quinta-feira, 31 de julho de 2008

Saudade


Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.

Clarice Lispector

domingo, 27 de julho de 2008

Adormecido


O calor que trago em mim
Permanece intacto
Há um desejo
Um pulsar
Um querer
Tudo vivo
Adormecido, mas vivo.

Acordá-lo agora seria loucura
Incontrolável certamente
Estaria esse tudo

Melhor deixar que o sono o embale
Quem sabe assim
Adormecido
Continuará por algum tempo ainda
Vivendo em mim?


Kátia Martins

sábado, 26 de julho de 2008

A favorita




Nunca gostei de fazer lista dos "meus favoritos" em ordem de classificação, como num ranking, de qualquer coisa que eu gosto. Sei lá, acho que um montão de coisas que me interessam, separados por gênero, simplesmente resultam em empate técnico! Mas hoje, num barzinho com amigos, não tive como escapar e reconheci, meio que para mim mesmo: sempre tem uma coisa ou outra que a gente prefere mais. Se tiver que escolher vai optar por uma em especial.

No entanto, é complicado. Tem hora que por mais que eu goste de uma determinada coisa, dependendo do clima em que me encontro, posso pender para outra que goste menos. Tem dia, por exemplo, que não quero ver um filme de suspense ou drama, quero ver aventura, ação, um arrasa-quarteirão qualquer recheado de muita marmelada!! Seja para me animar, para me descontrair, ou apenas para me divertir.

Bom, voltando ao barzinho, tive que desempatar minhas preferências e no gênero musical nem foi difícil, aliás foi o único que não me fez pensar duas vezes. Respondi de bate e pronto: Tears For Fears. Pra quem não conhece, essa foi uma das duplas mais criativas da década de 80, repleta de êxitos.

Sou viciado no TFF! Quando posso, fico horas ouvindo suas canções. Às vezes repito seguidamente uma mesma música! (Se bem que para ouvir uma mesma música diversas vezes nem precisa ser do Tears For Fears - minha filha que o diga!! Ela acha esse meu comportamento muito estranho!) Quando estou no controle, até esqueço da vida, e aí vai uma música atrás da outra e, assim, viajando. Claro.

Pegamos um táxi pra voltar pra casa. Afinal, com o frio que resolveu voltar por aqui, decidimos que íamos beber um pouco mais. Ok, o frio serviu de pretexto... A conversa rolou muito animada e nem nos importamos com a quantidade de taças de vinho. No meio do caminho, adivinha o que tocou no rádio do carro? Exato. Com a música Woman in Chains. Demais! Quase mandei a galera calar a boca, para eu poder curtir. Se eu fosse o único passageiro, ia querer que o motorista enrolasse para chegar ao meu destino, só para poder ouvir até o fim.

Chegando em casa, a primeira coisa que fiz foi ouvir a música de novo. Eu disse que sou viciado. Finalmente curti do jeito que eu mais gosto: no silêncio total, no escuro, tranqüilo. Porém, como eu prometi a um amigo enviar um arquivo por e-mail o quanto antes, logo sentei-me diante do computador, com o fone de ouvido e o player na função repeat. E é exatamente a mesma música que estou ouvindo nesse momento enquanto escrevo.

Nunca escrevi por aqui sobre música. Não podia ser diferente, tinha que citar essa dupla britânica quando fizesse isso pela primeira vez.

Não vai dar pra ficar enumerando as minhas preferidas, várias praticamente empatam mesmo e tem o lance do meu estado de espírito. Tem dia que só quero ouvir Pale Shelter; noutro, só Head Over Heels; em outro, Head Over Heels seguida de Broken (que se completam); tem época que sigo a trinca Mad World, The Working Hour e I Believe; e na grande maioria das vezes rolam todas. Coisas de fã.

Hoje é Woman in Chains e só. E também já chega. Eu devia fazer uns comentários, dar umas dicas pra quem não conhece o TFF, mas o mocinho aqui vai precisar levantar cedo. Esse viciado vai fazer um esforço hercúleo e desligar a música, senão é capaz de virar até de manhã!! E olha que já está quase amanhecendo!

Para homenagear e na tentativa de tentar conseguir mais fãs, posto aqui um clipe da música que estou ouvindo. Conta com a participação, tanto na faixa quanto no clipe, da maravilhosa Oleta Adams com seu notável dom vocal – ela possui uma magnífica voz potente, vibrante e muito expressiva. Para quem sabe o que é boa música, vai curtir. Não significa, nesse caso, que apenas vai ouvir e relaxar.


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terça-feira, 22 de julho de 2008

A moça e o motoqueiro


A rua escura. Postes isolados quase não fazem diferença. A espera. O fluxo de carros é inconstante, às vezes ouvem-se gritos. Duas pessoas esperam o ônibus, uma delas em pé.

Ao longe, a baiana recolhe seu tabuleiro.

Mãos no queixo, pés balançados, quase trêmulos da mulher que, olhando para o caminho, espera. Com olhares voltados para a mesma direção, ambos queixam-se isoladamente. Um estalar de bocas, um bater de saltos, um balançar de chaves. Cinco minutos sem que passasse nenhum veículo. O silêncio se quebra com o roncar da moto, animal aéreo entre elefantes. Mas, naquele momento, o frio pareceu aumentar.

O ronco do motor alcançava decibéis inacreditáveis, anunciando seu poder ante a noite vazia. Ameaçador, parecia perceber seu poder frente a todos. Sabia-se malquisto, sabia-se temido, sabia-se ameaçador. O piloto acelerou novamente alcançando mais uma distância. E ao cruzar com as pessoas do ponto de ônibus, com seu capacete e arrogância gritou: “Lôra!!”. A moça olhou. E cruzaram olhares que não se viram. A face do motoqueiro era uma incógnita, assim como o nome da moça.

E naquele instante era o que tinham um do outro: uma visão e uma alcunha. A moça o percebia numa fração de segundo eterna por sobre o capacete e ele batizou-a com o óbvio: Lôra. Imaginando-se em desvantagem, ela pensou, porém, que ele tinha dela, em quantidade, o mesmo que ela dele. Afinal, este não era seu nome. Tinham um do outro o momento apenas, a visão, a percepção de uma presença, de uma existência antes desconhecida. A ansiedade do motoqueiro valeu-se do contato fático, cujo artifício apenas deu-lhe a certeza de também saber-se visto.

Segundos depois, a lembrança da moto era apenas timpânica. A moça, porém, não mais batia saltos, nem balançava chaves. Seu ônibus surgia então como uma nova ilusão.

Paula Dórica

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Promessa


Quebrado pelo gemido
Vai-se o silêncio.

Os pensamentos chegam
Não adianta lutar
São grandes, fortes
Têm poder.

De repente a promessa acontece
Os pensamentos devagar se vão.
E depois voltam
Persistem
Não desistem
Insistem.

Mas a promessa os arrasa
Pouco a pouco se dissipam
Somem como fumaça
E nada mais são
Fumaça que passa
E mais nada.

Kátia Martins

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Emocionalmente impactante, e na dose certa


Passei na locadora de vídeo no sábado passado, torcendo para encontrar o que desejava desde o início do mês, quando fiquei sabendo que um dos melhores filmes que assisti no cinema no começo do ano havia sido lançado em DVD. Não podia haver momento mais adequado, afinal, não tenho visto lá aquelas coisas ultimamente. Dei sorte. Estava numa estante de frente para a porta, isolado na prateleira, como se estivesse reservado para mim, me aguardando.

Se ainda não assistiu Desejo e Reparação, não faça como eu, não demore, corra pra locadora!

O filme é espetacular! Arte pura! Arte cinematográfica de primeira qualidade! O roteiro é sensacional. É baseado num livro que tenho a obrigação de ler. Mais um para a minha extensa lista: Reparação, do escritor inglês Ian McEwan. O “Desejo” do título do filme pode até não ser um equívoco, porém é totalmente desnecessário. A narrativa em forma de diversos flashbacks quebrados (cheio de idas e vindas) também é demais, muito bem sacada! A fotografia é esplêndida, tem uma cena de aproximadamente cinco minutos só de plano geral numa praia, retratando bem as agruras de uma guerra.

Até a música é um espetáculo à parte: quando assistir (ou rever) repare no som da máquina de escrever intensificando determinadas cenas. Ótimo recurso narrativo, que além de envolver o espectador, o leva a descobrir os sentimentos da personagem Briony, conforme as batidas das teclas! O responsável pela suntuosa trilha sonora é Dario Marianelli, o mesmo de V de Vingança e de Orgulho e Preconceito - ambas também são ótimas.

Logo no início somos apresentados à aristocrática Briony (interpretada pela ótima Saiorse Ronan), uma adolescente que deseja ser escritora. Essa personagem, ao contar uma mentira grave, comete uma grande injustiça com quem ela nutria um amor platônico – Robbie, filho da governanta, interpretado convincentemente por James McAvoy. A mentira foi motivada por ciúme e vingança, após ela presenciar sua irmã mais velha, Cecilia (Keira Knightley), numa relação sexual com o tal sujeito. Aliás, não somente por isso, também por uma série de fatos em momentos anteriores. Como a cena que provocou desolação em Briony ao observar a irmã ficar praticamente nua diante do rapaz, após entrar numa fonte e de uma carta de Robbie endereçada a Cecilia que nunca deveria ter sido escrita. Aos poucos as situações se tornam caóticas. E é durante muitas dessas situações que a belíssima trilha sonora acentua a ira de Briony, permitindo-nos perceber o tamanho da imaturidade da garota, como se entrássemos na sua mente, sentindo exatamente o quanto ela distorcia os fatos, por pura paixonite. Porém, muitos outros elementos causariam os danos irreparáveis aos personagens, ao longo da narrativa.

Essa narrativa, inclusive, desprendida de ordem cronológica, é singular, muito bem trabalhada - como que esculpida - de forma genial pelo talentoso diretor Joe Wright, quando em determinados momentos nos mostra pela perspectiva da narradora e depois como os fatos ocorreram realmente. Outro recurso narrativo fantástico.

Para mim um dos maiores impactos emocionais do filme é provocado pela trilha sonora. Todo o resto também é impactante: o roteiro foi muito bem escrito, brilhantemente conduzido pelo diretor; a fotografia, principalmente no plano-sequência que voltarei a mencionar; a curta e espetacular interpretação de Vanessa Redgrave (no papel de Briony em idade avançada), fazendo sua personagem impressionar, tanto na conclusão do filme, como na conclusão dos atos da personagem [os fins justificam os meios?]. Ficção dentro da ficção. O final é surpreendente! O filme é indispensável.

Merecidamente o filme foi vencedor de diversos prêmios internacionais, como o Globo de Ouro de melhor trilha (uhu!!) e de melhor filme, além das indicações ao Oscar 2008 de melhor filme, direção de arte, figurino, roteiro adaptado, atriz coadjuvante para Saiorse (a pronúncia, se não me engano, é “sir-chah”, e significa “liberdade” para os irlandeses). Ah, levou a estatueta de melhor trilha sonora (uhuuuu!!!). Apesar dos outros concorrentes na categoria de melhor filme também serem ótimos, eu considerei Desejo e Reparação (Atonement, 2007) o melhor, o favorito.

Uma obra-prima do diretor Joe Wright, responsável pelo também interessante Orgulho e Preconceito. Acredito que logo voltarei a ver o nome dele em grandes produções. Tomara que logo ocorra - o público agradece.

Separei a cena que mencionei no início. Trata-se de uma referência à evacuação das tropas britânicas de Dunquerque, na França, na Segunda Guerra Mundial. Repare que a partir do momento em que os personagens estão na areia da praia, todo o restante foi gravado numa única tomada, em um único plano-sequência. É de se tirar o chapéu aos atores, ao diretor do filme e, principalmente, ao diretor de fotografia e ao responsável por ter segurado a câmera (se não foi o mesmo).

A cena tem seus momentos chocantes e de ironias, talvez por isso nem todos percebam a maestria dos profissionais envolvidos ou a grandiosidade da filmagem sem edição. Clique e absorva.

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