domingo, 30 de agosto de 2009

Um homem provisório



Você já pensou em ser pai, Brito?
Então era isso? Ele quase riu enquanto apertava a tecla do controle-remoto e desligava a TV.
Brito não ligava para crianças. Não era uma questão de gostar ou não gostar: não se importava com elas. Mas sabia que não queria ser pai.
Já pensei, sim.
E?
Não quero ter filhos.
Marlene raspou o fundo do pote com a colher. E estreitou ainda mais os olhos. Brito não conhecia a expressão que viu em seu rosto.
É definitivo?
É.
Ela levou o pote de sorvete para a cozinha. Quando retornou, deitou se no sofá e apoiou a cabeça no colo de Brito. Ele pensou que Marlene fosse chorar. Mas ela sorriu. Olhando nos olhos dele.
E se eu pedisse?
Brito pôs o dedo sobre uma pinta no pescoço dela.
Você pediria mesmo sabendo que eu não quero?
Não, Marlene disse.
Continuava sorrindo.
Brito se recordava com freqüência dessa conversa. A trinca na represa. Às vezes achava que deveria ter explicado suas razões. Poderia morrer a qualquer momento. Fazia parte, acontecia todos os dias com gente que ele conhecia. Achava que vivia o tempo todo na condição de homem com os dias contados. Um homem provisório.
Se pensasse numa escala de felicidade, Marlene diria que ela e Brito tinham descido para o nível seis. Quando foram para a cama naquela noite, ela comentou que fazia dez meses que estavam juntos.
Eu sei, Brito disse.
E saiu da cama para pegar o presente que comprara para ela três dias antes. Uma caixinha de música. Com um tema que Marlene gostava de assobiar. Uma valsa.
Fizeram amor. Sem proteção nenhuma, como vinha acontecendo havia meses. Brito não tinha como saber, mas foi a penúltima vez que isso aconteceu.
* * *

Extraído do livro Cabeça a prêmio, de Marçal Aquino.
Foto de Sebi Messina, Lonely Walking Man (2003)

3 comentários:

Bela disse...

Coisas de casal...
Abraços moço ;)

Ana Luisa disse...

Gostei disso! Um homem provisório. Um homem de riscos, pelo jeito. Também achei interessante o nível de felicidade. Vou medir o meu, quando estiver namorando! rs
Beijos

Samantha disse...

meu querido, fico cobiçando os livros q vc lê! rs pelo q entendi o cara não queria ter filho pq pode morrer a qq momento e deixar mãe e filho desamparados, dá pra considerar como uma atitude nobre, não? não sei, talvez nunca acontecesse, não dá pra saber, mas pra q correr riscos, não? beijinhos