segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Se ele tivesse inveja agora





O assobio soou pela rua mal iluminada. Depois, a imitação do pio de macuco, repetida quatro vezes, próximo ao renque de casas idênticas, silenciosas e apagadas. Dormiam cedo os funcionários da Estrada de Ferro da Central do Brasil. Dali a poucas horas despertadores barulhentos ou mulheres estremunhadas de sono os sacudiriam para saírem sob o céu tão escuro quanto o da hora em que tinham se deitado, no estômago o café com pão e margarina tomado em pé na cozinha, levando garrafas térmicas e marmitas de alumínio com o almoço preparado na noite anterior, a percorrer as ruas de paralelepípedos úmidos pelo sereno, brilhantes à luz dos postes de ferro ainda acesos, antes mesmo dos operários saídos dos turnos da noite da fábrica de tecidos.

Paulo aguardou, apoiado no guidão da bicicleta, junto ao muro baixo em frente a uma das casas, ora se apoiando num pé, ora no outro, impaciente, atento à janela por trás da qual ficava o quarto de Eduardo. Os minutos se passavam sem nenhuma indicação de que conseguira acordá-lo.

Repetiu o sinal secreto, mais alto. Um assovio longo, quatro pios. Sem sucesso.

Das montanhas escuras que rodeavam a cidade descia a neblina rala das madrugadas de abril. Acima dele o véu tênue se movia lentamente, às vezes abrindo remendos estrelados.

Encostou a bicicleta e pulou o muro, evitando o portão que poderia ranger e acordar os adultos. Com poucos passos atravessou o jardim. Cada canteiro, entre estreitas passarelas decoradas com cacos coloridos de azulejos, era bordejado por moldura de cimento pintada com cal branca para afastar formigas. Uma roseira, apoiada em armação de ferro semelhante ao esqueleto de uma sombrinha, era a única planta alta, provável remanescente da família de ferroviários que ocupara a casa antes. Nos dois anos em que vivia ali, a mãe de Eduardo plantara unicamente flores pequenas de nomes femininos que Paulo desconhecia, cada espécie separada em grupos de cores e matizes semelhantes, a formar buquês delicados.

Vira a mesma organização meticulosa no interior da casa. Móveis brilhantes, recendendo a óleo de peroba, decorados com panos de crochê tricotados por ela. No forno, sempre algo pronto para Eduardo comer, fosse qual fosse a hora que lhe batesse a fome. Cortinas nas janelas. Portas com trincos. Cortes de tecidos, moldes em papel riscado de giz e roupas incompletas das clientes dobrados e empilhados sobre a mesa de fórmica, ao lado da máquina de costura sempre azeitada. Aroma de capim-cheiroso nas roupas de cama. Pisos encerados e polidos todo sábado. Uma sensação de solidez e ordem que Paulo percebia, novamente sem conseguir definir, como acontecia com tanta coisa à sua volta.

Muitas vezes imaginara que gostaria de morar em um lugar assim: sempre limpo, onde seria esperado na volta da escola com almoço recém-preparado, quente ainda, para ser comido em um lugar assim: sempre limpo, onde seria esperado na volta da escola com almoço recém-preparado, quente ainda, para ser comido sentado à mesa enquanto a mãe, ou outro alguém, faria perguntas sobre o que lhe fora ensinado nas aulas da manhã. À tarde, entre uma freguesa de costura e outra, a mãe iria ao quarto onde ele estaria estudando, levando um pedaço do bolo que acabara de assar e um copo de leite. Que cheiro teria um bolo assado dentro de casa? Que gosto teria um bolo quente feito em casa?

Bobagem. Nem gostava de bolo. Se comia ou não comia o que a cozinheira deixava nas panelas em cima do fogão, era problema dele. Fazia os deveres e trabalhos escolares pela surpresa e prazer de aprender coisas novas. Banho tomava quando queria: muitos no calor, poucos no frio. Trocava ou guardava a roupa se tinha vontade. Estivesse a mãe viva como a de Eduardo, não teria a mesma liberdade. Menos ainda a de entrar e sair quando bem quisesse. A qualquer hora. Quase a qualquer hora: tarde da noite era proibido. Mas quando o pai e Antonio dormiam no puteiro não tinha por que se preocupar. Como esta noite.

Junto à janela assoviou e imitou de novo o pio de ave. Uma vez. Duas. No meio da terceira, Eduardo surgiu, o pijama azul de listas cinza fechado até o ultimo botão.


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Extraído do livro Se eu fechar os olhos agora, de Edney Silvestre [recomendo]

Foto: Henri Cartier-Bresson (Magnum/Latinstock)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Enlatados





Hoje, logo mais, vai estrear no canal pago AXN a nova e última temporada de Lost, aqui no Brasil! Estou contando os minutos, os segundos!

Gosto demais desta série cheia de mistérios, de enigmas, de realidades paralelas, de viagens ao passado, de flashbacks e de flashforwards que deixam a gente doido! Uma série envolvente, repleta de tramas que fazem a gente ficar perdido, mais ainda quando alguns personagens têm comportamentos e envolvimentos estranhos e suspeitos e que carregam significados importantes, mas que só com o passar do tempo seus significados são apresentados e, assim, a gente se enche de satisfação e de grande emoção quando alguns fragmentos de segredos são revelados ou seus mistérios desvendados!

Não posso dizer que sou fissurado pela série, pois se fosse faria como muitos aficcionados que varam a madrugada baixando os episódios da suas séries favoritas depois de serem veiculados nos canais de tv americanos. Mas sou capaz de cancelar compromissos ou nem marcá-los quando sei que vai passar alguma série que acompanho. Raramente gravo para ver depois, só quando não dá na hora mesmo. E se gravo, fico ansioso pra assistir.

Acompanho várias séries, mas gostaria de ter tempo ou disposição para acompanhar muito mais. Ainda bem que nas locadoras temos um acervo interessante à disposição. Algumas até vejo quando estou zapeando ou quando lembro que existem, como Smalville, Two and half men, Cold Case, CSI Miami, CSI NY, Supernatural, Gossip Girl, Grey's Anatomy, Monk, Californication, House, Damages (que sinto ter perdido a temporada anterior) e muitas, muitas outras.

Como pode ver, sou fã dos enlatados. No entanto, acompanho poucas e que me satisfazem essa fome numa boa. Ultimamente, tenho acompanhado de segunda a sexta Jornada nas Estrelas - A Nova Geração, que está reprisando no canal Sci Fi. Desta série - que virou uma franquia de sucesso há muitos anos - sou fã de carteirinha, chegando a participar de encontros de malucos por qualquer série ou filme de Star Trek.

Também gosto das séries da HBO, tanto as antigas como as atuais, todas de muita qualidade e que atingem grande sucesso de crítica e público. Destaco Amor Imenso, que vale comentar outro dia por aqui, que também está de temporada nova e estou ansioso pela terceira temporada de True Blood, uma série sobre vampiros e outras esquisitices sobrenaturais. A narrativa desta série, bem sacada e inovadora, foge dos clichês tradicionais do gênero e tem como pano de fundo uma [tentativa de] integração dos vampiros com a sociedade, graças à venda de sangue sintético em garrafas. Coisa de doido.

Não perco também CSI (Las Vegas), que aliás o canal AXN estreou a nova temporada na semana passada e a sequencia de abertura do primeiro episódio foi sensacional - mais uma amostra de que Matrix fez escola. Você vai me entender, ao assistir o prequel, ou teaser, veiculado nos Estados Unidos, clicando aqui. Vale a pena ver, pra ter uma ideia do nível do seriado.

Outra que não perco é Heroes, mas que está deixando a desejar e faz tempo. Tinha tudo para se firmar no gênero, porém, desandou, perdeu prestígio por ser inconstante e por apresentar tramas muito fracas. Mesmo assim, estou insistindo e verei até o fim.

Depois de Lost, a minha espera será pela nova temporada de 24 Horas, outra que é ótima também. Mas vou comentar outro dia, pois agora vou correndo ligar a tv pra ver um especial sobre Lost e na sequencia mais um episódio de duas horas que no final vai me deixar sedento, de cabelo em pé e com a impressão de que a próxima terça-feira vai demorar séculos pra chegar.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Vem aí o Carnaval





Vem aí o Carnaval e, como todo mundo sabe, boa parte da população brasileira esquece os problemas cotidianos, vestem ou despem-se de suas fantasias e sai às ruas, com muito bom humor para festejar, curtir os blocos e os desfiles das escolas de samba. Os desfiles do Rio de Janeiro são considerados por muitos como grandiosos e imperdíveis espetáculos. Os desfiles das escolas de samba de São Paulo não ficam muito atrás.

Não sou folião, nunca fui chegado em “pular”, participar de bailes, essas coisas, mas, sempre que posso ou quando não quero ver algum filme, gosto de acompanhar os desfiles pela TV. As escolas esbanjam muita criatividade, muita cor, muito brilho e muita beleza, além de serem interessantes e envolventes. Principalmente quando entendemos a mensagem que as escolas querem passar, por meio do samba-enredo, por meio das alegorias, fantasias e tudo o mais, conforme o narrador vai nos esclarecendo durante cada desfile.

Tenho vontade de assistir ao vivo - a energia e alegria contagiante devem se assemelhar a um bom jogo de futebol no estádio. Ainda vou assistir no sambódromo do Rio de Janeiro. Inclusive, faz muito tempo que visitei esta cidade e estou louco pra voltar e aproveitar muito mais.

Não foi à toa que escolhi um clipe que exalta um pouco a cidade maravilhosa. O Rio de outrora. Desconsiderando todo progresso e modernidade, aquele Rio de ontem não era pior que o Rio de hoje, apenas diferente e infinitamente mais tranquila, mais segura, passava outra imagem. Uma pena que tenha mudando tanto nesse sentido. Que Deus ajude nos grandes eventos esportivos que vêm por aí.

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Ilustração: Aldor (Flickr)

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