sábado, 28 de fevereiro de 2009

Devolve




Devolve toda a tranquilidade
Toda a felicidade
Que eu te dei e que perdi
Devolve todos os sonhos loucos
Que eu construí aos poucos
E te ofereci
Devolve, eu peço, por favor
Aquele imenso amor
Que nos teus braços esqueci
Devolve, que eu te devolvo ainda
Esta saudade infinda
Que eu tenho de ti


Mário Lago

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

O Caçador de Pipas - o livro






Há alguns dias, terminei de ler O Caçador de Pipas, de Khaled Hosseini. Um livro fascinante e muito comovente. Quando acabei, fechei o livro e pensei sobre o quanto devemos botar na cabeça, definitivamente, que sempre há tempo para mudar, de tomar uma atitude e resolver alguma questão mergulhada no passado e não ficar considerando que de nada vai adiantar. Se não deu para evitar determinados deslizes, então devemos arrumar a bagunça. E se não derem o devido valor a esse conserto, paciência, tentamos e fizemos a nossa parte.

Logo no início da narrativa, em primeira pessoa, temos contato com Amir, narrador da história, e sua amizade com Hassan, filho de um empregado de seu pai quando moravam no Afeganistão (muito antes da tomada do governo pelos líderes do Talibã). Esse empregado era uma espécie de caseiro e mordomo, e por isso o contato com Hassan era muito próximo, criando uma amizade fraternal. Na adolescência os dois se separam de maneira conturbada (e injusta) em circunstâncias desagradáveis causadas pelo próprio Amir. Em alguns momentos cheguei a sentir raiva deste personagem.

O livro aborda alguns temas como amizade, lealdade, preconceito, intolerância, religião, caráter, integridade, valores morais e coragem. E também covardia – é justamente isso que Amir tem de sobra. Eis o motivo da minha raiva. Interrompi a leitura por diversas vezes, decepcionado com suas atitudes, totalmente indignado. Inclusive, optei em postar a foto acima, capa de alguma edição estrangeira, pelo fato de retratar perfeitamente um ato de covardia de Amir num momento crucial do romance. Mas nem por isso essa atitude, em particular, é incompreensível, e nem é imperdoável; é apenas inquietante, desleal e, até, desonrosa.

Teve um outro motivo que me fez fechar o livro, muito emocionado: foi quando um membro do Talibã mata um dos personagens. Eu estava tão mergulhado no livro que foi como se estivesse presenciando bem de perto, podendo ouvir a vítima cambalear no chão, foi como se eu pudesse ouvir sua respiração parar de repente, sentir o cheiro do sangue que cobria a terra...

Sinceramente, a narrativa é de uma magnitude tão excepcional a ponto de considerar que seria impossível eu não me envolver tanto. O que sentia a cada capítulo era um misto de sentimentos tão forte que decidi dar um tempo na leitura, tamanha a angústia.

Acho que acertei na decisão em não ver o filme antes de ler o livro em que foi baseado, tendo em vista o que me falaram. Poderia estragar muito desses sentimentos, eu imagino, tirando o elemento surpresa da narrativa. Sentimentos que alguns podem achar que seria bom não sentir. No entanto, por que fugir? Não há motivos para evitá-los ou ignorá-los. Pois se tratam de emoções que nos fazem perceber como devemos dar valor a tudo que vemos, ouvimos e aprendemos com a vida. E que também fazem perceber o quanto devemos aproveitar as emoções que sentimos, o quanto devemos enfrentar nossos medos, fazer valer cada segundo.

Afinal, tudo é muito rápido, num estalar de dedos podemos perder tanta coisa, e até mesmo aquela sensação que julgamos ser desagradável e indesejável pode fazer falta algum dia.



Márcio Luiz Soares

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Milagre







Acorda!
A vida pede tua presença.
Anda!
Vem viver agora.
Por que ficar parado assim,
Sem saber para onde ir?
Vem!
A vida mostra a direção.

Desviar-se da rota,
Pedras no caminho,
Parar para admirar a paisagem,
Ou até mesmo, cochilar durante o percurso.
Tudo é permitido.

Mas há um tempo.
A roda não pode parar.
Gira, gira e gira.

Vem!
Entra na roda outra vez.
A vida é um milagre
Lindo, mas efêmero.
Aproveita-o então.

Kátia Martins

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Oscar 2009 - dentro do previsto



De todas as cerimônias de entrega do Oscar, essa foi a que mais gostei exatamente pelas inovações. Uma das melhores surpresas foi Hugh Jackman, um verdadeiro (e inesperado) showman. Além de dar uma certa leveza, com seu ótimo humor e irreverência, cantou e dançou muito bem. Também achei muito bacana a apresentação dos indicados nas categorias de ator e atriz (principais e coadjuvantes), contando com a presença de antigos ganhadores juntos nos palco e cada um deles elogiando cada indicado antes da revelação.

Como era de se esperar Quem Quer Ser Um Milionário? foi o filme que mais levou (oito premiações). Dentro das minhas preferências e palpites acertei alguns:

Melhor atriz: Kate Winslet, por O Leitor. Acertei, preferência e palpite. Mesmo não tendo visto as atuações das outras indicadas, vibrei muito, pois há muito tempo achava que ela merecia, por diversos filmes.

Melhor ator: deu Sean Penn, por Milk. Arrisquei na preferência por Rourke, mas meu palpite era que a Academia daria a estatueta para Penn. Acertei no palpite pelo menos.

Melhor atriz coadjuvante: ganhou Penelope Cruz (Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen). Preferi Marisa Tomei, mas achava que daria Viola Davis por Dúvida. Errei tudo.

Melhor ator coadjuvante: Heath Ledger, em Batman - O Cavaleiro das Trevas. Acertei os dois. Parecia impossível a Academia não fazer essa homenagem. Mesmo sem a homenagem póstuma, mesmo se estivesse vivo, era bem capaz de ganhar por sua ótima atuação.

Melhor filme e diretor: foi Quem Quer Ser um Milionário?, de Danny Boyle . Também errei na preferência, mas sem assistir ao grande favorito isso era passível de acontecer (ainda não fui na pré-estreia). Acertei nos palpites.

Roteiro original: Milk. Acertei tudo.

Roteiro Adaptado: acertei no palpite: Quem Quer Ser Um Milionário?

Longa de animação: Wall-E - óbvio demais.

Fotografia: a noite era indiana mesmo! Palpitei certo. Mas preferi Batman.

Montagem: outra vez o filme de Danny Boyle. Se eu tivesse visto, talvez acertasse ao menos no palpite.

Maquiagem: tava fácil: O Curioso Caso de Benjamin Button.

Efeitos visuais: outra vez Benjamin Button. Nesse errei feio, afinal as trucagens foram bem mais complexas, era óbvio! Sei lá por que pensei em Homem de Ferro como palpite. [dããrnn...]

Trilha: mais uma estatueta para Quem Quer Ser Um Milionário? Palpitei certo. Mas minha torcida estava para Milk.

Montagem sonora: acertei no palpite: Batman. Minha preferência era pelo O Procurado, por estar repleto de surpresas sonoras.

Figurino: mais um acerto no palpite. Acompanhar os favoritos pela imprensa tem suas vantagens! Foi para A Duquesa. Mas Milk, minha preferência, é de ser tirar o chapéu.

Canção: outro palpite certeiro: Quem Quer Ser Um Milionário? Minha preferência, do filme Wall-E, estava ali, bem juntinha, a canção é muito bela e emocionante.

Muitos filmes interessantes e atores de que tiveram ótimas atuações ficaram de fora. Aliás, essa coisa de melhor atuação é uma coisa contraditória. O mais importante de tudo é que nós, apreciadores do cinema, saímos ganhando. Mesmo após ver um filme ruim, daqueles que até causa um certo arrependimento, a probabilidade de ver algo bom, realmente interessante, é grande. 2008 pode não ter sido um ano de filmes memoráveis e fantásticos, mas pela boa parcela até que foi considerável. Só lamentei não ver Batman - O Cavaleiro da Trevas competindo por melhor filme. Para mim foi o ano do melhor filme do Batman. E acima de tudo: o melhor Coringa.

Agora que venham algumas promessas de sucesso nas telonas: Watchmen (um dos melhores quadrinhos, a obra-prima de de Alan Moore); Star Trek em sua versão clássica atualizada (uebaaa!); Wolverine; Superman: o Homem de Aço; Avatar; O Exterminador do Futuro: A Salvação (com Christian Bale no papel de John Connor);Up (outra produção power da Pixar); GI Joe; A Era do Gelo 3; Anjos & Demônios (Tom Hanks interpretando novamente Robert Langdon de O Código Da Vinci); Sherlock Holmes (com Robert Downwy Jr); Public Enemies (com Bale e Johnny Depp); os filmes com Mel Gibson, Robert De Niro, Matt Damon (em The Informant, de Steven Sodenbergh e em Green Zone, de Paul Greengrass), Keira Knightley (em Last Nigth, um drama comovente); os filmes de Peter Jackson, Quentin Tarantino, Clint Eastwood (que está nos devendo...), Fernando Meireles (também torço para que o cinema nacional dê uma alavancada) e muitos outros.

A lista das novidades é enorme. Muita coisa boa vem por aí. Arrumei pra cabeça: vou ter que reservar uma graninha a mais para poder ver uma boa parcela disso tudo...


domingo, 22 de fevereiro de 2009

Meus preferidos e palpites do Oscar 2009



Daqui a pouco começa o Oscar 2009 e como bom cinéfilo não posso deixar de acompanhar. Sei que a premiação peca pela injustiça em alguns casos todos os anos, mas mesmo assim é gostoso torcer ou ficar na expectativa de quem vai levar uma estatueta para casa. Todos os anos procuro ver o máximo de filmes indicados para torcer, mais por coerência conforme meu julgamento do que por preferir um ou outro indicado.

Esse ano foi um pouco complicado, não consegui ver muita coisa antes da premiação e ainda teve aqueles que foram indicados depois que o filme não estava mais em cartaz. Por isso que hoje mesmo assisti dois filmes em seqüência, que outro dia vou comentar. Seguem os meus preferidos e, no fim de cada categoria, os meus palpites de quem deve ser premiado por tudo que ouvi por aí:

Melhor atriz: Kate Winslet, por O Leitor. Não vi os filmes das outras indicadas. Acho que ela leva.

Melhor ator: Mickey Rourke, por O Lutador. Vi hoje e fiquei na dúvida, pois Sean Penn (outro que vi hoje!) também está ótimo em Milk – A Voz da Igualdade. Estou quase considerando um empate técnico entre os dois... Dos outros indicados só vi o filme de Brad Pitt, O Curioso Caso de Benjamin Button. Também está convincente, mas prefiro os outros. Penn deve levar.

Melhor atriz coadjuvante: Só vi Marisa Tomei em O Lutador, mas não dá pra ter torcida nesse caso. Mas estou apostando em Viola Davis (Dúvida) por tudo que ouvi falar.

Melhor ator coadjuvante: Heath Ledger, em Batman - O Cavaleiro das Trevas, é o meu preferido disparado. Também vi Josh Brolin em Milk - A Voz da Igualdade, mas para mim ele não tem chance comparando com Ledger. O melhor Coringa deve ganhar esse Oscar póstumo.

Melhor diretor: David Fincher, por O Curioso Caso de Benjamin Button, apesar de achar que tanto Stephen Daldry por O Leitor e Gus Van Sant por Milk também mereçam, mas tinha que optar por um e considerei um detalhe ou outro. Preferia assistir mais de uma vez cada um pra ter uma opinião melhor. Dizem que quem deve levar é Danny Boyle por Quem Quer Ser um Milionário? (outro que não consegui ver ainda), e não duvido que ele leve a estatueta.

Melhor filme: Milk - A Voz da Igualdade, por uma diferença mínima, pois também gostei muito de O Leitor e de O Curioso Caso de Benjamin Button. Se um desses levar ficarei contente. Parece que quem deve levar é Quem Quer Ser Um Milionário?

Roteiro Original: Milk. Dos outros indicados só vi Wall-E - gostei muito do roteiro, até daria pra ficar empatado. É bem capaz de Milk ganhar.

Roteiro Adaptado: O Leitor, apesar de considerar que O Curioso Caso de Benjamin Button também possua um roteiro genial. No entanto, Quem Quer Ser Um Milionário? deve levar esse.

Melhor longa de animação: Wall-E, disparado! O outro que vi foi Kung Fu Panda, bem legal, mas sem chance. E duvido que Bolt - Supercão vença. Wall-E deve ganhar.

Fotografia: Para mim Batman deveria levar. Dos concorrentes vi O Curioso Caso de Benjamin Button e O Leitor (este ficaria em terceiro lugar). Os comentários são grandes mais uma vez para Quem Quer Ser Um Milionário?

Montagem: Batman de novo. Dos demais vi apenas Milk e O Curioso Caso de Benjamin Button. Acho que Batman leva.

Maquiagem: O Curioso Caso de Benjamin Button. Muito melhor que Batman, apesar da fantasmagórica cara do Coringa. O outro concorrente é HellBoy - O Exército Dourado que eu não assisti. Pelo jeito, Benjamin Button leva.

Efeitos visuais: Homem de Ferro, e olha que Batman não fica muito atrás. Deve ficar com Homem de Ferro.

Trilha: Milk é muito bom. Para mim fica na frente de O Curioso Caso de Benjamin Button. Também gostei de Wall-E. Mas pelo jeito dos boatos quem deve levar é Quem Quer Ser Um Milionário? (nesa altura já estou arrependido de ainda não ter visto! aaaargh!!)

Montagem sonora: Fico com O Procurado. Mas é capaz de dar Batman.

Figurino: Milk de novo. Na minha opinião bem melhor que O Curioso Caso de Benjamin Button. Por aí falam muito de A Duquesa - capaz de levar.

Canção: "Down to Earth", de Wall-E. Demais! Mas tem um páreo duro, pois Quem Quer Ser Um Milionário? tem duas canções competindo.

É isso. Espero acertar mais do que tenho acertado ultimamente...

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Só na cervejinha



Acostumei navegar ou postar algo por aqui bebendo alguma coisa, assim como estou fazendo agora. Hoje não estou tomando vinho, como poderiam supor alguns que passam por aqui de vez em quando. Tem uma bela tulipa da Heineken na minha frente. Mas dentro dela o líquido é da Brahma. A garrafa que está dentro de um balde (de nenhuma marca) estava fechada com uma rolha - uma edição especial. Verão me lembra cerveja. Carnaval me lembra cerveja.

Ontem não via a hora de acabar o expediente e ir direto tomar umas! A noite estava muito propícia para beber e comer num lugar ao ar livre. Peguei a Pimmy e a Giulia e fomos direto ao Bar Stefanelli O Rei da Linguiça. Nem sei quantas garrafas de Skol tomamos (a Giulia não, claro, mas bem que ela brincou ao perguntar se tinha cerveja sem álcool!), só sei que saí de lá saciado e empapuçado. Tava bão demais!

Huuum... parece que hoje decidi fazer uma homenagem à cerveja. E olha que havia pensado em postar algo sobre o Oscar 2009 que vai rolar amanhã, sobre os filmes concorrentes que assisti e os que não assisti. E sobre o que o filme que assisti hoje com a Giulia. Gosto de ir ao cinema com a Giulia para ver os filmes que a idade dela permite (10 anos), isso nunca me incomodou, pelo contrário. Na verdade, até assistiria sozinho se não tivesse sua ótima companhia, pois gosto de filmes infantis, principalmente os de animação. No entanto, sempre que posso (e felizmente tenho conseguido!), evito os Xuxa's e Didi's da vida. Se a Giulia pudesse, teria levado ela pra ver outros que queria tanto ver e que estão concorrendo ao Oscar. Não apenas por curiosidade, mas por ter por quem torcer e ver se a premiação foi um pouco mais justa.

Hoje vimos Coraline e o Mundo Secreto. Gostamos muito. Ia comentar, mas não vai dar não, vai ficar para outro dia. Vou abrir outra garrafa da loira gelada e assistir Heroes.

Inté!

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

O Dia do Curinga





Já perdi a conta da quantidade de livros que tento retirar nas bibliotecas, mas que não consigo encontrar. A biblioteca do Sesc é a que mais frequento - e muito!. Nem por isso dou muita sorte quando procuro os livros de grande sucesso.

Foi assim com O Mundo de Sofia, de Jostein Gaarder. Mal ele retornava, saia nas mãos de algum felizardo - já que na epóca havia apenas uma ou duas edições. E com o tempo acabei esquecendo. Mês passado, enquanto devolvia um livro, me deparei com uma edição novinha dele e fiquei entusiasmado. Como o livro estava numa pilha do lado de dentro do balcão, solicitei ao atendente. Porém, ele afirmou que aquele volume ainda não estava catalogado. Orientou-me a pegar o volume mais antigo. Eu até duvidei que eu tivesse essa sorte. Mas quem disse que tive a coragem de levá-lo para casa? Não que estivesse num estado deplorável, mas depois que vi aquela coisinha cheirando tal qual um carro zero, com uma capa que brilhava de tão nova, não tive coragem de pegar o volume antigo. Este livro estava todo torto e com as folhas escurecidas de tão velho e de tanto manuseio. [E pensar que possuo livro em estado muito pior!].

Não teve jeito. Decidi tentar a sorte um outro dia. E foi aí que vi, sobre os livros da mesma estante, um outro livro que me chamou a atenção, e nem foi pelo fato de ser do mesmo autor daquele que pretendia pegar, e sim pelo título: O Dia do Curinga. Nunca tinha nem ouvido falar dele. Ou não me lembrava disso. Agora devo explicar o motivo de ter chamado minha atenção. Para isso, um flashback.

Adoro flashback. Em filmes então! Fico fascinado com esse recurso narrativo. Quando bem aproveitado, pode ser o maná do filme todo.

A caminho do Sesc, numa calçada próxima, observei que havia uma carta de baralho. Percebi que era a carta do Curinga, antes de quase pisar nela. Só não pisei porque bateu um vento no mesmo instante. E não o vi mais. Nem dei atenção ao fato naquele momento. Mas não tive como impedir de lembrar desse ocorrido diante do livro. Sinceramente, decidi levar o livro antes mesmo de folheá-lo. Procuro dar atenção aos sinais. Pode não ter representado nada, só sei que gostei muito desse meu primeiro contato com este fabuloso autor. E outra coisa que me impressionou: comecei a ler este livro em Santos, durante as férias. Tenho o costume de usar um marcador de páginas. O marcador que usei foi uma certa carta de baralho que encontrei jogada numa calçada, em Santos mesmo. Me senti tentado e a peguei. Adivinhe a carta do baralho. Exato - a do Curinga (!). Sinal. Sem mais comentários sobre isso...

Este livro foi meu primeiro contato com essa linha filosófica-ficcional. Muito interessante e fascinante. Tanto que O Dia do Curinga já está na minha lista dos melhores que li.

E para me deixar mais fascinado, a narrativa apresenta um flashback dentro de outro flashback no flashback. Confuso? Um pouco, talvez... Chega até dar um nó no cérebro se não prestar a devida atenção.

Já comentei um pouco deste livro aqui, em janeiro. É sobre um menino que cruza a Europa acompanhado do pai à procura da mulher que os deixou oito anos antes para encontrar a si mesma. Durante a viagem, Hans-Thomas, o menino, recebe um livrinho tão pequeno que era necessário usar uma lupa para poder ler. É esse livrinho que o conduz a uma viagem em busca do conhecimento, inclusive de si mesmo. Não somente o livrinho o conduz, os diversos diálogos com seu pai também. Até mais, pois ao longo da viagem em busca da mãe e esposa, vão filosofando sobre muitas coisas, questionamentos que nós fazemos, e que nos fazemos, principalmente. E durante esses diálogos, nem sempre muito profundos, a relação entre eles vai se definindo, melhorando, estreitando, e aos poucos vamos percebendo que se entrelaça, devido ao legado que é contado no tal livrinho.

Houve momentos durante a leitura que julguei que o livro foi escrito para o público infanto-juvenil, devido algumas passagens relacionadas ao amor, relação entre marido e mulher e também por ser um verdadeiro conto de fadas moderno, uma fábula genial. E se eu estou certo, então devo ter lido como seu fosse bem mais jovem, como um garoto afoito por uma boa história, por ter me cativado tanto.

Por outro lado, descarto um pouco essa minha observação pela semiótica apresentada. O autor, por meio dos seus personagens, nos mostra uma comparação das cartas de baralho com a vida, ora um jogo de azar, ora de sorte, e que muita coisa está nas mãos do destino e que nem sempre as variáveis desse "jogo da vida" são as interferências do ser humano, mas sim causadas por um Curinga. Um ser que possui a chave da verdade, um indivíduo que sutilmente nos mostra a razão de se optar por um determinado rumo, ou de um determinado sentimento mais profundo ou menos profundo, ou de uma emoção incompreensível. Mas onde se esconde esse Curinga que nós não vemos ou não queremos ver? Seremos nós mesmos?

Refletindo um pouco mais, compreendendo onde o autor quis chegar, quem carrega em si a angústia de ser apenas mais um nesse mundão, é capaz de perceber a diferença se aceitar a filosofia (conhecer a si mesmo; por que estamos aqui e para onde vamos; tentar compreender o motivo de certas coisas acontecerem e existirem), será capaz de deixar as futilidades de lado, essa superficialidade que o assola, esse conjunto de banalidade que o cerca.

Deixando a filosofia de lado, vale destacar o estilo de Jostein Gaarder: leve, divertido, agradável, instrutivo e um pouco introspectivo. A decisão de dividir o livro em 53 capítulos, um para cada carta do baralho, foi uma boa sacada - tanto quanto um certo calendário que tem no livrinho do garoto.

Apesar de alguns acontecimentos serem previsíveis, o livro é recheado de surpresas e emoção. Uma viagem. Mas não se empolgue: não é uma viagem para um mundo de sonhos. Depende de até onde seus olhos alcançam ou se você deixa a janela da alma aberta.



Márcio Luiz Soares

domingo, 15 de fevereiro de 2009

O Leitor ou A Vergonha






Ontem fui ver O Leitor, filme que muitos colegas cinéfilos estavam comentando antes de estrear. Quando vi o trailer também fiquei muito interessado. E não via a hora de ver alguma novidade do diretor Stephen Daldry e ver a interpretação de uma das atrizes que mais aprecio: Kate Winslet. Gostei do filme, não somente por ter uma boa história, mas, inclusive, por suas implicações éticas, como responsabilidade e dever de justiça - fazendo a gente analisar toda a trama durante e depois de assistir ao filme.

O longa começa na Alemanha, em plena pós-guerra. Michael Berg, interpretado por David Kross (bem convincente, por sinal) é um adolescente de 15 anos que se envolve com uma mulher mais velha, Hanna (Kate Winslet, fenomenal). Entre uma transa e outra, Berg lia alguns livros para ela, daí o título do filme. O romance dura apenas um verão, porém, deixou marcas profundas no garoto, que mesmo anos depois, já como aluno de Direito, ciente de uma outra realidade que ele desconhecia sobre o passado de Hanna, tem que enfrentar um dilema ético. Esse dilema lhe provocaria um sofrimento que o perseguiria por muitos e muitos anos. E esse sofrimento, de uma certa forma, envolve a culpa e a vergonha alemã pelos campos de concentração, pelo que a geração anterior tinha feito aos judeus.

Para amenizar sua própria culpa, diretamente ligada à sua amante de outrora, muitos anos mais tarde Berg, agora um advogado (interpretado por um Ralph Fiennes não muito convincente, numa interpretação meio forçada, e isso não é típico dele), decidiu gravar em fitas de áudio a leitura de alguns livros que tinha lido enquanto mantiveram o romance e enviar para ela na prisão.

O filme apresenta duas surpresas, e foi uma delas que motivou o personagem a gravar as fitas. A outra surpresa tem a ver com a prisão de Hanna. Essa prisão teria sido amenizada se ela tivesse revelado um segredo que, para ela, era mais terrível do que qualquer outra coisa.

Apesar da trama não ser previsível, é capaz de muitos espectadores entenderam logo no começo (como aconteceu comigo) o motivo dela pedir para que Berg leia os livros. Ela se emocionava tanto com essas leituras que chegava a chorar exasperadamente em algumas narrativas emocionadas do leitor.

Infelizmente, o diretor Daldry não conseguiu manter o mesmo ritmo até o fim (bem diferente de seus outros filmes, Billy Elliot - ótimo - e As Horas), apesar disso não comprometeu o filme, pois foi o tempo todo envolvente, conflitante e comovente. Talvez por isso mesmo o filme tenha perdido o ritmo quando os personagens estão mais velhos, por tentar ser mais comovente do que deveria, quase que tentando manipular o espectador. Nem por isso o filme deve ser descartado, pois é muito positivo em diversos questionamentos, como a responsabilidade que se divide entre a individual e a coletiva, como ficou bem contundente numa cena entre Berg e uma sobrevivente de um campo de concentração (Lena Olin, numa interpretação interessante), agora uma rica escritora mostrando como uma simples latinha de guardar chá pode significar mais para uma pessoa que qualquer quantia em dinheiro.

Kate Winslet está brilhante, demonstrando possuir muita técnica corporal soube muito bem construir sua personagem: bruta, arrogante, e ao mesmo tempo sensível, deixando claro ter apanhado muito na vida. Merece um Oscar pela atuação. A única coisa de que não gostei no filme foi o processo de envelhecimento da personagem, ficou péssimo, amadorístico. Um filme desse porte, com este tipo de produção, deveria ter tomado mais cuidado.

Enfim, o filme é bom, no meu ponto de vista. Uma bela história de amor, recheado de questionamentos morais e sem se tornar um dramalhão, sem arrancar lágrimas dos espectadores. Se assistir ao filme, observe numa pergunta feita por Hanna a um juiz. Não exatamente na pergunta, mas na falta de resposta para ela, no silêncio. Nesse ponto o diretor, ou o roteirista, ou o autor do livro cujo filme foi baseado, sei lá, foi genial. Outra coisa interessante também, é notar que o filme poderia ter outro nome. O Leitor é um título ótimo e tem tudo a ver com a narrativa, mas também poderia se chamar A Vergonha.


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