muda, nada é para sempre. Como dizia sua mãe, passa o bom e passa o ruim, e depois de passados, ambos não existem mais: são simples lembranças. Memórias… e memórias só existem na nossa cabeça. Já não fazem parte do mundo real. Ou será que elas é que são nosso mundo real?

Não sei. Valentina também não sabe. O que ambas sabemos é que tudo conspira pra que saibamos que o que passou, passou, e que o que temos hoje é o que realmente importa.

Só poderemos estar bem no amanhã, se o nosso hoje for plenamente vivido, observado e usufruído.

A vida flui e deflui, como um rio. Valentina gosta dessa imagem. O rio vai em frente, serpenteando por margens limpas e verdejantes, outras vezes por barrancos feios e sujos, mas não para jamais. Vai que vai. Leva em seu correr, música e beleza, mas, algumas vezes, leva terra barrenta e suja. Lixo… Não importa, sua meta é chegar, nem sabe onde, é verdade, mas caminha, sempre em frente molhando margens, carregando peixes, matando sede, enfeitando paisagens. O rio é a coisa mais parecida com a vida que se tem nesta terra. Por isso gostamos, Valentina e eu, das palavras de Cecília Meirelles: “Sou como um rio que flui e deflui!”.

Nestes dias frios e meio solitários, com a casa quieta, sem barulho de filhos, ou netos ou amigos, ou irmãs, Valentina gosta de mexer em suas coisas. Textos escritos, poemas impressos, cartões recebidos, seus livros, seus CD’s, fotos, suas pinturas, e fica pensando o que farão os filhos com tudo isso, quando ela se for.

A gente passa a vida escolhendo coisas a serem guardadas, separando-as em pastas, em cadernos, em arquivos, arrumando-as em gavetas ou estantes e, nos finalmente, elas dizem de perto apenas a nós. Fazem parte da nossa existência e ao outro, tudo isso não sabe a nada.

Farão por certo uma grande fogueira, sim, grande, porque ela é a rainha dos guardados… Ri de si mesma, ri pra si mesma e sente-se feliz com o que fez durante estes não tão longos anos.

Digo isto, porque pra Valentina a vida passou muito rápida. Como diz o proverbista, agora com certeza: “A vida é um conto ligeiro”.

Tudo pra ela é tão real, tão hoje, tão nítido e vívido, que é capaz de fechar os olhos e sentir o gosto, o cheiro e a presença dos que povoaram sua vida. Mas o interessante disto tudo é que nada disso, nem todas as lembranças do seu mundo, a fazem se esquecer de viver o presente. Sua vida é hoje. Suas emoções são de agora, e seus desejos reais, como esta chuva fina que insiste em cair, molhando esta manhã deste sábado de julho.

Manhã fria, pedindo um café quente, um leite adoçado como o da infância, pedindo a companhia de alguém. Um alguém qualquer, que a fizesse compartilhar essa preguiça de uma manhã meio cinzenta.

Sim, Valentina ainda sonha com o amor pleno e completo de um homem que entenda o poder das palavras e o poder do silêncio. O poder das mãos que acariciam e o poder da presença quente e acolhedora de braços que saibam abraçar sem usura.

Quando ainda na cama, esta manhã, muitos pensamentos vieram-lhe à cabeça. Recapitulou a maneira de ser e agir dos filhos. Pensou na alegria que sente em ser avó, sentiu-se plena por estar vivendo numa era de tanta modernidade e tecnologia, e satisfeita por ter vivido em época mais amena e calma. A vida moderna é assustadora, com seus perigos eminentes de violência, medo, doenças desconhecidas. A vida moderna nos torna gigantes ou pigmeus. Não podemos nos ausentar dela. Vivemos o dia-a-dia incrustados nestas maluquices que nos assombram e nos fazem temer sair às ruas. 

Contudo, a natureza humana traz embutida dentro de si mesma um alienamento necessário, que nos faz caminhar pelos acontecimentos sem que nos deixemos arranhar demais. E vamos levando a vida como se tudo fosse um mar caribenho em tardes turquesa de verão.

Esse mecanismo de ausência presente é a nossa defesa e garantia de sobrevivermos neste caos instalado de injustiças, tristezas, misérias, desconforto e insanidade. Há deslumbramentos a serem sentidos, há pessoas maravilhosas a serem conhecidas e amadas. Há lugares lindos a serem conhecidos e descobertos em meio a este caos. Mas o caos está aí, nas nossas barbas.

Paradoxo? A vida é um paradoxo! O ser humano tem uma dualidade incrível e inexplicável embutida em si mesmo, na sua maneira de ser e estar no mundo.

Todos temos sentimentos ambíguos de ser e não ser, de estar e não sentir, de viver da melhor maneira possível, mesmo em meio às tragédias que nos cercam.

A vida é um circo. Temos espetáculos diários de trapezistas atuando com concentração inconteste para não despencar das alturas, temos equilibristas tentando a travessia até o outro lado do abismo, pisando em corda bamba, e temos palhaços nos fazendo rir às gargalhadas, mesmo que estejam sofrendo dores na alma ou no corpo. Não pode chover muito porque o circo é de lona, não pode o sol ser escaldante demais porque a lona é colorida e desbotará. Não pode ter amarras, nem fronteiras permanentes, nem nada ser definitivo, porque o circo é itinerante. A vida é como o circo, sim – passageira num mundo também passageiro.

O público está lá. Pronto a aplaudir ou não. O espetáculo tem de ser bom. Sempre! Não importa o sentimento de quem o produz. Somos todos palhaços, equilibristas, trapezistas ou atores da peça que se representava nos circos de antigamente. Vamos seguindo em frente, nos mudando, nos moldando aos tempos e às circunstâncias. Somos sobreviventes.

Valentina sabe disto tudo. Valentina gosta de estar viva e sentir a vida. Vida pra ela vai desde uma canção ouvida muitas vezes, ou de um perfume bom que lhe faz sentir cheirosa e feminina. A vida pra Valentina passa pela camisola de seda que veste e a faz sentir mulher, e a comida bem feita que coloca sobre a mesa arrumada como se fosse receber visitas pro almoço ou jantar. Desfruta o café da manhã como se fosse a última refeição a ser feita.

Vida é viver todas as coisas com plenitude de alma, coração e corpo. Vida é ter amigos, falar com os filhos, estejam onde estiverem, e vê-los pela webcam, rir com eles e ouvir-lhes os feitos, os sonhos, as vivências diferentes em cada um deles e que a um só tempo os faz tão iguais e tão diferentes. Vida é saber que Deus a guarda, a conforta e a enche de esperança.

Vida é sonhar dormindo e contar o sonho pela manhã àquela pessoa que estiver presente em seu dia. Vida é também sonhar acordada, fazer planos de realizar coisas, de Natais que ainda virão, de verões na praia e invernos nas montanhas. Vida é sonhar com viagens ainda não realizadas e relembrar as já realizadas.

Vida, para Valentina, é estar viva. Bênção maior que esta não pode haver. Como ela gosta de dizer, e já o fez diversas vezes: vida doida, vida doída, mas eita vida boa!

Sua manhã de sábado está indo… como tudo neste mundo, que nunca sossega. Logo, vai tomar mais um café, fazer alguns telefonemas e tomar seu banho. Terá que sair. Vai buscar sua roupa nova que mandou embainhar. Vai vesti-la hoje nem que seja pra ir à padaria comprar pão… mas vai vesti-la. Rio-me do jeito dessa mulher ainda tão menina em seu interior. A vida não roubou a infância feliz de Valentina. Ela é ainda a menina que, não mais de trancinhas enlaçadas por fitas de tafetá xadrez, canta muito.

Canta canções de amor, canta canções tristes, canta enquanto pinta, enquanto faz um doce, enquanto arruma. Quando mergulha dentro de si mesma, vem à tona:

Eu fui no Itororó,
Beber água, não achei.
Encontrei bela menina,
Que no Itororó deixei…
Aproveite minha gente
Que uma noite não é nada…
Se não durmo lá de noite,
Durmo lá de madrugada…

E em suas lembranças mais antigas, lá esta ela, balançando em sua cadeirinha de balanço, cantando com sua vozinha rouca, rindo à toa, feliz com a família à sua volta, sempre a aplaudindo em tudo o que fazia. “Cante, Valentina, cante, que o papai quer ouvir…”.



Ercília Pollice

* * *
Viva a Vida. E muitos vivas para uma vida de Valentina!

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Parte da trilha




Nem sempre a letra de uma música bate com as imagens de um clipe e taí uma coisa que nem importa muito. No caso do clipe da excelente The Fall [A Queda], da dupla Rhye, o que vemos no vídeo está mais pra uma meditação existencial sobre a idade adulta depois que se passou dos 40 anos, e quanto a falta de inocência e o aumento do desejo, de forma um tanto quanto deprimente, absorve a maturidade que levou um tempão pra se construir.

A música, além de muito deliciosa, com vocais precisos que é ao mesmo tempo quente e alegre, é satisfatoriamente melancólica. Consegue entender isso?

Impossível não se deixar envolver com a sua letra que estabelece uma trama de versos apaixonados, confessionais e que por si só já são levemente dançantes. Compondo, assim, uma perfeita trilha sonora de coisas que raramente são ditas. A música, uma mistura de canção de amor com canção de desgosto, vai se desmanchando suavemente nos ouvidos, pois é cheia de alma, e aos poucos vai deixando a gente extasiado, graças a uma batida leve e envolvente.

E o que vemos no clipe, de maneira não muito distinta, é o quanto a vida pode parecer que é uma merda e que, quando a gente se depara com a perda da doce juventude, tudo parece muito frustrante. E isso pode ser extremamente...  comovente!

Depois que o clipe acaba, muito marmanjo vai ficar se perguntando: "o que realmente significa essa coisa de ser adulto, responsável e maduro, hein?" Não fique muito alegrinho não, cara pessoinha jovem! Você está envelhecendo a cada segundo e um dia vai se ver na mesma situação. =)

Então, de olho nas imagens e aumenta o volume pra curtir essa dupla que eu considero que vai ser uma grande aposta para 2013. Se gostar dessa, vai ser impossível não pedir mais. E aqui vai ter.


Márcio Luiz Soares

* * *



***
Para aqueles que quiserem ouvir uma versão mais dançante, eis aqui uma acrescida com o vibrante swing dos anos 70:

******
The Fall

Oooh, make love to me
One more time
Before you go away
Why can’t you stay?

Oooh, my love
Come home to me
Just for a while
I’ll leave this place
Why can’t you stay?

Don’t run away
Don’t slip away my dear
Don’t run away
Don’t slip away my dear
Don’t run away

The song is gone
Fell into the fall
But I don’t want it this way
Why can’t you stay?

Don’t run away
Don’t slip away my dear
Don’t run away
Don’t slip away my dear
Don’t run away

Ohh ohh

That should be worse
That should be worse that explain away
But I’ll talk time and twisted

Don’t run away
Don’t slip away my dear

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Diálogo




“A leitura de um bom livro é um diálogo incessante: 
o livro fala e a alma responde.”

 André Maurois

* * *
Não importa o que pensem de mim, sempre vou afirmar, com convicção, que a leitura de um bom livro é o melhor diálogo que eu pratico.

Márcio Luiz Soares

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Contextualize


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=/

Charge de Alberto Alpino.

sábado, 27 de outubro de 2012

Me encante




Me encante da maneira que você quiser, como você souber.
Me encante, para que eu possa me dar.

Me encante nos mínimos detalhes.
Saiba me sorrir: aquele sorriso malicioso,
Gostoso, inocente e carente.

Me encante com suas mãos,
Gesticule quando for preciso.
Me toque, quero correr esse risco.

Me acarinhe se quiser.
Vou fingir que não entendo,
Que nem queria esse momento.

Me encante com seus olhos.
Me olhe profundo, mas só por um segundo.
Depois desvie o seu olhar.
Como se o meu olhar,
Não tivesse conseguido te encantar.

E então, volte a me fitar.
Tão profundamente, que eu fique perdido.
Sem saber o que falar.

Me encante com suas palavras.
Me fale dos seus sonhos, dos seus prazeres.
Me conte segredos, sem medos,
E depois me diga o quanto te encantei.
 
Me encante com serenidade...
Mas não se esqueça também,
Que tem que ser com simplicidade,
Não pode haver maldade.

Me encante com uma certa calma,
Sem pressa. Tente entender a minha alma.

Me encante como você  fez com o seu primeiro namorado,
Sem subterfúgios, sem cálculos, sem dúvidas, com certeza.

Me encante na calada da madrugada,
Na luz do sol ou embaixo da chuva.

Me encante sem dizer nada, ou até dizendo tudo.
Sorrindo ou chorando. Triste ou alegre...
Mas, me encante de verdade, com vontade.

Que depois, eu te confesso que me apaixonei,
E prometo te encantar por todos os dias...
Pelo resto das nossas vidas!


Silvana Duboc


* * *

É muito bom encontrar uma pessoa que nos encanta naturalmente, sendo ela mesma, sem fingimentos, sem disfarces. Ficar encantado por alguém especial aumenta as nossas sensações de prazer e aqueles instantes de alegria se ampliam a ponto da gente achar que vai enlouquecer se ficar distante de quem nos encantou. Ou será que na verdade isso é feitiço? Ou será que é paixão? Tudo faz parte do pacote.

Márcio Luiz Soares

***
Ilustração: Goddess of Water by Ronnie Biccard

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Parte da trilha





Nesse comecinho de semana, deu vontade de ouvir uma musiquinha dançante, contagiante, bem descompromissada de tudo, exceto com a alegria, assim como a S.O.S., do Ian Carey. Eu estava mesmo precisando de algo assim, bem up.

Seja qual for o tipo da música, sempre vai ter uma que atende ao nosso pedido de socorro. Mesmo quando deixa a gente mais triste ou com mais saudade de alguém.

A música sempre vai encontrar você.


A letra, com a tradução, táqui.


domingo, 30 de setembro de 2012

Apelido



Um camarada mudou-se para uma cidade onde todos eram inapelavelmente alcunhados por algum apelido. Sua casinha tinha, na frente, uma grande árvore.

Não deu outra: passaram a chamá-lo de “Zé da Árvore”. Ele mandou cortar a árvore. Seu apelido mudou para “Zé do Tronco”. Arrancou o tronco, ficou o buraco.

Aí veio o novo apelido: “Zé do Buraco”. Ele tapou o buraco, certo que o problema estava, enfim, resolvido.

No outro dia, passou um cidadão sorridente pela sua porta e lhe disse, para sua surpresa:

— Bom dia, Seo Zé do Buraco Tapado!


Millôr Fernandes

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

terça-feira, 25 de setembro de 2012

domingo, 23 de setembro de 2012

Alguém que eu costumava conhecer





Sinto uma aura de anos 80 quando ouço Somebody That I Used To Know, do Gotye. Na atraente e intrigante abertura principalmente. O uso das vozes masculinas e femininas descrevendo uma relação que não deu certo lembra muito uma música do Human League, "Don't You Want Me" [que você pode conhecer ou lembrar vendo o clipe aqui]. Depois, há o timbre da voz-sósia de Sting no refrão. Sério, quando ouvi pela primeira vez, achei que era uma música nova do Sting. O ponto alto desta música é a intimidade desta gravação que a torna fascinante, especial, elegante e que nos conquista de imediato, seja pela sonoridade, pela letra convincente e pelos vocais emocionais.

Quando o cantor diz "Alguém que eu costumava conhecer", expressa uma ironia muito refinada. A letra toda, expondo simplesmente um relacionamento que teve um triste fim, estabelece a dor nua no final infeliz de um casal, mas mostra de forma impecável uma enorme realidade constante nas vidas das pessoas, levantando mais perguntas sobre os protagonistas do que respostas. Então ouvimos o lado feminino da história, elevando a música ao brilho. 

A maioria de nós também pode relacionar com a dor torturante de alguém importante tornando-se, simplesmente, "alguém que eu costumava conhecer".

A canção até pode não ser chamativa, mas é instantaneamente memorável e está destinada a ser um clássico. Esta será uma das músicas do ano para 2012.

*
Abaixo, dois clipes. O primeiro é sensacional e o outro é uma versão de estúdio que exala tanto a simpatia dos envolvidos que vale a pena ver.




quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Tempo





A filósofa e poeta Viviane Mosé deu um show de interpretação ao recitar uma poesia de sua autoria, inspirada nas obras de Nietzsche, durante uma apresentação no Café Filosófico, em Campinas.


quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele?
sulcos na pele? sulcos
quem tem olhos pra ver na pele o tempo soprando sulcos na pele?

o tempo andou riscando o meu rosto
com uma navalha fina

sem raiva nem rancor
o tempo riscou meu rosto
com calma

eu parei de lutar contra o tempo
ando exercendo instante
eu acho que eu ganhei presença

eu acho que a vida anda passando a mão em mim
eu acho que a vida anda passando
eu acho que a vida anda passando
eu acho que a vida anda
em mim a vida anda
eu acho que há vida em mim
a vida em mim anda passando
eu acho que a vida anda passando a mão em mim

e por falar em sexo
quem anda me comendo é o tempo
se bem que faz tempo mas eu escondia
porque ele me pegava à força e por trás

um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo
se você tem que me comer
que seja com o meu consentimento
e me olhando nos olhos

eu acho que eu ganhei o tempo
de lá pra cá ele tem sido bom comigo
dizem que ando até remoçando


Viviane Mosé

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

The Lighthouse




The Lighthouse, de Po Chou Chi.
Confira por que essa bela animação ganhou 27 prêmios internacionais.



Falar dessa animação é tarefa difícil, quase banal. Talvez por isso Po Chou Chi, o jovem diretor, natural de Taiwan, radicado em Los Angeles, não usou nenhuma palavra em The Lighthouse (O Farol).

Cheio de sutilezas e simbolismos, o filme trata delicadamente da relação entre pai e filho, do crescimento, de amor e respeito. Mostra, em pouco mais de 7 minutos, o crescimento, o aprendizado, a partida, o retorno e o envelhecimento. E o fim, que é também começo.

O Farol é a casa, o lar, o porto seguro, o sinalizador de que está tudo certo, o abraço do pai. Os barcos a um só tempo simbolizam as conquistas, mas também as indas e vindas. Cartas são escritas, o pai espera, as estações mudam, e o inverno chega.

Tudo embalado, como a cereja do bolo, pelo delicado piano de Chien Yu Huang.

O Farol, como não podia deixar de ser, foi dedicado aos pais de Po Chou Chi.

Rita de Sousa
(Coluna do Ricardo Setti - Veja.com, 12/8/2012)

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Parte da trilha





Ela olha pra você, seu humor normal, sua alma tão limpa.
E ela imagina: eu sou tão feliz quanto poderia ser?

Se você quiser ficar no chão fale por si mesmo.
Se você quiser deixá-la por aí, deixe-a ser ela mesma.

Ela quer paixão, ilusão, brigas e mentiras.
Ela quer desejar, desafiar, gritar, voar!!

Ela quer os danos que não pode achar no seu beijo.



* * *
Texto compilado da letra da música que foi feita pra ouvir bem alta - bota o fone e curte o clipe aí!

She - Brollies & Apples


A letra e a tradução você pega aqui.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Revanche





"Uma mágoa não é motivo pra outra mágoa. Uma lágrima não é motivo pra outra lágrima. Uma dor não é motivo pra outra dor. Só o riso, o amor  e  o prazer merecem revanche. O resto, mais que perda de tempo, é perda de vida."

Chico Xavier

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Pausa para literatura





Começaram a surgir, nos embalos da Festa Literária de Paraty (Flip), uma série de eventos promovidos por editoras e livrarias em outras cidades do País. São lançamentos de livros, debates, sessões de autógrafo etc. Acho ótimo, é sinal de que a ideia surtiu efeito e está se proliferando. Mas tem uma coisa que torna a Flip incomparável a qualquer outro evento de literatura no Brasil e no mundo, algo impossível de substituir, que aparece discretamente representado na sigla pela letra P: a cidade de Paraty.

Este ano, a festa completou 10 anos. Li uma matéria publicada no último 4 de julho, dia da abertura oficial, em que diversos críticos e jornalistas discutiam seu futuro, listando prós e contras, sugerindo novos caminhos. É fato que se encontrou uma fórmula de sucesso. Seria a hora de mudar para não sucumbir à mesmice?

Chegaram a sugerir que a Flip fosse transferida para uma cidade maior, já que Paraty mal comporta o contingente de visitantes. Sabe, eu aceitaria várias mudanças numa boa, sou a favor de experimentar. Mas jamais trocaria aquele local. Porque, para mim, Paraty traduz perfeitamente a essência da literatura, que é viver outra vida em outro mundo.

Quem participou alguma vez da Flip entende o que estou dizendo. Tentarei explicar, em poucas palavras, para quem nunca foi.

A festa começa sempre numa noite de quarta-feira, com solenidades e show de abertura. Até esse momento, já li a programação inteira, acompanhei as notícias no site, comprei ingressos para uma ou outra mesa, enfim, estou ansioso. Quando soam as primeiras notas no palco, ainda estou em São Paulo, trabalhando. Chegarei a Paraty apenas no sábado, quando muita coisa já aconteceu. Infelizmente, é o máximo que posso fazer.

Tudo bem, não tem problema, entro no carro e parto cedinho. A estrada oferece paisagens maravilhosas. O frio vai ficando para trás, o sol do Rio de Janeiro começa a dar as caras, sei que estou perto.

Este ano, havia obras na estrada. Trânsito parado, sensação de que não vai dar tempo. Até aqui? Ai, ai...

Chego em cima da hora, estaciono onde dá e aperto o passo para alcançar a tenda onde ocorrem os debates. Então, acontece. Sou dominado pela magia que só a cidade de Paraty tem. Ao pisar nas ruas do centro histórico, pavimentadas com aquelas pedras enormes e irregulares, as casinhas pintadas de branco, os batentes coloridos, um monte de gente papeando com alegria no rosto e sacolas na mão... a realidade se transforma. É a tal essência literária de que falei.

Sou imediatamente transportado para outro mundo. Diminuo a velocidade, respiro fundo, sinto cheiro de praia e livro no ar. Cedo à ficção.

O tempo se espreguiça em Paraty. Vira página por página, vagueia sem compromisso pelas linhas. Conheço a cidade desde criança, mas ainda me perco em suas ruas. Elas foram feitas para isso. É fabuloso.

Assisto aos debates, que têm sempre um tom gostoso de informalidade. Os autores falam de seus livros, do método de escrita, do que têm lido ultimamente. Falam também da gozada — e perigosa — experiência de beber caipirinha e depois sair para um passeio. Invariavelmente alguém se perde. Ou acaba virando o pé, perdendo o chinelo e caindo de bunda. Ouvi isso da boca de diversos estrangeiros.

Diz a lenda que a cachaça é que dá o molejo para pular de pedra em pedra sem se machucar. Pode ser verdade, não faltam cachaçarias por ali. Ainda assim, prefiro deitar os olhos no chão.

A plateia faz perguntas e, terminado o bate-papo, saio à caça de um lugar para almoçar. Tem sempre um restaurante charmoso à espera. Aproveito para dar uma volta, ver as crianças brincarem com os livros que pendem das árvores, na praça, e com os bonecões feitos com papel machê, inspirados em faz de conta.

Depois do almoço, a sobremesa vem trotando pelas ruas em carrinhos de doces típicos. Pé-de-moleque, quebra-queixo, cocada, bolo de mandioca. Bate um sono danado. E também uma vontade de pertencer ainda mais àquilo tudo, de ficar ali para sempre.

Tem muito mais na Flip. Lojas, estandes de editoras, shows, bares animados, cafés, saraus, artistas de rua... Programação para todas as idades. O que eu mais gosto, no entanto, é deixar o mundo real durante algumas horas para participar daquela fantasia coletiva, em que as pessoas se divertem em torno de um bem comum: o amor à literatura.

Assim que voltei para casa, li um artigo em que Liz Calder, criadora do evento, se dizia muito satisfeita e que não pretende fazer mudanças drásticas. Para ela, a Flip atingiu o tamanho certo, não precisa crescer mais. O que precisa haver é outras festas similares no Brasil.

Reconheço o esforço de quem lê em tempos de internet, TV, congestionamentos e horas extras. Quem contraria a falta de paciência, a ansiedade por informação, o conhecimento objetivo, a velocidade acelerada do mundo real. A ficção tem seu próprio tempo, assim como Paraty. Também como Paraty, ela exige que você se deixe envolver, que entre no ritmo. Caso contrário, você tropeça e cai de volta na banalidade do dia a dia.


Edu Almeida
publicitário, crítico e historiador da arte
Jornal Correio Popular/Editoria Caderno C/Campinas 26/7/2012



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Imagens: 1-Augusto Gomes / 2–Carol Lobo