sábado, 29 de novembro de 2008

A Morte conta uma história





Gosto muito de ler. Sou apaixonado por livros, entretanto considero que perdi muito tempo não lendo os livros que já deveria ter lido, como diversos clássicos da literatura internacional. Ou seja, acho que li pouco. Mesmo concordando que leio mais que a média nacional. Apesar da paixão pelos livros, apesar da minha idade, apesar do meu grande interesse por esse universo fantasticamente mágico e inebriante, considero que li muito pouco. Existem diversos autores muito interessantes que o mundo todo já leu e eu não, ou que li poucos títulos – portanto a minha lista “os livros que quero ler” é extensa. Muito, muito extensa. Aos poucos vou dando conta. Não comecei tarde, apenas dividi demais os meus afazeres e, durante determinadas épocas, prejudiquei o meu espaço para leitura de livros. Mesmo não tendo lido a quantidade de livros que gostaria, considero ter feito as escolhas certas, ou simplesmente dei sorte. Gosto principalmente dos livros que apresentam uma narrativa poética. Por isso acertei mais uma vez, pois A menina que roubava livros possui essa narrativa - extremamente inteligente, devo salientar. Não é sempre que encontro textos assim, ainda mais quando é de uma poética tão bem-humorada, com pinceladas sarcásticas muito bem colocadas (nem sempre sutis) e tão refinada. Reverências ao escritor australiano Markus Zusak.

Zusak conseguiu juntar revolta, tristeza, alegria, desejo, dor, enfim muita emoção, de uma maneira poética, sem abstracionismo exarcebado, sem jocosidade e, o que é muito melhor, sem ser piegas. Ao longo da leitura nos vemos jogados nesse misto de emoção, ora nos revoltamos, ora ficamos apreensivos, ora nos alegramos e nos divertimos. Exatamente como é o nosso mundo, como sempre nos acontece, mas com um detalhe: nas nossas vidas falta a poesia. Somente quando a narramos com todos os nossos sentimentos aflorados, aí sim a acrescentamos – mesmo quem não tem o domínio literário. Até pode fazer parte da nossa vida real, numa contemplação da natureza, num momento de introspecção, numa declaração de amor e paixão, mas não a percebemos facilmente. E nem precisa. Basta ela influenciar o momento. Como influencia no livro.

Antes de terminar a leitura do livro, eu relia incansavelmente diversos capítulos. Não foi por não ter entendido. Relia para voltar a saborear as palavras, as entrelinhas, as contexturas, os comentários, irônicos ou não, habilmente intercalados. Aliás, essa tarefa de comentar coube a narradora da história: a Morte. É ela que retrata as dores e perdas causadas pelo nazismo durante a Segunda Guerra Mundial (reclamando de todo o trabalho que teve nesse período da história), assim como a importância de sua existência, tentando entender a natureza humana, e é por meio dela que o leitor é levado a se emocionar ao lado da personagem Liesel Meminger (por quem a Morte é totalmente fascinada), diante de seus anseios, angústias, misérias, tristezas, alegrias e aventuras.

Liesel é levada a ter uma vida que não desejava após a morte do seu irmão. E foi justamente durante o enterro dele que ela se depara diante da oportunidade de roubar um livro. Obrigada a morar com pais adotivos são nos livros furtados que ela encontra as palavras que a guiam - não servem apenas de distração, provocam um vislumbre de esperança de uma vida melhor. Outras coisas também a guiariam e marcariam sua vida, como a amizade de Rudy, seu amigo de aventuras, o afeto pelo seu pai adotivo, Hans, e a compaixão e ternura com Max, um fugitivo judeu. Com todos eles a acompanhamos nas cores da sua vida, nas descobertas de caráter e de personalidade, permeados por sentimentos nobres que a cumplicidade mútua é capaz de provocar. A menina Liesel era cúmplice de cada um deles, na dor, na alegria, na esperança, na luta pela sobrevivência, no refúgio de si mesmos.

Encontrei nesse livro audacioso, uma história ao mesmo tempo triste e divertida, envolvente, surpreendente, repleta de metáforas e simbolismos, tendo como grande sacada o fato de ser contada pela Morte. [Em setembro, postei aqui um capítulo do livro, intitulado Diário da Morte - recomendo uma espiada.] Numa versão em que a Morte tem coração, se sensibiliza, capaz de sentir ternura e carinho pelas vítimas da destruição e da crueldade humana, fica revoltada e indignada com os extremos do ser humano e, apesar de tudo, ela nos fornece uma definição da grandiosidade dele.

Gostei do estilo do autor, não somente pela prosa poética, mas também pela proeza narrativa em uni-la linguisticamente nas entrelinhas permeadas de humor, emoção, tomando o cuidado de não colocar o mistério em primeiro plano – uma inovação, tendo em vista que a enorme maioria dos escritores mantém o suspense até o último capítulo. O suspense existe no livro, não da forma que estamos acostumados, na busca da decifração de um enigma encontrada somente no final, e sim por estar inserido num contexto mais profundo, numa narração que encanta e surpreende o tempo todo, incitando-nos a seguir em frente, não apenas por curiosidade simplesmente, mas por necessidade de querer acompanhar a Liesel. Dessa forma o leitor tem a chance de valorizar a narração, reconhecer sua riqueza e atingir um nível de satisfação incondicional durante a leitura.

Quando terminei de ler o livro, cheguei a diversas conclusões. A principal foi justamente a mais óbvia: a vida, apesar de tudo, vale a pena.


Márcio Luiz Soares

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Foto: by Márcio Luiz Soares (arquivo pessoal)

4 comentários:

Marcello disse...

cara, se vc leu pouco, imagine eu??!!???!!???? hahahaha foi bom vc postar de novo sobre esse livro (aliás q comentário! muito bom!), me fez lembrar q vc ainda não me emprestou!! hahahahaha abs

Ana Luisa disse...

Pelo que vejo você é um grande leitor, de pouscos livros, pode até ser, mas de qualidade, isso é inegável!!
Depois que postou aquele texto do mesmolivro, corri pra ler o livro. Li agora nas férias e que emoção senti quando li o que escreveu nesta postagem. Refletindo agora percebo o quanto valorizei a narrativa, o quanto ela é rica e realmente fiquei muito satisfeita co o livro todo! Exatamente como você postou. Realmente, esse autor é magnífico!
Concordo também quando você mencionou que o livro faz a gente dar mais valor a pequenas coisas, e que tudo na vida vale a pena. A gente tem que aprender a dar mais valor mesmo, a reconhecer as pequenas coisas que nos fazem felizes, que não é preciso muito dinhiro ou ter muitos amigos, basta uma certa estabilidade e o reconhecimento da família e de amigos certos e sinceros.
Beijos

Sérgio disse...

Márcio, esse livro deve ser fantástico! Acho que já comentei aqui ou com alguém (depois que li o trecho que vc postou outro dia): esse filme daria um ótimo filme ou minissérie!
Achei seu comentário muito rico, parabéns.
Abraços

Mayara.. disse...

Realmente, o livro é maravilhoso.
Quanto ao que acabo de ler, incrívelmente explendido..!
Você escreve muito bem.