sábado, 27 de setembro de 2008

Razões






Eu sempre me achei bonitinha. Assim mesmo, no diminutivo. Na adolescência queria encantar meninos e meninas. Encantava os meninos para ganhar uns beijinhos, uns "amassos". Sempre gostei de beijar. As meninas eu nunca consegui encantar devidamente. Não como eu gostaria. Tinha poucas amigas. Amigas de verdade. Coleguinhas não valiam. Sei que algumas se aproximavam de mim porque sempre havia meninos por perto. Sempre sobravam coisas boas para elas. Não que eu dispensasse. Nem era preciso. Surgiam em bandos. Quem eu queria que fosse minha amiga, tomava distância. O tempo me mostrou o motivo. Um determinado jeitinho vulgar que demorei abandonar. As amizades artificiais foi o que me sobrou. Aproveitei como pude. Sem nulidades.

Cresci muito rápido. O corpo superou a inteligência. Os desejos muito mais. Os diversos pares de pernas na areia jogando futebol colaboraram. O par menos atraente sempre ficava por perto. Jorge. Gostava de ver como ele desviava o olhar quando eu o flagrava. Era divertido. Tanto quanto me fazer de bobinha. Ele era muito mais. Nunca percebeu que eu seria fácil. Seu amiguinho, Laerte, sempre foi mais audacioso. Fingia que não notava meus olhares. Numa festa de aniversário de Jorge, deixou de fingir durante um tempo. O tempo de uma brincadeira, um jogo. Foi o suficiente para eu perceber que ele queria tudo. De todos. Para si. Foi o que mais me atraiu. Ambição e obstinação num homem me atraem. Razão do meu fracasso.

Laerte me teve o tanto que quis. Na adolescência foi menos. Quanto mais amadurecia, mais me dominava. Mais eu fracassava. Sem ter consciência disso. Hoje tenho de sobra. Consciência. Fracassos se foram. Desilusões não. Minha eterna sina. Talvez.

A primeira veio de Laerte. Depois de muita farra, alegria, choro e um filho. Outros mais viriam. Seguidos de muita farra, alegria e choro. Fracassos também. Razões da minha solidão.

Por isso os fracassos se foram. Com eles a vulgaridade. Os desejos diminuíram. Teria sido melhor se eles não tivessem sido tantos. Se tivessem sido maiores que as ilusões. Ou se os desejos fossem outros. Havendo mais sonhos. Hoje vejo que meu sucesso foi não ter arrependimentos.

Um dia terei mais sonhos. A vida me mostrou isso. Ambições. Não como os de Laerte. Ele não aparece. Apenas seu dinheiro. Jorge instrui meus filhos no surf. Mas ele não me vê. Está preocupado demais em fazer o que julga ser correto.


Márcio Sclinder


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Esta é a segunda parte da trilogia Vozes.
Episódio 1 - O jogo
Episódio 3 - Desejos

7 comentários:

Marcello disse...

cara!! bacana tb! q é isso? percebi q é uma espécie de novela. é como uma continuação do outro texto do mesmo autor. legal, gostei. mas achei o primeiro mais interessante, a narrativa ficou mais atraente, sei lá. abcs

Marcello disse...

tava esquecendo, a figura tb é muito boa, td a ver!! demorei um pouquinho pra perceber, mas entendi a mensagem! boa! rs ah, outra coisa: primeira vez q vejo um texto escrito por um homem escrito na primeira pessoa como um personagem feminino. gostei disso tb.

Ana Luisa disse...

Que interessante - na minha época de escola havia algumas meninas como a personagem. Algumas aprenderam com a vida e se arrumaram bem. Enquanto outras se perderam cada vez mais. Depois que eu li os comentários do Marcello que percebi que é uma outra visão da outra historinha dele. Bem que eu tinha achado que o final me era familiar. Achei legal. Beijos

Sérgio disse...

Que legal. Quase a mesma narrativa, narrada, agora, por outro personagem. Gostei. Será que tem mais? Pra mim, parece que sim.

Márcio Luiz Soares disse...

Sérgio, isso mesmo, os mesmos personagens, e cada um contando alguma passagem entre eles, vividas na mesma época. E tem mais, como você bem observou.

Anônimo disse...

fiquei lerdinha, não tinha entendido q era uma continuação ou sei lá o q! kkkkk engraçado q já vi situação parecida com uma conhecida. qdo era mais nova ela gostava de um cara mais atirado e sabia q um amiguinho deles gostava dela mas nunca chegou junto. o cara q gostava dela tbem virou professor de um dos filhos dela. mas ele ta casado. e o pior essa conhecida sente uma atração por ele... bjinhos Samantha

Rosangela O Araujo disse...

Aqui fiquei na dúvida. Se você retratou a situação através de seu lado feminino ou se foi através da visão feminina de Eliana, abordando diversos fatores como: encantos e desencantos, sonhos, conquistas, amores, sucessos e fracassos. Independentemente disto, mostrou que os valores, comportamento e atitudes a todo tempo são questionados por nós mesmos ou ainda pela sociedade. Que muitas vezes isto aproxima as pessoas e, em outras, distância. O importante é que com o amadurecimento podem ser revistos. Que com o fracasso se aprende muito, porque isto obriga a um questionamento sobre a forma de “viver”, escolhas. Que o fato de tentar, mesmo talvez sem acertar, seja motivo suficiente para se considerar um VENCEDOR e não SER UM(a) ETERNO ARREPENDIDO(a). Linda também!!!! Tem mais???? Ou já é livro????? Beijos