domingo, 16 de agosto de 2009

Encontro literário






- Você foi no encontro literário, no SESC?

- Nas três noites. Foi muito interessante. É legal conhecer alguns escritores, saber como trabalham, como pensam, essas coisas.

- Verdade. Também gosto de conhecer esse meio. Foram quatro escritores, é isso? Eles estavam lançando livros?

- Cláudia Tajes, Marçal Aquino, Lourenço Mutarelli e Marcelino Freire. Não estavam lançando livros. Apenas fizeram comentários. Um comentava as obras do outro e assim por diante. E falavam dos seus próprios livros também, claro. Houve leituras de trechos, inclusive. E por causa disso tudo, logo no segundo dia, fui procurar um dos livros do Marçal Aquino, lá mesmo, na biblioteca. Aliás, estou “culpando” esse autor por me fazer ler quatro livros ao mesmo tempo. Um dele e outros três que eu já estava lendo. (risos)

- Quatro?!? Está lendo quatro livros juntos?

- Estou.

- Para de ler um e começa outro, mais interessante, ou nada disso?

- Não. Apenas dou um tempo, sem perder o interesse. Uma pausa. Dou um tempo em um, para ler outro e depois volto. Tem dia que leio um pela manhã e outro antes de dormir. Assim. (risos)

- Como consegue? Não atrapalha? Eu acho que não conseguiria. Acho que me confundiria ou só voltaria a ler um deles quando terminasse algum.

- Conseguiria sim, se tentasse. Você não assiste duas ou três novelas? É parecido. Mas entendo você. Eu também achava estranho quando ficava sabendo que outras pessoas faziam isso, e sempre achei interessante, mesmo assim. Faz quatro anos que peguei esse hábito pra valer. Não é sempre que ocorre, mas não evito. Geralmente são apenas dois livros.

- Conheço pessoas que devoram livros, mas assim já é demais! (risos).


* * *

Essa foi uma conversa que tive com minha amiga Rafaela pelo Google Talk. Na verdade, essa conversa aconteceu há poucos minutos. Eu estava pensando em comentar por aqui sobre um evento literário que o SESC de Campinas promoveu e resolvi colocar parte da conversa para começar. A Rafaela não é a única que acha isso estranho. Não acho que isso seja uma coisa absurda. É exatamente como a comparação que eu fiz. Simples. E quando se está lendo um livro didático ou complexo, é até melhor, ajuda a relaxar.

Quanto ao encontro literário, o SESC está de parabéns pela iniciativa. Esse evento teve o nome de Versões, que também tinha em seu cardápio um sarau antecedendo cada encontro. Foi um pouco tímido, poucas pessoas participaram e nem todos se levantaram para ler ao microfone. Mas o pouco de gente que foi também já é motivo para surpresas e satisfação, tendo em vista que esse tipo de sarau, em Campinas, aberto ao público, organizado por uma empresa principalmente, é bem raro.

De todos que se levantaram para fazer sua leitura, dividir com a plateia, apenas uma moça, Andréia, declamou sem ler, se valendo apenas da memória. Foi um poema magnífico de Augusto dos Anjos. Pena que não descobri o título. Também teve leitura de composições próprias, como o de um homem que leu (esse não memorizou, mesmo sendo dele) um curto poema escrito no guardanapo. Foi um momento engraçado, pois ele se esforçava para ler o que estava escrito – não decifrava sua própria letra! Sei como é isso, quando escrevo rápido, minha letra fica pior que letra de médico e nem eu entendo tudo de imediato.

Confesso que uma ou outra poesia eu não entendi muito bem. Senti a necessidade de ler e, assim, reler e refletir. Se eu tivesse anotado os títulos e seus autores, poderia procurar depois. Fico me xingando o tempo todo por não ter levado papel e caneta, justo eu que procuro sempre carregar essas ferramentas em determinados eventos. Um absurdo!

O encontro entre autores foi acima das minhas expectativas. Foi exatamente como o banner de divulgação do evento: “Versões é um projeto de curadoria compartilhada que promove o encontro e a crítica entre diversos escritores da literatura contemporânea brasileira. O SESC convida um autor que escolhe o trabalho de outro autor para comentar. As escolhas se interligam de forma a criar um panorama de nossa produção literária atual.”

Esse universo é muito interessante. Saber como funciona o processo criativo de cada um, seus preparativos, seus métodos, seus rituais e locais de trabalho, suas oficinas, desperta a curiosidade.

Marçal Aquino disse que, por gostar de ouvir a conversa alheia, o auxilia a escrever seus textos. Afirmou que não é bom para escrever diálogos, mas que presta muita atenção quando presencia certas conversas, apenas escutando, discretamente. Engraçado seu comentário de que adorava as linhas cruzadas no telefone, afinal a partir delas poderia sair algo para botar nos seus textos. Também falou que muitas vezes uma só palavra ou uma frase inspira a escrever. É dele o livro que peguei (correndo), na biblioteca do SESC, Cabeça a Prêmio. Provavelmente, vou comentar depois por aqui.

Também vou querer ler os livros dos outros escritores. Em breve, vou atrás do Cheiro do Ralo, de Lourenço Mutarelli. Esse inspirou um filme. Revi recentemente, e sei lá porque ainda não comentei no blog. Esse cara é uma figura. É um quadrinista conhecido (autor de Caixa de Areia, uma HQ simplesmente estupenda), mas se cansou dessa arte e resolveu se entregar de vez à literatura. Disse que escreve melhor com uma garrafa de bebida do lado e ouvindo música concreta o tempo todo. E que depois de participar do Cheiro do Ralo, como ator, e não como roteirista, descobriu mais essa veia artística e mergulhou de cabeça nesse ofício também.

Esse encontro durou três noites seguidas. Espero que tenha outras Versões, pois deixou a plateia com “gostinho de quero mais”. Sou tão guloso por esse tipo de evento que esse “gostinho” nunca vai cessar.



Márcio Luiz Soares
* * *
Ilustração de Juan Gris, Book, Pipe and Glasses (1915)

4 comentários:

Marcello disse...

Cara, aqui em sampa sempre rola algo do gênero, vc sabe, sei de alguns promovidos por grupos de leitura, bem maneiro. tb to nessa de ler vários livros juntos e é tranquilo. tenho curiosidade de ver o Cheiro do Ralo, parece interessante. conta aqui qualquer dia, como vc escrevia os textos da facul! rs deve ser parecido qdo escreve outras coisas, não sei como vc consegue!! rs não deve ser muito diferente do Lourenço Mutareli, não...kkkkkkkkk
abraços

Anônimo disse...

legal esses assuntos. gosto de sarau, de entrevista com escritor, to doida pra ir no festival de Paraty e sou devoradora de livros, mas um de cada vez! rs concordo com vc, acompanho duas novelas, minisséries qdo tem, seriados q tem continuação como lost e 24 horas, então ler dois, tres livros ao mesmo tempo deve ser tranquilo, só acho q devem ser de temas diferentes. um barato esse lance do Marçal ficar escutando as conversas, tem muito gente q faz isso, mas não escreve uma linha, mas o q fofoca!! hahaha
beijinhos Samantha

Sérgio disse...

Queria estar no seu lugar: conhecer o roteirista Marçal Aquino e o cara que escreveu o "O cheiro do Ralo" é de dar inveja. Não li o livro, mas gostei muito do filme que tem uma história que é uma grande doidera, mas é muito legal. Os personagens não tem nada de surreal, se for pensar bem.
Agora doido é você que lê tanto livro assim desse jeito, como se fossem várias novelas! rs Apesar de que também fiz muito disso na faculdade de jornalismo (lendo um ou dois livros acadêmicos nas pesquisas e montando trabalhos e, para relaxar, lia um de ficção ou uma biografia dentro do ônibus, indo para a faculdade, só pra relaxar!rs), mas hoje não faço mais isso. Acho que é por causa da curiosidade e da vontade de acabar logo.
Se tiver outro evento desse, avise, quem sabe não dou uma escapada até Campinas?
abraços

Ana Luisa disse...

Não sei se concordo com você, comparando com ver novelas. Acho que na leitura a gente se aprofunda mais, se envolve mais e isso faz com que a gente apresse a leitura para saber qual a conclusão. Não sei se conseguiria dar um tempo num livro e ler outro. Já parei de ler um e voltei depois de muito tempo, muitos livros depois, porque estava chato ou porque tinha que devolver pra biblioteca! rs Mas vou tentar pra ver como é.
Quanto ao sarau, é bom demais isso. E esses encontros, são tão raros! Sinto esse "gostinho de quero mais" sempre que algum evento desse termina. Pena que o interesse em promovê-los é tão pequeno. Vale a pena até pagar por eles.
Beijos