sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Muito tudo!





Pra você que veio dar uma espiadinha por estas bandas (acidentalmente ou não), desejo que saúde, paz, harmonia, alegria, carinho, felicidade e amor, sejam os presentes que você vai dar e receber durante o ano todo.
Vida longa e próspera. E que a Força esteja contigo. Sempre.

Márcio Luiz Soares
* * *
Edição da imagem: Matheus Castro.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Correção





“Não corrigir nossas faltas é o mesmo que cometer novos erros.”

Confúcio

domingo, 26 de dezembro de 2010

Desafios da Lua





Mais uma vez a Lua
Desafia meu olhar

Um eco destila meu pensamento no vazio

A saudade desata as cordas
Da voz que canta meu nome
Da pele que me aquece
Do aperto que me liberta

Tudo tão distante...

Essa Lua! Ah, essa Lua!
Desafia minha reação

A Lua que com sua luz me persegue
Desafia minha resistência
Minha desistência
Minha abstinência

Angustia e me acorda
Não basta

Meu bem!
Estou assim
Dá um fim


Márcio Luiz Soares

* * *
Foto de Hélio Borges Mattos (maio/2009)

sábado, 25 de dezembro de 2010

Contextualize




Eu busco amigos de papel.


Isabela Daguer

* * *

Foto de Isabela Daguer

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Determinação




“Não existe oceano maior que a determinação humana.”

Lars Grael

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

A mente de Tarantino

Uma viagem na mente do cineasta Quentin Tarantino. Eis um interessante curta-metragem com os ótimos Selton Melo e Seu Jorge. Sei de gente que se tornou fã do cara depois que assistiu este curta... rs



terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Alter ego





Bill (David Carradine) atira um dardo com o soro da verdade em Beatrix Kiddo (Uma Thurman). Enquanto a droga não faz efeito, ele conversa com ela sobre o seu personagem de HQ favorito.


Bill - Como você sabe, eu gosto muito de revistas em quadrinhos. Especialmente aquelas sobre super-heróis. Considero toda a mitologia envolvendo super-heróis fascinante. Veja meu super-herói favorito, o Super-Homem. Não é uma ótima revista, não foi bem desenhada, mas a mitologia... A mitologia não só é ótima, é única.

Beatrix - Quanto tempo esta merda leva para fazer efeito?

Bill - Uns dois minutos. O bastante para eu concluir meu raciocínio. Daí que a base da mitologia do super-herói é que há super-herói e há o alter ego. Batman, na verdade, é Bruce Waine. O Homem-Aranha é Peter Parker. Quando o personagem acorda de manhã ele é Peter Parker. Ele tem de vestir uma fantasia para se tornar o Homem-Aranha. E é por causa desta característica que o Super-Homem se destaca. O Super-Homem não se tornou Super-Homem. O Super-Homem nasceu Super-Homem. Quando o Super-Homem acorda, ele é o Super-Homem. O alter ego dele é Clark Kent. A roupa dele, com um grande “S” vermelho, é feita do manto que o envolvia quando os Kents o encontraram. Aquela roupa é dele. O que Kent usa, os óculos, o terno executivo, essa é a fantasia. Essa é a fantasia que o Super-Homem usa para viver entre nós. Clark Kent é como o Super-Homem nos vê. E quais são as características de Clark Kent?

Beatrix - Ele é fraco...

Bill - Ele é inseguro, ele é um covarde. Clark Kent é a crítica do Super-Homem de toda a raça humana.


Diálogo extraído do filme Kill Bill – Volume 2, de Quentin Tarantino.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Vingança





A vingança nunca é uma linha reta. É como uma floresta onde é fácil perder o rumo e esquecer por onde entramos.


Frase extraída do filme Kill Bill - Volume 1, de Quentin Tarantino.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Mal traçadas linhas





A primeira vez que vi Glorinha, estava na casa da Ritinha. Usava fitas nos cabelos e seus dois olhos verdes saltaram sobre os meus. Foi um encontro casual e eterno. Não consegui ficar em sua presença mais do que um minuto. Foi rápido. O mundo desabou ali mesmo, na frente de todo mundo. Corri para o bardo Tião. Ritinha foi atrás querendo saber o que houve. Eu perdi a respiração e só soube dizer que não houve nada.

A partir daquele dia, seus grandes olhos verdes me perseguiam e os via em todos os olhos, seu rosto sorria em outros rostos e as fitas estavam em todos os cabelos. Glorinha, certamente, era um anjo – (mau, às vezes) – porque se multiplicava em mim e derramava em todo meu corpo – (às vezes bom) – quando penetrava sorrateiro em meu quarto e preenchia meus sonhos.

Glória vivia sempre em mim. Era uma outra pessoa que tinha adquirido, ou o travesseiro que faltava. E Glorinha tornou-se uma obsessão. Ela corria em meu sangue. Acordava comigo e não se separava mais. Tomava o café da manhã, almoçava, jantava e era a principal artista de meus sonhos. Até a bola de futebol passou a se chamar Glorinha e foi por isso que resolvi ser goleiro. Não admitia chutar Glorinha. Preferia agarrá-la. Senti-la em meus braços.

Na escola, a professora era Glorinha, as meninas eram Glorinhas, até a dona Maria da cantina era Glorinha. A imagem de Glorinha me transbordava e fluía em todos os poros. Refletia nos óculos, nos espelhos, nos vidros, nas garrafas de refrigerante. Glorinha me inundava com sua presença, com seus olhos, pelos e cabelos. Glorinha me sugava, me surrava, incomodava. O seu nome me enchia a boca: glorinha, glória, glória minha, Glorinha era a minha glória.

Glorinha domingava em mim e foi num domingo que consegui revê-la. Missa das 10, eram 9h45min. Perambulava no adro da igreja quando Glorinha apontou na esquina. Fiquei em pânico. Minhas pernas tremeram. O coração disparou. Me escondi atrás de uma árvore.

Ela vinha acompanhada de outras meninas e falava sem parar. Estava radiante e vestia vermelho. Ela passou perto da árvore onde estava. Não me viu. O medo e a ansiedade foram tantos que virei raiz, folha, tronco. Era outono e me despenquei lá de cima. Tinha virado uma folha. Uma folha seca. Mas um vento bom não me deixou perdido, à mercê de passos desavisados ou de alguma roda descuidada. A aragem dominical me levou até o templo e me alojou atrás de Glorinha. Se a morte era a glória celeste, Deus em sua infinita sabedoria, provavelmente, não conhecera a Glória terrestre. E ela estava ali, no templo. Perto Dele, orando a Ele, falando a mesma língua Dele.

E quando a missa terminou, ela saiu como entrara, ruidosa. Mas percebi que ela olhou para um rapaz. E aquilo foi um punhal, uma faca de muitos gumes. Fiquei arrasado e meu primeiro ímpeto foi matar aquele sujeito.

E meu dia transcorreu violento. Não almocei nem fui à matinê. Conheci o ciúme.

A noite foi infernal. Arquitetei mil planos para abordá-la. Imaginei cenas, encontros.

Construí diálogos. Ouvi a sua doce voz penetrando em meus ouvidos e dizendo sim, sim, sim. Neste momento virei palavra. E naveguei todo o quarto. E a palavra Glorinha tinha asas. Era um pássaro de mil cores. E sobrevoei o quarto várias vezes e esse pássaro era Glorinha que voava em mim.

O sono veio tarde. Delirei. Glorinha transformou-se em Julieta. Depois em Myriam Lane, em Narda e desfilou em mim com vários nomes. Às vezes tornava-se Rapunzel e ficava na torre inexpugnável, pedindo socorro, lançando as tranças para o príncipe encantado. E este príncipe nunca era eu, pena.

Nesta mesma noite, caminhamos de mãos dadas. Estávamos em silêncio, mudos. O cenário era um pátio de longas paredes que não acabava nunca. Éramos os únicos naquela paisagem. Aproximei-me de seu rosto e ela recuou, negaceou, mas insisti. E quando lábios e olhos se tocaram, tudo evaporou. Acordei.

E Glorinha continuou no ofício de me percorrer, de me perseguir. De me domingar. E Glorinha me dominou durante muito tempo, quando uma idéia luminosa glorificou todo meu sofrimento: escrever uma carta, era a saída.

Rabisquei papéis. Rasguei. Não consegui escrever além de seu nome. Mas o Divino Espírito Santo, a terceira pessoa (ou a segunda?) da Santíssima Trindade, me encheu de luz: na segunda prateleira da estante de meu irmão, descobri um livro, o maior de todos: Cartas de Amor, roubei-o.

Na página 27 estava a minha declaração, a carta que pedira a Deus. O autor era um gênio, descobriu as minhas palavras. Era assim:

Estas mal traçadas são endereçadas àquela que torna meus dias como este céu de abril

(abri a janela e o céu estava horrível, ia chover, e era maio)

você é a Dulcinéia que tanto almejo

(perguntei ao Bolinha quem era Dulcinéia e ele me disse que achava que era a miss Brasil)

sou um cavalheiro errante

(troquei “errante” por “certeiro” porque ela podia achar que era um cara cheio de erros)

te vejo em todos os lugares. Chegou a hora de unirmos nossas solidões.

Teu

Romeu

Assinei, molhei as pontas do envelope com cuspe, surrupiei uns trocados na bolsa da mãe, comprei selo e coloquei a carta no correio com o coração ansioso.

Um mês depois, chegou a carta de Glorinha. Fui com sede ao pote. Abri sem cuidado. E fui lendo:

A resposta está na página 40, do mesmo livro.

Tua

Julieta


Ronald Claver

[A última sessão de cinema, 1986]

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Olhares





Quantas coisas cabem em um olhar!

É tão expressivo,

é como falar.


Clarice Pacheco


* * *
Imagem: www.walkdesk.com.br

sábado, 4 de dezembro de 2010

Nem todos querem entender





De nada me adianta querer entender as mulheres, se a mulher que eu amo não está comigo.

[autoria: alguns homens anônimos que existem por aí...]

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Sem resposta





A grande pergunta que nunca foi contestada e à qual ainda não pude responder, apesar de meus trinta anos de investigação da alma feminina, é: o que quer uma mulher?


Sigmund Freud

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Afinal, o que querem mesmo?





Afinal, o que querem as mulheres?


A lendária frase "Afinal, o que querem as mulheres?", do pai da psicanálise Sigmund Freud, está até baseando minissérie da televisão brasileira. Acredito que essa indagação seja muito simples e sutil, nós mulheres queremos apenas ser o que nós realmente somos, cada uma do seu jeito, da sua cor, com seus sonhos, com seus medos, com seus desejos.

Umas tímidas, intelectuais, umas feministas e outras que amam ser dominadas, uma extrovertidas, alegres, discretas, espalhafatosas, cada uma com seus defeitos e qualidades, cada uma querendo ser amada e amar eternamente. Tantas Marias, Tantas Ana Paulas, Jayanes, Vitórias, Vivianes, Elziras, Aurys, Anissas, Thayses, Veruskas, Flávias, Môniks, Rafaelas, Tássias, Ingrids, cada uma traçando seus caminhos, buscando realizar seus mais íntimos sentimentos.

Freud não precisava ter estudando tanto para tentar entender a mulher, o que nós queremos, bastava ouvir as mulheres que ele tinha do lado desprovido de qualquer sentimento masculino, realmente para entender nós mulheres é necessário usar de uma boa quantidade de feminismo, de sedução e sutileza. Coisa que muitos homens não costumam fazer.

Os homens tentam nos decifrar com base nos hormônios e na visão masculina. Tudo em vão. Os homens nunca vão entender o porquê que nós sempre vamos ao banheiro juntas, pois eles nunca vão ao banheiro juntos. Os homens nunca vão entender o porquê que nós necessitamos que eles percebam que fomos ao cabeleireiro. Que nós precisamos de flores mesmo que depois elas murchem e tenhamos que jogar fora, eles nunca vão entender. Os homens nunca vão entender a dor que sentimos quando nossas unhas quebram. Nunca vão entender porque necessitamos ser amadas, porque merecemos um dia no salão de beleza, porque amamos nos vestir pra as outras mulheres.

Enquanto o homem, observar a mulher com olhares demasiadamente masculinos, eles nunca, nunca vão nos entender, isto eu tenho certeza. Para cultivar bem uma flor você tem que saber como deve podar, a que horas deve regar, e deve principalmente ter gentileza, sensibilidade para tocar aquelas lindas delicadas pétalas. É homens, é Freud, realmente não é fácil nos entender, se os olhares que nos estudam sejam repletos de testosterona.

A meu ver é muito simples entender nós mulheres, difícil mesmo é saber "Afinal, o que querem os homens"? E mesmo munidas de tantos instrumentos, até um tanto masculinizados, não é simples entender os nossos maravilhosos homens. Mas ainda me atrevo a dizer que é melhor não os entender mesmo. Às vezes a certeza causa muitas frustrações, nos deixem assim, cada dia sendo surpreendidas com um homem diferente no mesmo corpo, isso também faz parte do mundo feminino, amamos nos surpreender. Fica a dica rapazes.


Ana Paula Porto
(anapaulaporto29.blogspot.com)

domingo, 28 de novembro de 2010

O verdadeiro lar





Morei na mesma casa a infância toda, com jardim e árvore de manacá em meio a margaridas. Meu primeiro lar de casada foi bem pequeno, com apenas um quarto. Depois de dois anos fomos para outro, de dois cômodos.

Com a chegada do primeiro filho, nos mudamos. Vieram mais duas crianças e fomos para outra residência, enorme, que tivemos condições de arrumar em detalhes. Um dia, o velho lar pareceu grande demais para uma só pessoa, eu.

Na mudança, encontrei livros que não li, álbuns de fotos inacabados, cartas e cartões e muita saudade de mim mesma. Quando terminei a arrumação, percebi que a casa estava leve, como eu me sentia. Não queria mais ir para outro lugar.

Muitas vezes precisamos da mudança física para descobrir nossa mudança emocional. Nossa casa pode ter jardim, escadas e corrimão, mas sempre será só uma casa. Nosso lar nós carregamos dentro do peito. E, se ele está feliz, não importa endereço, jardim, parede, vizinhos, ser só ou não. Morar no coração e de coração é o verdadeiro lar!


Eliana Linares

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Falta do que não se tem





Na minha vida encontrarei milhares de corpos femininos.

Desses milhares, desejarei algumas centenas, mas dessas centenas de mulheres, estarei sempre amando só uma. E por que essa e não outra? O que me fará ter medo de perdê-la? Que parte desse corpo, que gesto dessa mulher, que palavra?

O jeito de levar a mão à cintura? Uma mecha de cabelo que cai sobre a testa? O livro que lê sozinha na praia?

São necessários muitos acasos e uma teia de coincidências, para que eu a encontre. Enquanto isso não acontece, estou condenado a buscá-la. Em estado de suspensão, com o espírito confuso, flutuando como o mar, soprando como o vento. Sem verdades, nem palavra.


* * *

O texto (sem título) foi extraído da série televisiva Afinal, o que querem as mulheres? (episódio 2), veiculado pela Rede Globo.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Naquele dia





Naquele dia eu senti
que seria doce ficar.
Que seria tanto despir,
O que o tempo tenta
voar...

Naquele dia eu ouvi,
que amaria até doer.
Que seria segredo sorrir,
o que dentro saliva em chorar.

Naquele dia aprendi,
que te olharia até dormir.
Que seria eterno tentar,
o que boca teima em fugir.

Naquele dia menti,
o que os olhos tentam gritar.
Em tuas mãos eu senti:
o que arranha tanto explicar...

Naquele dia fiz manha,
cantei até te expulsar...
E a vida assanha a garganta,
e o amor tenta curar...


Luciane Maria Lopes Zanata


* * *

Foto: de Eric Knoblock

domingo, 24 de outubro de 2010

Simplicidade





“Que ninguém se engane: só se consegue a simplicidade através de muito trabalho”

Clarice Lispector

* * *

Foto: de Monique (site 1x.com)

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Meu anjinho





Te amo, te amo, te amo muito, Giulia. Tudo o que eu escrever ou falar, ainda será muito pouco perto de tudo o que eu sinto por você. Sou abençoado por você existir, por ser parte de mim e por tantas alegrias que deu e que ainda vai me dar.

Seja feliz, sempre. Você merece.

Beijos, do papai.

* * *

O vídeo abaixo, neste Dia das Crianças, é uma singela homenagem ao meu anjinho, minha princesa, que, como ela mesma diz, está deixando de ser uma criança.

* * *




Clipe: Anjinho - Taciana Barros (DVD Pequeno Cidadão, 2010)

* * *

Foto: Giulia, aos oito anos (2006).

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Desejos






Eu queria ter me tornado um jogador de futebol. Logo me convenci que não era bom nisso. Desde cedo levava jeito para os negócios. Para alegria da minha mãe. Meu pai pouco se importava. Ter uma mãe muito ambiciosa me tornou uma pessoa fria. Apesar das tentativas carinhosas do meu pai. A única coisa que herdei dele foi o seu distanciamento que adquiriu ao longo do tempo. Rendendo-se. 

Quem também se rendeu foi Eliana. Desistiu de insistir. Deixei de desejá-la como antes. Não foi por crueldade do tempo. Ela continua encantadora. Sempre foi naturalmente sedutora. Desde menina. Mas eu a queria possuir simplesmente por querer tudo. Naturalmente ambicioso. Sempre fui. Não sabia perder. Não gosto de perder. As únicas coisas que não me importei em perder foram o seu amor e o seu desejo. Eu já tinha outros desejos. Como tantos outros que passam e deixam marcas. Nunca mais me apaixonei. Se eu me apaixonei. Difícil ter certeza. 

Paixão era o que Jorge sentia pela Eliana. Mas eu também a desejava. Como desejei um jogo de tabuleiro de Jorge. Uma espécie de estopim em minha vida. Eu logo entendi por que Eliana me escolheu. Foi pela minha agressividade. Sempre fui audacioso. A frustração de ficar de fora do futebol me tornou assim. Um golpe de sorte. Ou destino.

Mas não foi o destino que me trouxe até aqui. Para o meu mundo de aço e concretos. Foi a solidão. Sou solitário por opção. Minhas posses não me dão o que realmente preciso. Encontrar comigo mesmo. Desconsertar o passado. Intensificar a vida. Sacrificar os desejos. Lamentar o que o tempo cura. Entristecer com as fraquezas. Enxergar que o copo está meio cheio. Prorrogar os momentos felizes.

Um dia vou desistir de desejar tanto. Talvez assim eu busque o que Jorge sempre teve. A simplicidade. Talvez assim eu me torne o que Eliana sempre foi.  Uma conquista.



Márcio Sclinder

* * * 
O texto acima completa a trilogia Vozes. Não precisa ler na ordem, mas ler na sequência torna o último episódio mais interessante. 
Episódio 1 - O Jogo
Episódio 2 - Razões

* * *
Foto: Nature . Sea . Landscape (Miroir - Ubiquité) de Tiquetonne2067 (Flickr)

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Ops!



...ops!

...e me vejo ...visivelmente arranjando... ...motivos/maneiras/formas/assuntos/desculpas/programas/guloseimas...
...etc e tal
...só para te ter por perto!

...bandeiraça!

Confissão só para evidenciar o fato.



Patrícia Pisarro

* * *

Ilustração: Dancing in the Moonlight, de Mc Cool

Clique na imagem para ampliar.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Pior que está sempre pode ficar






A cada início de campanha e, principalmente, a cada programa no horário eleitoral gratuito, aumenta a certeza da necessidade de uma revisão geral nas regras eleitorais, dentro de uma verdadeira reforma política. Não dá mais para tolerar aquele amontoado de pseudopartidos, com pseudocandidatos, ocupando espaço nobre no rádio e na televisão. Não dá mais para aturar discursos vazios, caras-de-pau, piadinhas infames, ignorância e mais do mesmo. Não dá mais para aceitar palhaços brincando de políticos e políticos fazendo palhaçada. Não tem mais graça.

Na outra ponta, dos partidos e candidatos “sérios”, a situação não é muito melhor. O que vemos é uma falsa polarização de discursos na disputa pela Presidência, pois a oposição não faz oposição e a situação se contenta em converter uma candidatura forjada na simples continuidade de um governo, como se isso fosse realmente possível. É preciso mudar o que está aí. E, pelo que se vê a cada eleição, e ao contrário do que diz o slogan de um dos “palhaços candidatos”, pior do que está, pode ficar sim.


Ricardo Alécio

* * *

Acompanhe o autor pelo Twitter: www.twitter.com/ricardoalecio

Texto extraído da coluna Xeque-Mate, do Correio Popular de 31/08/2010, Campinas/SP

Ilustração: charge de Dalcio (http://dalciomachado.blogspot.com/)

domingo, 29 de agosto de 2010

Quem quer brincar põe o dedo aqui!







Brincar é coisa de criança. Você provavelmente já ouviu (ou já disse) essa frase. Mas será que é isso mesmo? Segundo os dicionários (Houaiss e Aurélio), brincar é se distrair com jogos infantis, com um objeto ou uma atividade qualquer, como pular, correr, se agitar, se divertir infantilmente, foliar e dançar. 

O Artigo 31 da Convenção dos Direitos da Criança da ONU diz: "Toda criança tem o direito ao descanso e ao lazer, e a participar de atividades de jogo e recreação, apropriadas à sua idade, e a participar livremente da vida cultural e das artes". 

Se eu disser que brincar cumpre muitas funções fundamentais ao desenvolvimento das crianças e dos adultos e que não é necessário nenhum brinquedo para isso, você pensaria que eu estou... brincando? 

Eu poderia tentar convencer a todos, dizendo, "cientificamente", que brincar: — exercita potencialidades, favorece o conhecimento, sociabiliza, sensibiliza e desenvolve intelectual, física, social e emocionalmente (psicomotricidade, linguagem e criatividade); — estimula o pensamento e os sentidos através de atividades do dia-a-dia (mudar as coisas de lugar, bater a mão na mesa, brincar com bichos ou atirar coisas no chão, na parede, etc.); — exterioriza sua realidade interior, libera sentimentos e expressa opiniões; — ensina a seguir regras, experimenta formas de comportamento, tem papel decisivo nas relações entre a criança e o adulto, entre as próprias crianças e entre a criança e o meio ambiente; — cria meios para tornar as crianças responsáveis, atenciosas, trabalhadoras; — ensina a trabalhar em grupo, a compartilhar, negociar, solucionar conflitos e a defender pontos de vista. 

Ficou claro? Convenci vocês? Está política e cientificamente correto? Mas não existe uma forma mais divertida de entender essa questão e, mesmo assim... brincar? 

As crianças se espelham nos adultos próximos e queridos (familiares e professores, por exemplo). Assim, temos nossa parcela de responsabilidade, até em ensinar as crianças a não levarem tudo tão a sério e de forma tão adulta. Ou será que nós não podemos aprender com as crianças a sermos responsáveis apenas na medida e que podemos brincar mais com a vida, com as pessoas, com nossos filhos? 

Tempo e espaço. É tudo o que nós precisamos para brincar. De quanto espaço precisamos para sonhar? Quanto tempo é necessário para sorrir? 

A criança pode brincar com adultos, com outras crianças de qualquer idade e é importante que aprenda a brincar até sozinha, estimulando sua imaginação. Pode-se brincar com ou sem brinquedos e é importante que a criança conheça e use as duas possibilidades. 

Mas é no seu espaço, no seu lar, na sua família, que se forma a base de seu mundo de agora e de todos os tempos. Tempo e espaço. Diversão sem brinquedos pode ser a chave para unir mais a família. 

Muitas vezes, tentamos suprir nossa ausência e amenizar nossa culpa através de presentes, dando brinquedos para que nossos filhos se ocupem, enquanto não temos tempo ou espaço para eles em nossas vidas. A melhor brincadeira para eles (e para nós, sem nenhuma dúvida) é aquela que jogamos juntos, transmitindo nosso entusiasmo. 

E se nós priorizássemos, em busca de um futuro melhor para nosso mundo, um tempo e um espaço em nossa atribulada agenda para brincar com nossos filhos? Especialistas garantem que meia hora diária para brincar com os filhos é suficiente para incorporar essa atividade importante na rotina familiar. Baseado nessas opiniões e aproveitando uma campanha brilhante que já existe, eu proponho criar um movimento: O Agita Família. 

São apenas 30 minutos (tempo), em casa ou em algum outro lugar (espaço), que os pais podem dedicar a brincar com seus filhos de qualquer idade. Brincar de roda, contar histórias, esconde-esconde, fazer bolinhas de sabão, correr, pintar, dançar, fantasiar, amarelinha, pega-pega e muitas outras possibilidades que vocês brincavam quando crianças. 

Junte-se a esse movimento, brinque e vamos sair do "sedentarismo familiar".


Moises Chencinski
(o autor é médico homeopata, pediatra)

Extraído do jornal Correio Popular, de 10/10/2008, Campinas/SP 

* * *
Foto: Fun theory, de Ben Smith (dotbenjamin)

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Contextualize




O caminho se faz ao caminhar.

* * *

Foto de Tiffany Washko

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Luz






Às vezes...
Muitas vezes queria ser como a Luz
Que vai abrindo caminhos na obscuridade
E o que não vejo nas sombras, se revelasse em mim
O espelho que miro, nem sempre me reflete
Pois meus olhos já o atravessaram

Então, reflito sobre luz e escuridão...
Não como positivo-negativo ou, se há luz - não há trevas
Mas, como portas que se abrem pelo lado de dentro
E para dentro, para o profundo... para o imenso
Talvez como quem mergulhe no mar
Sem saber a profundidade
Talvez porque procuro por aquilo que nem sei o que é,
Mas sei estar lá...

A luz que lanço tem sido insuficiente para o lado mais sombreado
Problemas não são trevas e nem desaparecem à presença da luz.
São desafios que temperam os dias e as noites – há que se encarar,
Com e sem medo de ser aprendiz


Há que se confiar que há uma saída para cada túnel


Se pudesse...
Levaria tudo pro aconchego da noite, pois ela me entende e me acolhe
No escuro da noite, viajo e sou luz do meu farol...
Vislumbro horizontes!
Para ver é preciso fechar bem os olhos, abrir alma e coração

Se a Luz, por si mesma resolve... o que saberá sobre trevas?
Mas, se as perguntas são outras
As respostas estão no imenso mar de si mesmo
Mergulhar sem lanternas, feito luz das cadentes no oceano



Madá Freire

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Uma singela homenagem





José Saramago: um escritor de muitas vírgulas, poucos parágrafos e poucos pontos finais. Sua sabedoria deixou aos seus leitores muitos dois pontos. Seus livros serão eternos; seu estilo, único.

Com esta frase ganhei um livro do Saramago, “O Evangelho segundo Jesus Cristo”. Uebaaa!!

Foi num concurso cultural promovido pelo Jornal Metro, em homenagem ao escritor. Inclusive, a campanha desta promoção tem uma frase muito bacana: “A melhor forma de homenagear um revolucionário da escrita como José Saramago é não colocar um ponto final em seu legado.”

Neste concurso a frase tinha que ter no máximo trinta palavras. Parecia que estava digitando mo Twitter, tendo que me limitar. Ah, eu estava tão empolgado! Até me lembrar das regras. Com tantas alterações que fiz, nessa coisa de apagar aqui, mudar ali, sobrou pouca coisa, mas funcionou. Consegui passar a mensagem que queria, afinal alguém do jornal entendeu. Uou.

Ainda não li este livro, mas faz parte da lista faz um tempão. Agora não tenho desculpas. Li poucas coisas dele, mesmo assim virei um grande fã. O primeiro que li foi “O conto da ilha desconhecida”, que é simplesmente fantástico. Qualquer dia eu conto algo sobre ele.

Bom, mais um livrinho pra coleção. Mais um pra fila. Que está bem loooonga... Ô Jesuis!...

domingo, 25 de julho de 2010

Parabéns aos nossos queridos velhinhos





Recentemente, descobri que no mês de julho é comemorado o Dia da Avó, no dia 26, e no dia seguinte, o Dia dos Avós (casal). Aliás, é um erro estes dias não serem tão lembrados e celebrados como deveriam, diferentemente do que acontece com os tão badalados Dia das Mães e Dia dos Pais. Estou feliz em saber que existe um dia mais específico para comemorar e honrar esses velhinhos – se bem que muitos são avós bem antes de tornarem velhos. Tenho muito respeito e carinho pela minha avó. Ela me ensinou muito no decorrer da minha vida. Como todos os idosos, ela carrega uma boa tonelada de sabedoria e experiência.

Pena que nem todo mundo pode dar aquele abraço gostoso na vovó ou no vovô, especialmente no dia deles, ou porque eles moram longe, ou porque já se foram.

Mas não deixa de ser uma oportunidade para refletir sobre a importância da avó, ou mesmo do avô, na família e na sociedade. Claro que é muito legal comemorar, festejar, mostrar carinho, porém, é importante pensar com seriedade sobre a sua relevância na família e na sociedade.

Considerando que a maioria dos pais e mães trabalha fora de casa, muitos netos ficam sob a responsabilidade das avós, auxiliando, inclusive, na educação, além de transmitir sua sabedoria e experiência em diversos assuntos. A avó desempenha um papel cada vez mais importante nesse mundo tão atribulado atualmente – transmitindo amor, bondade, respeito pelo ser humano, simplicidade, humildade e o desapego das coisas materiais (só pra citar alguns exemplos) – colaborando efetivamente na formação do caráter de seus descendentes.

E o convívio com os netos traz muita alegria para as vovós. A presença dos netos anima, ocasionando mais vontade de viver. A grande alegria de uma mulher idosa é poder ser avó. Um sentimento muito valorizado no íntimo de cada mulher.

Que bom seria se toda família tivesse condições de amparar seus idosos, mesmo que eles prefiram ficar num asilo, com a justificativa de “não querer incomodar” ou por desejarem um pouco mais de privacidade. Distante de um lar apropriado, de um ambiente que se sinta totalmente confortável, que seja favorável aos seus anseios, o idoso se sente abandonado, desprezado e solitário, entristecendo-se amarguradamente a cada dia. Se os idosos não têm como morar com seus familiares, ao menos devem sempre receber visitas e serem convidados com frequencia para passarem um tempo com a família. Este sempre será um assunto complicado e uma situação assim é muito difícil de lidar.

Enfim, se você tem ou não sua avó ou avô, se seus pais já são avós, se os seus vizinhos já são avós, se a aquela senhora que te cumprimenta sempre que te vê na rua é vovó, parabenize-os pelo seu dia. E pelo simples fato de serem idosos, seja sempre amável, gentil e receptivo com eles todos os dias. Faça com que eles se sintam valorizados, que sintam que esse mundo não é totalmente injusto, que a maioria das pessoas não é insensível. Puxe conversa, sorria, dê um abraço. Certamente você estará fazendo o dia deles muito melhor.

E o seu também.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

A velha rabugenta





Que veem amigas? Que veem? Que pensam quando me olham? Uma velha rabugenta, não muito inteligente, de hábitos incertos, com seus olhos sonhadores fixos ao longe?

A velha que cospe comida, que não responde ao tentar ser convencida “de fazer um pequeno esforço”? A velha que vocês acreditam que não se dá conta das coisas que vocês fazem e que continuamente perde a sua escova ou o sapato? A velha, que, contra sua vontade, humildemente lhes permite fazer o que queiram, que me banhem e me alimentem só para o dia passar mais depressa.

É isso que vocês acham? É isso que vocês veem? Se assim for, abram os olhos, amigas, porque isso que vocês veem não sou eu! Vou lhes dizer quem sou, quando estou sentada aqui, tão tranquila como me ordenaram… Sou uma menina de 10 anos, que tem pai e mãe, irmãos e irmãs que se amam. Sou uma jovenzinha de 16 anos. Com asas nos pés, e que sonha encontrar seu amado. Sou uma noiva aos 20, que o coração salta nas lembranças. Quando fiz a promessa que me uniu até o fim de meus dias com o amor de minha vida. Sou ainda uma moça com 30 anos, que tem seus filhos, que precisam que eu os guie. Tenho um lugar seguro e feliz! Sou a mulher com 40 anos, com os filhos que crescem rápido, e estamos unidos com laços que deveriam durar para sempre. Quando tenho 50 anos meus filhos já cresceram e não estão em casa.

Mas ao meu lado está meu marido, que me acalenta quando estou triste. Aos 60, mais uma vez comigo deixam os bebês, meus netos, e de novo tenho a alegria das crianças, meus entes queridos junto a mim.

Aos 70 anos, sobre mim nuvens escuras aparecem, meu marido está morto; e quando olho meu futuro me arrepio toda de terror. Os meus filhos se foram, e agora têm os seus próprios filhos.

Então penso em tudo o que aconteceu e no amor que conheci. Agora sou uma velha.

Que cruel é a natureza... A velhice é uma piada que transforma um ser humano em um alienado. O corpo murcha, os atrativos e a força desaparecem. Ali, onde uma vez teve um coração, agora há uma pedra.

No entanto, nestas ruínas, a menina de 16 anos ainda está viva, e o meu coração cansado ainda está repleto de sentimentos vivos e conhecidos. Recordo os dias felizes e tristes em meus pensamentos. Volto a amar e a viver o meu passado. Penso em todos esses anos que foram, ao mesmo tempo poucos, mas que passaram muito rápido, e aceito o inevitável. Que nada pode durar para sempre.

Por isso, abram seus olhos e vejam: diante de vocês não está uma velha mal-humorada. Diante de vocês estou apenas eu, uma menina, mulher e senhora, viva.

E com todos os sentimentos de uma vida.


(autoria desconhecida)

* * *

Às vezes é difícil compreendermos a forma como os idosos veem as coisas. Talvez essa rispidez toda aparece por sentirem medo do amanhã, pela própria solidão ou simplesmente por saudades de um tempo que não volta mais. Muitos idosos são ignorados ou esquecidos - é tão triste!

Ao se deparar com uma pessoa idosa mal-humorada, não a rejeite, procure entender o motivo de tanto mau humor, e tente fazer com que ela mude por meio de algum gesto seu, com um olhar de compreensão ou algo assim. É preciso tão pouco de nós, mas significa muito para quem precisa de amabilidade. E lembre-se: um dia você poderá estar no lugar dela.

* * *
Ilustração: Old woman with cane, de Asuman e Atanur Dogan

terça-feira, 29 de junho de 2010

Este é o inverno





Um frio de leve
vem pra ficar.
A brisa suave
faz a árvore balançar.

O vento sopra
assobiando.
O céu escuro
vai ficando.

As nuvens passam
de mansinho.
A chuva chega
devagarinho.

As pessoas correm
abrindo guarda-chuvas.
Vi um homem de casaco
e uma mulher de luvas.

É esse o inverno
sorrateiro.
Vem chegando
e nem avisa primeiro.


Clarice Pacheco

sábado, 12 de junho de 2010

Dia dos Desnamorados





A palavra não existe, mas existem as pessoas que se encaixam nela. Desnamorar é fazer os movimentos contrários aos que fazemos para namorar. É um processo, um desenrolar- se, um movimento para acrescentar a cada dia uma pedra na construção de uma barreira — sim, o desnamoro é uma construção.

Se namorar é a desconstrução do outro, no sentido de desmontar defesas pouco a pouco, descobrir e desativar resistências, abalar certezas e hábitos, desconectar antigas cumplicidades, minar a independência, desnamorar é uma construção. De um muro, ou de uma torre.

Muro é boa imagem, porque separa, põe limites, marca território. Torre talvez seja ainda melhor, mais completa, porque isola e coloca no alto, torna mais difícil alcançar quem desnamora.

Para desnamorar, é fundamental a colaboração entre os parceiros, ainda que de um lado a ajuda possa ser involuntária ou passiva. É preciso desleixo, descuido, falta, decepção. Entre os movimentos contrários aos que os parceiros fizeram para namorar, os mais importantes são os contrários à sedução. Nem precisa ter pressa, é ir parando aos poucos de seduzir.

Muitas vezes o casal não sabe que está desnamorando, é mais certo dizer que um deles não sabe, mas pode acontecer de os dois não saberem.

Um namoro é sustentado por pequenas ações charmosas; ao contrário, gestos pequenos de indiferença arquitetam o desnamoro. Beijinhos, presentinhos, bombons de cereja, mensagens no celular, declarações, essas coisas do namoro vão sumindo aos poucos.

Nada daquelas atenções mínimas que pareciam loucuras, como sair do carro no meio do trânsito só para dar mais um beijinho, telefonar de madrugada porque bateu uma saudade, levar um osso no aniversário da cachorrinha, nada disso, e muito menos as grandes maluquices de apaixonado, como jogar pétalas de rosas vermelhas de um helicóptero em cima dela, da casa dela, do quarteirão...

É preciso não ter explicações para certas ausências, ou então explicar pela metade, ou mesmo inventar desculpas esfarrapadas só para levantar suspeitas e piorar o clima.

Não reparar no novo corte de cabelo, nas unhas pintadas, na virilha depilada, nos quilos a menos conseguidos com tanto esforço e renúncia, na redução da barriga de cerveja, no tempo dedicado ao futebol, na palavra amor jogada no meio da conversa banal.

É dizer “não tenho” quando falta um dinheiro. Numa balada ou no barzinho, ficar olhando em volta, em vez de ter os olhos grudados como em outros tempos. É o aflorar da rispidez no lugar da gentileza, o não ouvir ou fazer que não ouviu, o bater de portas, o pisar duro, o conversar de perfil, o jantar só, o silêncio no carro, o não deixar bilhetinho, o não procurar, o dormir antes da chegada do outro.

Não ter tempo para ver aquele filme de que todos estão falando. Isolar-se no almoço de domingo na casa da mãe ou da sogra. Não perguntar “quem está ganhando?” ao passar pela sala na hora do futebol, não que interesse, mas como uma forma de dizer “olá, você”.

Os que têm filhos ou netos vão se acostumando aos poucos com o desnamoro, porque, ah, tanta coisa para fazer, encontram tantas compensações afetivas com os filhos — e contentam-se, deixam-se levar para esse lado, mesmo quando sabem que é amor de outra qualidade.

Uma coisa que não tem importância para os desnamorados é não ganhar presente no Dia dos Namorados.


Ivan Ângelo
[Revista Veja São Paulo – 09 de junho de 2010]