domingo, 31 de janeiro de 2010

O Leitor, mais uma vez





Dei um tempo na leitura da série A Torre Negra, de Stephen King, e levei pra Santos dois livros para ler sentado numa cadeira de praia, sob um guarda-sol e me refrescando com alguma bebida. Imagine se a preferência não era a marvada da cerveja! Os escolhidos foram O Leitor, de Bernhard Schlink, e Se eu fechar os olhos agora, de Edney Silvestre. Hoje vou comentar sobre o magnífico livro O Leitor, que teve uma adaptação esplêndida nos cinemas. Inclusive, já comentei o filme por aqui.

É o primeiro livro que leio do autor e fiquei impressionado com a leveza que narrou os acontecimentos que envolvem Michael Berg e Hanna Schmitz, tendo como pano de fundo nas partes finais, uma ótima, irônica e original abordagem do Holocausto, sobre um ângulo bem diferente da qual estamos acostumados a encontrar na literatura e nos filmes.

No início da trama, Michael, então com quinze anos, conhece Hanna, cerca de vinte anos mais velha e tem com ela uma delicada relação amorosa. O diferencial existente neste relacionamento não são os encontros furtivos, ou uma viagem escondida, nem a intensa relação sexual, mas o fato de ele ter lido em voz alta diversos livros para a amante, compartilhando suas preferências e fortalecendo ainda mais seus sentimentos. Enquanto Hanna ganhava conhecimento e experiência que a ajudariam a tomar decisões importantes na sua vida.

Pode parecer mais uma historinha sobre um casinho de um adolescente com uma mulher madura, mas logo a gente descobre que por mais banal que possa ser um relacionamento nesta idade, ou nesta situação, de uma forma ou de outra pode moldar ou interferir na personalidade de uma pessoa. Podendo torná-la mais rígida nas questões do amor, ou mais fria ou até o contrário, mais amorosa e dedicada aos seus amores. No caso de Michael, após acompanhá-lo em suas cumplicidades, em suas novas descobertas emocionais e na sua nova maneira de ver o mundo, entendemos o motivo de ter se transformado num adulto silenciosamente atormentado, não se importando em se distanciar de seus sentimentos.

Mesmo já conhecendo a história, devido ao filme, senti uma enorme satisfação a cada parágrafo, a cada agudeza de sentimentos, a cada crítica social colocada sutilmente ou não pelo autor e nas constantes reflexões em que ele obriga o mais atento leitor a fazer. Seria justo para o próprio indivíduo omitir um fato que poderia livrá-lo de uma condenação, simplesmente por vergonha? Como justificar um ato tão prejudicial, apenas para esconder um segredo que, apesar de ser terrível para este indivíduo, é insignificante aos outros e que, ao ser revelado, poderia mudar o rumo de sua vida? E que direito teríamos nós em revelar este segredo no lugar deste indivíduo, mesmo que com a intenção de salvá-lo de uma injustiça?

Por diversas vezes, ao final de vários capítulos, me vi parando a leitura, mergulhado em reflexões instigantes, para ponderar sobre as atitudes do ser humano; sobre o rumo que cada um escolhe ou se obriga a seguir, como também na responsabilidade das nossas ações, seguindo ou não as normas estabelecidas pela sociedade ou as nossas próprias regras, assim como moralidade, ética e princípios; e sobre o nosso papel neste mundo e a possibilidade de deixarmos um legado, direta ou indiretamente.

Aproveito a oportunidade para me corrigir de uma injustiça cometida no meu comentário sobre o filme. Lá critiquei a interpretação de Ralph Fiennes como pouco convincente e forçada. Agora, conhecendo melhor o personagem que ele interpretou, percebo o quanto me enganei. Não deu um show de interpretação, mas traduziu perfeitamente o caráter e personalidade de Michael Berg quando adulto de acordo com a narrativa do livro. Se eu tivesse lido o romance antes, bateria palmas para sua interpretação. Isso mostra o quanto devo me aprofundar mais nas leituras sobre os personagens dos filmes que assisto.

Ter saboreado o livro aumentou minha fome de querer rever o filme e fazer aquelas inevitáveis comparações, o que aumentaria ainda mais o prazer de apreciar uma história tão bem contada. Se não viu o filme, encontrará um final surpreendentemente imprevisível. Faço aqui um pedido: mesmo que prefira apenas assistir ao filme, se já não o fez, dê um jeito de ler este livro que, além de excelente, possui uma narração gostosa, envolvente e enxuta, de capítulos curtos e linguagem clara. Vai ser difícil não se emocionar.

Quando terminei de ler, estava na praia, diante do mar, presenciando um lindo crepúsculo, sentindo minúsculas gotas de chuva refrescando minha pele e imaginando o quanto a literatura pode tornar a vida mais feliz.


Márcio Luiz Soares

3 comentários:

Armando Maynard disse...

Caro Márcio, para quem possui SKY ou Net, a título de informação, o filme "O Leitor", será exibido no próximo Sábado, dia 6/2, às 22h00 hs., no Telecine Premium. Agora você me deixou com vontade de além de assistir ao filme lê o livro. Um abraço, Armando.

Rosangela O Araujo disse...

Agradeço a indicação do filme e, também, a lembrança do Armando pelo fato do mesmo estar passando no Telecine. Obrigada a ambos. Quanto a ler o livro, já inclui na listinha de “coisas a fazer”.
O filme é lindo! Uma relação dotada de certo encantamento mútuo, ora sexual, ora dotado de conhecimento, quando no momento reservado para as leituras. Agora, o que mais me tocou, foi ver o sofrimento de Michael por ocasião do julgamento, tentando entender a situação daquela mulher pela qual nutria um amor, um sentimento de dependência, etc. Sem julgá-la. Apenas tentando entender e o mais importante, “respeitando-a”, ou seja, seus motivos, seus segredos... Sofrendo sem se sentir no direito de interferir. Muito raro hoje em dia... Na maioria das vezes, o que mais vemos são as pessoas julgando, condenando sem ao menos “tentar” entender os motivos, conhecer um pouco mais da situação. Quantas e quantas vezes temos conhecimento de algo, mas que por comodismo ou não, nos colocamos numa postura de “deixa pra lá” e, com isso, muitos se prejudicam com o nosso silêncio, por serem pessoas simples, ignorantes, etc... Certo? Errado? Quem é que sabe... Talvez o silêncio de Hanna não tenha sido só por “vergonha”, quem sabe também tenha sido uma auto-punição?
Agora, mudando de assunto: você nos deixou morrendo de inveja com esse seu encerramento, heim!
“... Quando terminei de ler, estava na praia, diante do mar, presenciando um lindo crepúsculo, sentindo minúsculas gotas de chuva refrescando minha pele e imaginando o quanto a literatura pode tornar a vida mais feliz...” Que inveja!!! Beijos, Rô.

Marcello disse...

eu já tinha gostado da sua postagem sobre o filme, me dando mais vontade de assistir. agora, com esse post, não vejo a hora de ler o livro e absorver as mesmas coisas q vc, refletir sobre as mesmas questões etc. q bom q temos vc pra indicar coisas de qualidade de uma maneira magistral. impossível não ficar com água na boca. abraços.