sábado, 30 de março de 2013
domingo, 24 de março de 2013
Parte da trilha
Eu soube que nos tornaríamos um só imediatamente
À primeira vista, eu senti essa
energia dos raios de sol
Eu vi a vida dentro de seus
olhos
***
Diamonds, com a Rihanna. Uma bela canção para ser ouvida
(e cantada) com sentimento. Difícil não se emocionar.
Não deixe de ver essa ótima versão cheia de sentimento.
Veja esse outro clipe bem legal, de uma versão bem feitinha. Outra versão bem interessante,
você curte clicando aqui.
E aqui você vê a letra e a
tradução.
quinta-feira, 21 de março de 2013
O repouso do guerreiro
“Quase tenho medo dele: não
pensará em me perder? Para onde me arrasto? Eis que meu cérebro começa a
abrigar noções irracionais de pecado, de queda, de vício, de perdição.”
Christiane
Rochefort, in O repouso do guerreiro.
Recentemente, ao rever os
livros da minha biblioteca, numa pequena arrumação insólita e praticamente
improdutiva (improdutiva de tanto que eu mesmo me interrompia para ficar
“namorando” os livros lidos e não lidos). E ao me deparar com O Repouso do Guerreiro, de Christiane Rochefortei, fui levado a
fazer uma comparação: esta
admirável escritora é, para mim, quase que a Clarice Lispector da França. Esse
"quase" não permite que exista outra Clarice Lispector. Claro. Ela é
única.
Este ótimo romance conta a
história de Geneviève, uma jovem parisiense, estudante de psicologia muito
educada e elegante, que se apaixona perdidamente por Renaud. E é essa paixão
que a faz viver uma grande desilusão.
Renaud é um ex-soldado que
perdeu a esperança após o bombardeio de Hiroshima e que dez anos mais tarde
tenta se matar em um hotel de uma pequena cidade. Geneviève o encontra
acidentalmente, salva sua vida, e torna-se sua amante. E com ele tem seus
primeiros orgasmos.
Mas nem tudo é bonito e
prazeroso nesse relacionamento: Renaud é uma pessoa muito atormentada,
exigente, desprezível e rejeita o mundo como um todo. Além de ser violento e
impedir Geneviève de rever amigos e a família. Ele acredita que Geneviève é
guiada principalmente pelo apetite sexual e quer forçá-la a admitir. E isso faz
com que se refugiem em delírios, mas é nessa devassidão que um se anula diante
do outro.
A história é centrada na
relação ambígua dos dois personagens principais. Não podemos deixar de
perguntar por que Geneviève se agarra tão teimosamente a um personagem tão
desprezível que inadvertidamente recusa o amor que recebe dela e que ainda
insiste em afirmar que ela confunde o desejo sexual com amor sincero justamente
por estarem intimamente ligados. O que nos leva a pensar no que exatamente ele
teme. Ser pego em uma rotina? Teme ser pertencido a alguém? Tornar-se um
hipócrita? No entanto, seja o que for que o impede de se entregar ou de deixar
a jovem viver serenamente (sozinha, claro), fica evidente que sua própria
arrogância não o impede de se odiar, sendo que é isso mesmo que o desconforta.
E pra piorar faz questão de levar sua amante com ele em sua podridão
desmesurada.
No decorrer da narrativa o que
vemos, e o que nos revolta, é a decadência de uma mulher que faz tudo por amor
e o quanto é fortemente afetada pela sua relação emocional e sexual, se
afastando do seu mundo, correto e muito seguro, para embarcar numa submissão
que aparentemente não terá fim. Tudo nos leva a imaginar que ela vai aceitar o
pior e chegar ao fundo do abismo físico e moral.
Até que ponto uma mulher pode
se perder em nome de uma paixão? E, afinal, qual é a tênue divisão entre moral,
obsessão, decadência moral, dignidade, submissão e prazer? Aquela doce loucura
deliciosa de se viver é sempre fascinante e intrigante, mas qual é o limite?
O título e os acontecimentos
desse ótimo romance, que exalta a redenção, de forma alguma chega a enganar os
leitores: a mulher é, sem dúvida alguma, o perfeito descanso do guerreiro.
A recíproca não é verdadeira.
Márcio Luiz Soares
*
Confira um trecho do livro
aqui.
* * *
Imagem: frame do filme francês
homônimo. O romance foi adaptado para o cinema em 1962, com direção de Roger
Vadim e com a participação de Brigitthe Bardot no papel principal.
segunda-feira, 11 de março de 2013
Lado sombrio
Todo mundo tem seus segredos e todos
têm um lado dentro de si que protegem a todo custo. É instintivo.
Por mais bem certinha que uma
pessoa demonstra ser, ela tem algo a esconder, mesmo que seja aquele segredinho
que nem é nada demais, nada que a desabone, mas que ela prefere que fique
enterrado dentro de si. Pode ser um pensamento nefasto, ou um desejo reprimido,
ou uma fantasia sexual que sabe que nunca vai se realizar. Acho que, no fundo,
no fundo, todos nós temos uma natureza pecaminosa ou egoísta. Nenhum de nós
está livre de pecados e pensamentos obscuros. Nós nascemos assim. A diferença
está em como cada indivíduo consegue se controlar. Muitos não conseguem. Muitos
nem tentam. Outros nem têm noção do que é ou não sombrio.
Eu tenho um lado sombrio, não
nego e não me importo em admitir. Até onde isso me prejudica? Até agora, em
nada. Nunca me prejudicou. Nunca prejudicou ninguém.
E pra piorar o que você está
pensando de mim nesse momento, saiba que eu gosto de alimentar esse meu lado
sombrio. E tudo se resume ao fato de que, alimentando-o, consigo superar coisas
excessivamente emotivas que me tornariam melancólico demais. Principalmente
quando as minhas válvulas de escape não funcionam.
Enfim, na minha humilde
opinião, todo mundo tem um esqueleto escondido no armário. Alguns esqueletos
contam uma boa história ao sair.
Outros nem tanto.
Márcio Luiz Soares
***
No clipe, uma das minhas músicas
preferidas da Kelly Clarkson, Dark Side.
O que se vê nas imagens do clipe não condiz tão incisivamente com a letra dessa bela canção. Infelizmente. Mas tá valendo.
Aqui você acessa a letra original e com tudo que tem direito - aproveita e clica no play lá também.
sábado, 23 de fevereiro de 2013
Adam and dog
O brilhante curta-metragem Adam
e Dog é uma verdadeira obra-prima da animação. Nele, tudo parece ter mais
coração do que muitos filmes que eu vi ultimamente. É uma experiência artística
cinematográfica que não deve ser desperdiçada.
Adão criou o vínculo homem/cão
em primeiro lugar? Vai saber. De qualquer forma, este filme procura mostrar
claramente que ambas as espécies, desde os primórdios da humanidade, tinham
algo a oferecer um ao outro: a amizade.
Eis mais um ótimo curta criado
especialmente para comover e emocionar e cheio de sacadas sutis. Nem uma
palavra é dita nessa trama inteligente, a menos que você considere os latidos
do animal. O silêncio ajuda a criar a serenidade do mundo edênico do filme, e
tudo é contado sem esforço por meio de atos, gestos e expressões faciais. Assim
que o cão se depara com Adam, ou Adão, a gente percebe que está se contando uma
versão da história do primeiro cão do mundo e seu relacionamento no
Jardim do Éden e, no fim, fica claro por que os cães são tão especiais para a
humanidade. Mas a melhor sacada é a expulsão do Jardim do Éden e o quanto o cão
é fiel nesse momento.
Contar boas histórias é uma
arte extremamente sutil. Mesmo com a palavra escrita não é tão simples quanto
se pensa. Contar boas histórias é muito mais que descrever situações e passar
informações precisas. O narrador deve decidir, além de qual será a melhor forma
de estabelecer detalhes sobre os personagens, como criar tensão narrativa e continuar
contando a história sem se perder, sem deixar a peteca cair. E esse curta é
assim, de forma bem eficiente cria um mundo e estabelece o amor entre dois
personagens, em menos de 15 minutos, num ritmo absolutamente sem pressa e nem
por isso a gente perde o interesse, e nem imagina o que, afinal, vai acontecer. Nem mesmo que pode se surpreender. E se caso acertar o final, vai gostar muito mais.
Os curtas-metragens são
impressionantes, pois permitem aos seus produtores e cineastas a oportunidade
de ser diferentes e experimentais, sem o custo de um filme de longa-metragem e
garantindo um bom entretenimento e diversão a nós, meros espectadores. E o
espectador que se desarmar de certos conceitos ou de preconceitos vai sentir o
quanto esse curta é deslumbrante e poderoso.
Márcio Luiz Soares
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Perdição
Deixe-me
sofrer se você quiser
pode
me deixar
despertado
do sono.
Vallejo
Provido de seu alimento
intelectual, atira-se à cama. Ei-lo ao abrigo. Sua vida limita-se a ações
simples: dormir, comer, beber, fumar, fazer amor. Sua assiduidade para comigo,
se bem que tome grande parte do dia e da noite, restringe-se a meu corpo. O que
sabe de mim, é aquilo que consegui encaixar na conversação, eventualmente; logo
que falo de mim, que quero exprimir uma ideia, tenho a impressão de nadar no
seco. Possuo apenas a existência material. Não ouve o que digo, olha-me; é uma
impressão bastante curiosa, como se eu existisse ao lado de mim. Encolhido em
sua liteira, observa-me, e, sem levar em conta hora e circunstância, quando
passo ao seu alcance, agarra-me, mesmo se estou passando o aspirador ou se
tenho nas mãos os quatro cinzeiros. Foi assim que quebrei o quinto.
Em silêncio, puxa-me para a
grande cama que é o seu domínio, o lugar onde dispõe de suas forças como Anteu
e a terra. Ele, tão frágil em pé, que não se pode manter erguido e dir-se-ia
arrastar-se de uma estação à outra, revive uma vez deitado. Essa cama! Mundo
completo, fechado, segregado de tudo, tem sua vida, sua paisagem de cinzeiros e
livros negros; seu próprio sol: a lâmpada que Renaud conserva acesa mesmo
durante o dia, como se não soubesse que existe a claridade diurna; sua fauna: o
grande animal que mora encolhido, e o pequeno que gravita em redor e se deixa
cair na armadilha, vítima continuamente devorada e complacente.
Com um vigor que raia pelo
sistema, pela tática militar, como uma máquina de guerra, abate, uma a uma,
minhas defesas solidamente dispostas. Se distingue um receio em meus olhos, um
arremedo de fuga, uma crispação, é por aí que ele vai, é por aí que desfecha o
ataque, e luta até minha rendição; a rendição, essa tem que ser total. Nada o
incita mais que um trêmulo "não"; um não nada mais é que algo que
deve ser transformado em sim. Meu Deus! será possível que haja tantos nãos no
corpo de uma mulher? Como eu fazia disso uma ideia limitada! "Mocinha de
princípios, vem cá." Um princípio deve ser cercado. Pudor, para ele, significa:
qualquer coisa lá por baixo. Se resisto demasiado, renuncia com uma indiferença
desdenhosa, mais dolorosa que o mais doloroso de seus empreendimentos, e
mergulha na leitura de Peter Cheney. Perdida, despedida por impotência,
envergonhada, será preciso que eu dê o primeiro passo e ofereça aquilo que
negava. Pouco a pouco, desmantelada, avanço pelo país desconhecido de meu
corpo, e avalio, para meu espanto, como eu vivia longe de mim mesma. Mas o quê,
podia desconhecer-me a tal ponto? Tudo jazia ali, aquilo que Renaud, quase à
força desaloja, teria eu deixado dormir a vida inteira? Essa reflexão me
confunde, não sei concluí-la, leva-me à beira de um abismo, penso em Claude, em
Pierre, na maioria das pessoas que conheço e que são como eu, ou melhor, como
fui: será possível que todo mundo, essas pessoas empertigadas que não gostam de
falar "dessas coisas", que lhe dão as costas, vigilantes em
defenderem-se delas, e que, de resto, a elas se entregam facilmente - como eu
chegava até ali, sem luta, através de um sistema de viseiras, uma modalidade de
esquecimento -, que será possível que essas pessoas passem ao largo de si
mesmas, viviam serenamente nessa letargia dos sentidos de onde, dificilmente,
sob a férula de uma chantagem amorosa, saio como de um longo sono? Isso dá uma
estranha medida do uso que fazemos de nós.
Ainda estou longe de ser
completa; o essencial me escapa. Incomodam-se as próprias atenções de Renaud,
analiso-me demais, perco-me na procura, envergonham-me seus esforços
infrutíferos sob seus olhos sempre abertos, tenho medo de desgostá-los com
minha inaptidão para o prazer, eu que outrora - outrora: ontem - enfadava-me
com o prazer. Mas Renaud parece dispor de uma paciência infinita; esse monstro
de egoísmo, que não se preocupa com amar, é o mais generoso dos amantes, no
amor nunca pensa em si mesmo, e, para cúmulo, reserva seu próprio prazer para
quando já estão esgotados os que pode me proporcionar. Se não ama, muito menos
se ama é preciso fazer-lhe justiça. E esse aprendizado pelo qual ele me faz
passar não é para seu deleite, mas para meu governo: não são lições de erotismo
que me dá, mas uma única lição; se amas, ao menos sê capaz dos atos do amor, ou
então, cala-te. Então, uma espécie de honra convida-me a me abandonar sempre e
cada vez mais.
Honra: honra que ontem eu teria
chamado precisamente desonra. Tudo vacila, onde estão os valores? O amor se
resolveu, fez deles um caos; não sei se decaio ou se me formo, não tenho mais
moral, não estará justamente aí armadilha de que se fala, essa demência com a qual,
segundo se diz, o amor costuma cegar, não estarão aí os extravios dos sentidos?
Ora tenho vergonha do que era, ora do que passo a ser: não sou uma escrava? Ou
serei uma verdadeira mulher? Quando estou presa à contemplação dos lábios de
Renaud, possuída de desejos inconfessáveis que ele imediatamente percebe, ou,
se a um sinal dele, dispo-me e me exponho às suas exigências, ou se ouço as
queixas que ele não me permite abafar - será isso sensualidade natural, ou
serão aberrações perversas, enfim, serei ainda normal, ou já estarei viciada?
Esse prazer, ao mesmo tempo demasiado forte e parcial, o único ao qual ainda
aquiesço, entorpece-me e obceca. A necessidade apodera-se de mim tão
violentamente, em meio a ocupações tão pouco propícias, que cuido descobrir o
velho sentido da tentação: de fato mais forte que a gente. Renaud me vê, minha
face em fogo, pronta a passar por onde ele quiser, ele sorri, e esse sorriso
não merece outra qualificação a não ser a de diabólico. Quase tenho medo dele:
não pensará em me perder? Para onde me arrasta? Eis que meu cérebro começa a
abrigar noções irracionais de pecado, de queda, de vício, de perdição.
Quando deixo essa cama, esse
mundo sem tempo, onde o dia e a noite se entrelaçam e onde nenhuma ordem,
nenhum indício, nenhum apoio aparecem, verdadeiramente é de outro planeta que
venho, e não mais reconheço este aqui.
Não me lembro de nada. Viro-me,
os braços inertes - onde estava eu? Esse homem quebrou o tempo, dele fez uma
grande noite uniforme, interrompido apenas pelos chamados que vêm de fora: é
minha mãe, é Pierre, é Claude que se inquietam, e ouço-lhes as vozes ao longe,
como quando estive muito doente: do fundo da indiferença fisiológica é que os
rumores da vida mais atingem. É verdade, estou doente, desfiz-me do tempo,
enveredei pelo sombrio reino de Renaud, que morreu. Vivo com um morto que me
aspira a seu lado.
Após essas viagens necessito de
horas, ou talvez dias, não sei, para me refazer. Eu que, quando bandeirante era
chamada "Abelha Laboriosa"! Acontece que, saindo para o almoço,
deparo-me com a noite lá fora, dir-se-ia que Renaud lança um sortilégio sobre
os relógios: desmantelam-se, um após outro. E, certa manhã, vendo minha árvore
sem folhas, dou-me conta de que, também eu, esqueci meu jardim. Começa a trabalhar-me
o medo de haver perdido a matrícula, e de quase ter perdido o mundo; é como se
eu estivesse num convento. Claude me escreve: julga-me doente. Minha mãe,
ultrajada, manifesta sua existência por meio de um silêncio total dos mais
opressivos. Por fim, Pierre agarra o inimigo de frente, interroga: "Não me
esconda a verdade, peço-lhe" - diz-me, certa noite, ao telefone. "Já
compreendi que se passa alguma coisa." Respondo que sim, num suspiro.
"Algo grave?" Sim... Não era nada fácil explicar ao telefone, com
Renaud ali. "É preciso que me diga imediatamente. "Escute, quer me
encontrar amanhã?" "Você acha que, agora, vou deixar passar mesmo que
seja uma noite? Venha imediatamente." Vi, afinal, com um pouco de clareza,
o que estava fazendo, e concordei com um encontro em Duroc, de onde ele me
telefonava.
- Tenho que sair por um
momento.
Renaud, que, entretanto, ouvira
o bastante para compreender, emite um grunhido indiferente: com ele, gozo de
minha plena liberdade. Se anunciasse: tenho que ir encontrar-me com um novo
amante, ele não teria outra reação. Está lendo Hadley Chase. Pergunto-me se o
devo beijar antes de deixá-lo.
- Até logo, Renaud...
Ergue o grande nariz, faz um
aceno e volta a abismar-se. Como se eu fosse buscar o jornal.
*
Extráido do livro O Repouso do
Guerreiro, de Christiane Rochefort.
***
Ilustração: Café (1949). Quadro de Leonard Tsuguharu
Foujita (Japanese, 1886-1962).
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
Curta o curta
Usando um estilo preto-e-branco
minimalista, um brilhante curta-metragem conta a história de um jovem solitário no início dos anos
1950 em Nova York, cujo destino toma um rumo inesperado depois de um encontro
casual com uma bela mulher numa estação de trem.
Convencido de que a garota de
seus sonhos se foi para sempre, ele recebe uma segunda chance. Com apenas a sua
força de vontade, um pouco de imaginação e uma grande pilha de papéis para
conseguir a atenção da garota, seus esforços não são páreos para o que o
destino tem reservado para ele.
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