sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Chove Chuva





Chove chuva, chove sem parar.
Jorge Ben

A “manhã” está tão fria, chove lá fora.
Esta saudade enjoada não vai embora.
Onde estás, como estás,
com quem estás agora?
Tito Madi


Naquela manhã de sábado, ela acordou tranquila. Meio preguiçosa, como não poderia deixar de ser, já que chovia aquela chuvinha mansa e constante, nublando o céu, e escondendo a cidade sob uma névoa estranha e desconhecida para os padrões tropicais.

Cada dia mais, Valentina confrontava suas atitudes atuais com as suas atitudes de outrora, e ficava pasma ao ver o quanto havia mudado.

Nada de ansiedade, nem tristezas, nem dúvidas. Apenas uma calma interior, um sossego, tranquilidade em tudo e por tudo.

Ocasionalmente, dias chuvosos a deprimiam. Traziam-lhe uma tristeza funda, uma saudade de si mesma, um descontentamento sem motivo. Nunca gostou de chuva. Só à noite, quando ainda menina e sua mãe ou seu pai seguravam-lhe as mãozinhas até ela dormir, e aquele bater da chuva no telhado ia embalando seu sono, até ela se desligar do mundo que a cercava.

Era bom.

Depois mais tarde, quando já adulta e morando no campo, Valentina gostava de reconhecer os sons diferentes que a chuva e o vento faziam ao tocar as árvores, o telhado, o cimentado do terreiro de café. Nestas ocasiões, se aninhava nos braços de Sergei e adorava pensar que estava viva, casada, e sentia-se amada e feliz. Como era bom estar casada com o grande amor da sua vida!

As circunstâncias da vida mudam as pessoas, moldam as pessoas, renovam as pessoas, se elas se deixarem renovar.

Manhã de um sábado. Na noite anterior, foi jantar com uma amiga, depois assistiu uma leve e engraçada comédia de amor. Não pense que é redundância. Não. Pois nem todas as comédias são engraçadas como se propõem. Gosta de graça sutil, inteligente, nada usual.

Quando a maturidade chega, duas coisas podem acontecer: ou você se torna plena de carinho, de afetos, de amizade, de alegria e com a completude de quem sabe o que quer, o que viveu, a recordar o passado sem remorsos ou sentimento de culpa – ou, então, vive uma vida amargurada, pensando no que perdeu, no que viveu e não vive mais, fechando-se para vida, para o outro, para as alegrias que ainda pode ter e sentir.

Felizmente, Valentina pertence ao primeiro grupo. Ela é feliz por ela mesma. É atávico e não há nada neste mundo que consiga roubar-lhe sentimentos bons de alegria e esperança. Sua tristeza dura uma noite, como diz o salmista ou o proverbista, foge-lhe agora a exatidão de quem seja que disse estas palavras, mas sabe a continuidade delas: a alegria vem pela manhã.

Leva sua vida entre seus discos, seus livros, suas pinturas, seus amigos do mundo virtual, ou do mundo real. Todos lhe dão um sentido de estar conectada com o universo e com a vida em si, de uma maneira mais íntima e coesa dentro do macrocosmo. A vida é boa. Claro que vê e sente as vicissitudes que a vida lhe impõe. Nem sempre tudo decorre na calma que gostaria, mas sabe que viver traz em seu bojo coisas boas e coisas não tão boas e, de quebra, coisas péssimas.

Já disse alguém que sem sofrimento não há crescimento e que, embaixo de árvore frondosa, não cresce grama. Adorou este conceito simples, mas verdadeiro dito pelo amigo querido.

Todos têm momentos de introspecção e pensamentos de sonhos e derrotas, Valentina sabe disso, mas aprendeu a administrar suas desesperanças e desapontamentos e sempre acreditar no amanhã. Tudo muda, nada é para sempre. Como dizia sua mãe, passa o bom e passa o ruim, e depois de passados, ambos não existem mais: são simples lembranças. Memórias… e memórias só existem na nossa cabeça. Já não fazem parte do mundo real. Ou será que elas é que são nosso mundo real?

Não sei. Valentina também não sabe. O que ambas sabemos é que tudo conspira pra que saibamos que o que passou, passou, e que o que temos hoje é o que realmente importa.

Só poderemos estar bem no amanhã, se o nosso hoje for plenamente vivido, observado e usufruído.

A vida flui e deflui, como um rio. Valentina gosta dessa imagem. O rio vai em frente, serpenteando por margens limpas e verdejantes, outras vezes por barrancos feios e sujos, mas não para jamais. Vai que vai. Leva em seu correr, música e beleza, mas, algumas vezes, leva terra barrenta e suja. Lixo… Não importa, sua meta é chegar, nem sabe onde, é verdade, mas caminha, sempre em frente molhando margens, carregando peixes, matando sede, enfeitando paisagens. O rio é a coisa mais parecida com a vida que se tem nesta terra. Por isso gostamos, Valentina e eu, das palavras de Cecília Meirelles: “Sou como um rio que flui e deflui!”.

Nestes dias frios e meio solitários, com a casa quieta, sem barulho de filhos, ou netos ou amigos, ou irmãs, Valentina gosta de mexer em suas coisas. Textos escritos, poemas impressos, cartões recebidos, seus livros, seus CD’s, fotos, suas pinturas, e fica pensando o que farão os filhos com tudo isso, quando ela se for.

A gente passa a vida escolhendo coisas a serem guardadas, separando-as em pastas, em cadernos, em arquivos, arrumando-as em gavetas ou estantes e, nos finalmente, elas dizem de perto apenas a nós. Fazem parte da nossa existência e ao outro, tudo isso não sabe a nada.

Farão por certo uma grande fogueira, sim, grande, porque ela é a rainha dos guardados… Ri de si mesma, ri pra si mesma e sente-se feliz com o que fez durante estes não tão longos anos.

Digo isto, porque pra Valentina a vida passou muito rápida. Como diz o proverbista, agora com certeza: “A vida é um conto ligeiro”.

Tudo pra ela é tão real, tão hoje, tão nítido e vívido, que é capaz de fechar os olhos e sentir o gosto, o cheiro e a presença dos que povoaram sua vida. Mas o interessante disto tudo é que nada disso, nem todas as lembranças do seu mundo, a fazem se esquecer de viver o presente. Sua vida é hoje. Suas emoções são de agora, e seus desejos reais, como esta chuva fina que insiste em cair, molhando esta manhã deste sábado de julho.

Manhã fria, pedindo um café quente, um leite adoçado como o da infância, pedindo a companhia de alguém. Um alguém qualquer, que a fizesse compartilhar essa preguiça de uma manhã meio cinzenta.

Sim, Valentina ainda sonha com o amor pleno e completo de um homem que entenda o poder das palavras e o poder do silêncio. O poder das mãos que acariciam e o poder da presença quente e acolhedora de braços que saibam abraçar sem usura.

Quando ainda na cama, esta manhã, muitos pensamentos vieram-lhe à cabeça. Recapitulou a maneira de ser e agir dos filhos. Pensou na alegria que sente em ser avó, sentiu-se plena por estar vivendo numa era de tanta modernidade e tecnologia, e satisfeita por ter vivido em época mais amena e calma. A vida moderna é assustadora, com seus perigos eminentes de violência, medo, doenças desconhecidas. A vida moderna nos torna gigantes ou pigmeus. Não podemos nos ausentar dela. Vivemos o dia-a-dia incrustados nestas maluquices que nos assombram e nos fazem temer sair às ruas. 

Contudo, a natureza humana traz embutida dentro de si mesma um alienamento necessário, que nos faz caminhar pelos acontecimentos sem que nos deixemos arranhar demais. E vamos levando a vida como se tudo fosse um mar caribenho em tardes turquesa de verão.

Esse mecanismo de ausência presente é a nossa defesa e garantia de sobrevivermos neste caos instalado de injustiças, tristezas, misérias, desconforto e insanidade. Há deslumbramentos a serem sentidos, há pessoas maravilhosas a serem conhecidas e amadas. Há lugares lindos a serem conhecidos e descobertos em meio a este caos. Mas o caos está aí, nas nossas barbas.

Paradoxo? A vida é um paradoxo! O ser humano tem uma dualidade incrível e inexplicável embutida em si mesmo, na sua maneira de ser e estar no mundo.

Todos temos sentimentos ambíguos de ser e não ser, de estar e não sentir, de viver da melhor maneira possível, mesmo em meio às tragédias que nos cercam.

A vida é um circo. Temos espetáculos diários de trapezistas atuando com concentração inconteste para não despencar das alturas, temos equilibristas tentando a travessia até o outro lado do abismo, pisando em corda bamba, e temos palhaços nos fazendo rir às gargalhadas, mesmo que estejam sofrendo dores na alma ou no corpo. Não pode chover muito porque o circo é de lona, não pode o sol ser escaldante demais porque a lona é colorida e desbotará. Não pode ter amarras, nem fronteiras permanentes, nem nada ser definitivo, porque o circo é itinerante. A vida é como o circo, sim – passageira num mundo também passageiro.

O público está lá. Pronto a aplaudir ou não. O espetáculo tem de ser bom. Sempre! Não importa o sentimento de quem o produz. Somos todos palhaços, equilibristas, trapezistas ou atores da peça que se representava nos circos de antigamente. Vamos seguindo em frente, nos mudando, nos moldando aos tempos e às circunstâncias. Somos sobreviventes.

Valentina sabe disto tudo. Valentina gosta de estar viva e sentir a vida. Vida pra ela vai desde uma canção ouvida muitas vezes, ou de um perfume bom que lhe faz sentir cheirosa e feminina. A vida pra Valentina passa pela camisola de seda que veste e a faz sentir mulher, e a comida bem feita que coloca sobre a mesa arrumada como se fosse receber visitas pro almoço ou jantar. Desfruta o café da manhã como se fosse a última refeição a ser feita.

Vida é viver todas as coisas com plenitude de alma, coração e corpo. Vida é ter amigos, falar com os filhos, estejam onde estiverem, e vê-los pela webcam, rir com eles e ouvir-lhes os feitos, os sonhos, as vivências diferentes em cada um deles e que a um só tempo os faz tão iguais e tão diferentes. Vida é saber que Deus a guarda, a conforta e a enche de esperança.

Vida é sonhar dormindo e contar o sonho pela manhã àquela pessoa que estiver presente em seu dia. Vida é também sonhar acordada, fazer planos de realizar coisas, de Natais que ainda virão, de verões na praia e invernos nas montanhas. Vida é sonhar com viagens ainda não realizadas e relembrar as já realizadas.

Vida, para Valentina, é estar viva. Bênção maior que esta não pode haver. Como ela gosta de dizer, e já o fez diversas vezes: vida doida, vida doída, mas eita vida boa!

Sua manhã de sábado está indo… como tudo neste mundo, que nunca sossega. Logo, vai tomar mais um café, fazer alguns telefonemas e tomar seu banho. Terá que sair. Vai buscar sua roupa nova que mandou embainhar. Vai vesti-la hoje nem que seja pra ir à padaria comprar pão… mas vai vesti-la. Rio-me do jeito dessa mulher ainda tão menina em seu interior. A vida não roubou a infância feliz de Valentina. Ela é ainda a menina que, não mais de trancinhas enlaçadas por fitas de tafetá xadrez, canta muito.

Canta canções de amor, canta canções tristes, canta enquanto pinta, enquanto faz um doce, enquanto arruma. Quando mergulha dentro de si mesma, vem à tona:

Eu fui no Itororó,
Beber água, não achei.
Encontrei bela menina,
Que no Itororó deixei…
Aproveite minha gente
Que uma noite não é nada…
Se não durmo lá de noite,
Durmo lá de madrugada…

E em suas lembranças mais antigas, lá esta ela, balançando em sua cadeirinha de balanço, cantando com sua vozinha rouca, rindo à toa, feliz com a família à sua volta, sempre a aplaudindo em tudo o que fazia. “Cante, Valentina, cante, que o papai quer ouvir…”.



Ercília Pollice

* * *
Viva a Vida. E muitos vivas para uma vida de Valentina!

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Parte da trilha




Nem sempre a letra de uma música bate com as imagens de um clipe e taí uma coisa que nem importa muito. No caso do clipe da excelente The Fall [A Queda], da dupla Rhye, o que vemos no vídeo está mais pra uma meditação existencial sobre a idade adulta depois que se passou dos 40 anos, e quanto a falta de inocência e o aumento do desejo, de forma um tanto quanto deprimente, absorve a maturidade que levou um tempão pra se construir.

A música, além de muito deliciosa, com vocais precisos que é ao mesmo tempo quente e alegre, é satisfatoriamente melancólica. Consegue entender isso?

Impossível não se deixar envolver com a sua letra que estabelece uma trama de versos apaixonados, confessionais e que por si só já são levemente dançantes. Compondo, assim, uma perfeita trilha sonora de coisas que raramente são ditas. A música, uma mistura de canção de amor com canção de desgosto, vai se desmanchando suavemente nos ouvidos, pois é cheia de alma, e aos poucos vai deixando a gente extasiado, graças a uma batida leve e envolvente.

E o que vemos no clipe, de maneira não muito distinta, é o quanto a vida pode parecer que é uma merda e que, quando a gente se depara com a perda da doce juventude, tudo parece muito frustrante. E isso pode ser extremamente...  comovente!

Depois que o clipe acaba, muito marmanjo vai ficar se perguntando: "o que realmente significa essa coisa de ser adulto, responsável e maduro, hein?" Não fique muito alegrinho não, cara pessoinha jovem! Você está envelhecendo a cada segundo e um dia vai se ver na mesma situação. =)

Então, de olho nas imagens e aumenta o volume pra curtir essa dupla que eu considero que vai ser uma grande aposta para 2013. Se gostar dessa, vai ser impossível não pedir mais. E aqui vai ter.


Márcio Luiz Soares

* * *



***
Para aqueles que quiserem ouvir uma versão mais dançante, eis aqui uma acrescida com o vibrante swing dos anos 70:

******
The Fall

Oooh, make love to me
One more time
Before you go away
Why can’t you stay?

Oooh, my love
Come home to me
Just for a while
I’ll leave this place
Why can’t you stay?

Don’t run away
Don’t slip away my dear
Don’t run away
Don’t slip away my dear
Don’t run away

The song is gone
Fell into the fall
But I don’t want it this way
Why can’t you stay?

Don’t run away
Don’t slip away my dear
Don’t run away
Don’t slip away my dear
Don’t run away

Ohh ohh

That should be worse
That should be worse that explain away
But I’ll talk time and twisted

Don’t run away
Don’t slip away my dear