terça-feira, 16 de setembro de 2008

Diário da Morte




DIÁRIO DA MORTE: 1942


Foi um ano para ficar na história, como 79 ou 1346, para citar apenas alguns. Esqueça a foice, diabos, eu precisava era de uma vassoura ou um rodo. E precisava de umas férias.

- UMA VERDADEZINHA -
Eu não carrego gadanha nem foice.
Só uso um manto preto com capuz quando faz frio.
E não tenho aquelas feições de caveira que vocês
parecem gostar de me atribuir à distância.
Quer saber a minha verdadeira aparência?
Eu ajudo. Procure um espelho enquanto eu continuo.

Na verdade, sinto-me muito complacente comigo mesma neste momento, a lhe contar tudo a respeito de mim, mim, mim. Minhas viagens, o que eu vi em '42. Por outro lado, você é um ser humano - deve entender dessa obsessão consigo mesmo. A questão é que há uma razão para eu explicar o que vi naquela época. Muito daquilo teria repercussões para Liesel Maminger. Fez a guerra chegar mais perto da Rua Himmel, e me arrastou de carona.

Certamente houve muitas rondas a fazer naquele ano, da Polônia à Rússia à África, ida e volta. Talvez você argumente que eu faço a ronda em qualquer ano, mas às vezes a raça humana gosta de acelerar um pouquinho as coisas. Aumenta a produção de corpos e das almas que escapam. Umas tantas bombas costumam resolver a questão. Ou umas câmaras de gás, ou a conversinha de canhões distantes. Quando nada disso conclui os procedimentos, pelo menos despoja as pessoas de seus meios de subsistência, e passo a ver gente sem teto por toda parte. É comum eles virem atrás de mim quando vago pelas ruas das cidades violentadas. Imploram que eu os leve, sem perceber que já estou atarefada demais. "A sua hora chegará", eu os convenço, e procuro não olhar para trás. Vez por outra, gostaria de dizer algo como "Não vê que já estou com as mãos cheias?", mas nunca o faço. Reclamo internacionalmente enquanto vou fazendo meu trabalho, e há anos em que as almas e os corpos não se somam, multiplicam-se.

- CHAMADA ABREVIADA DE 1942 -
1. Os judeus desesperados - seus espíritos no meu colo,
ao nos sentarmos no telhado, junto às chaminés fumegantes.
2. Os soldados russos - que só carregam pequenas quantidades
de munição, contando com os tombados para arranjar o resto.
3. Os corpos encharcados de um litoral francês
- encalhados nos seixos e na areia.


* * *
Eu poderia prosseguir, mas resolvi que, por ora, esses três exemplos bastam. Três exemplos, que mais não seja, deixarão em sua boca o gosto de cinza que definiu minha existência durante aquele ano.

Muitos seres humanos.
Muitas cores.

São disparadores dentro de mim. Torturam minha memória. Vejo-os em suas pilhas altas, todos trepados uns por cima dos outros. O ar parece feito de plástico, um horizonte como cola poente. Existem céus fabricados pelas pessoas, perfurados e vazantes, e há nuvens macias, cor de carvão, que pulsam como corações negros.
E depois.
Vem a morte.
Abrindo caminho por aquilo tudo.
Na superfície, imperturbável, resoluta.
Por baixo, abatida, desatada, desfeita.

Com toda franqueza (e sei que agora estou reclamando demais), eu ainda estava me refazendo de Stalin, na Rússia. Da chamada segunda revolução - o assassinato de seu próprio povo.
E então veio Hitler.
Dizem que a guerra é a melhor amiga da morte, mas devo oferecer-lhe um ponto de vista diferente a esse respeito. Para mim, a guerra é como aquele novo chefe que espera o impossível. Olha por cima do ombro da gente e repete sem parar a mesma coisa: "Apronte logo isso, apronte logo isso." E aí a gente aumenta o trabalho. Faz o que tem que ser feito. Mas o chefe não agradece. Pede mais.

Muitas vezes, tento lembrar-me dos retalhos de beleza que também vi naqueles tempos. Revolvo minha biblioteca de histórias.
Na verdade, estou pegando uma agora.
Creio que você já sabe metade dela e, se vier comigo, eu lhe mostro o resto. Mostro-lhe a segunda metade de uma menina que roubava livros.
Sem saber, ela aguarda inúmeras coisas a que aludi há pouco, mas também espera por você.
Está carregando neve para um porão, imagine só.
Punhados de neve congelada são capazes de fazer quase qualquer um sorrir, mas não nos podem fazer esquecer.
Lá vem ela.

* * * * *


Uma pequena degustação do livro que estou lendo: A Menina que Roubava Livros, de Markus Zusak. Quem aprecia uma boa leitura, e ainda não leu este livro, deve ter ficado com água na boca.

7 comentários:

Marcello disse...

me empresta, me empresta!!!! e to falando sério, amigão! rs abraços

Paula Dórica disse...

Tá na fila esse aí há um tempo já. Sabia que era bom!!!!

Ana Luisa disse...

Cansei de ver a capa desse livro nas livrarias e nem quis saber de folhear. Preciso me ligar mais: como ninguém que eu conheço tinha lido pra poder recomendar, deixei de lado. Sabe, esse blog tá sendo uma boa fonte! Só coisa boa! rs Beijos

Sérgio disse...

Márcio, pra sua ciência: fiquei com a boca encharcada!! rs Acho que li numa resenha que a narradora é a Morte, certo? Saber disso pra mim não bastava, mas agora percebo que devo incluir na minha lista. E com muito, muito atraso! rs

Márcio Luiz Soares disse...

Você tem razão: quem narra é a Morte. Detalhe que acho interessante, bem sacado. Hum... acho q vou falar mais dele por aqui... rs

Anônimo disse...

precisa falar mais dele por aqui? acho q não precisa mais meu querido! rs to brincando! posta e deixa a gente morrendo de inveja! rs bjinhos Samantha

***Déia*** disse...

Oiii estava navengando pela net e me deparei com seu blog ^^
Muito bom!
O Livro é simplismente ótimo e lindo
Vale muito a pena ler esaber mais sobre essa menina fantástica:Lisel!!!
se der passa no meu depois ok?
bjs

Andréia