segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Um povo que não lê






Não é apenas por ser adepto do Consumo Consciente que nos últimos anos tenho ido ao trabalho de micro-ônibus e na volta para casa faço uma boa caminhada. Afinal, com a vida sedentária que levo, vem bem a calhar. E com a vantagem de não morar muito longe do trabalho.

Como moro perto do ponto final, sempre sento bem no fundo. E hoje aconteceu uma coisa engraçada. São cinco bancos, um ao lado do outro. Normalmente, o micro-ônibus não lota, porém, os passageiros preferem sentar no fundo também. Sendo assim, logo tive como vizinhos, da esquerda para a direita: uma moça, um rapaz, um senhor idoso e outra moça. Aconteceu que a moça ao meu lado estava lendo um livro; o rapaz também. E eu. Os três usando fone de ouvido. Imagine a cena. Um do ladinho do outro! Não tive como conter o riso. No entanto, isso é um bom sinal, já que muitos consideram que o povo brasileiro não tem o hábito da leitura.

Um amigo me contou que não consegue mais andar de ônibus sem ler alguma coisa, desde que dê pra ir sentado, claro. Falei pra ele que também estou nessa e, exagerando, emendei que só não leio bula de remédio por causa do tamanho da letra. Com o balanço e letra minúscula, não dá, né?

Raramente encontro alguém lendo no transporte público, mas tenho notado que muitas pessoas estão lendo o jornal Já (uma publicação de linguagem muito popular, de circulação diária, impressa no formato tablóide, aqui de Campinas). Outro dia, contei oito pessoas lendo. Sem contar aquelas que esticavam o pescoço. Até que está bom, para um país que não lê.

Outro dia, dentro do micro-ônibus também, vi um homem lendo a revista Você S/A, de pé, usando terno e uma maleta executiva a tiracolo que insistia em balançar e bater no ombro de uma senhora - ela perguntou duas vezes se queria que ela levasse a maleta para ele - e ele, educadamente, insistiu em recusar... E a pasta batendo no ombro da mulher... Aquilo estava me irritando. Ele parecia muito interessado na revista. Num país que não lê.

Na verdade, esse pessoalzinho todo estava aproveitando bem o tempo. Procuro aproveitar para ler em qualquer lugar onde normalmente ficaria ocioso. Quando vou ao banco, levo algo pra ler na fila. Se vou pagar uma conta numa loja, mesma coisa. E no banheiro de casa, então? Se não é revista de filme é gibi da Mônica.

E ainda estou lendo quatro livros, pode isso?! Aliás, estou enrolando muito para terminar todos eles. Vagabundagem minha mesmo. Estou com o péssimo hábito de ler só dentro do micro-ônibus, indo ao trabalho. Cato um dos quatro e vamo’bora! No resto dos dias e no fim de semana: só rua, internet e televisão.

E ainda tenho a cara de pau de pedir dicas de leitura aos amigos. Mas devia evitar, porque pretendo ler logo a série A Torre Negra, do Stephen King (O Pistoleiro, o primeiro volume, é um dos quatro que estou lendo). Se a minha amiga Vivien ler isto vai ficar arrasada: foi ela que me deu de presente o primeiro volume. Detalhe: em fevereiro de 2005!

E olha que o livro é muito interessante - é um gênero que curto pacas: fantasia (no estilo de Senhor dos Anéis e lendas do Rei Arthur) – misturado com faroeste.

Que nada, amigos, mandem as dicas, assim engordo a minha lista. Num país que não lê.



Márcio Luiz Soares

* * *
Foto de Paul Gardner, do álbum A Walk Through London II.
[Claro que a foto não foi feita no Brasil]

10 comentários:

Armando Maynard disse...

Caro Márcio,Interessante é que até eu terminar o texto, você me fez pensar que a foto usada na postagem, era do seu ônibus e que você tinha tirado quando desceu no ponto. Se essa era a sua intenção, comigo funcionou. Um abraço, Armando.

Sérgio disse...

Assim como você, optei em ir ao trabalho por meio do transporte público pensando na preservação do meio ambiente. Para nós, ainda é possível, então a gente colabora. E por força disso, também criei o hábito de ler no ônibus - leio a Veja toda assim. Dei muita risada, imaginando a cena, dos três "um do ladinho do outro" lendo e ouvindo música, deve ter parecido, aos outros, que foi combinado entre vocês! rs
abraços

Anônimo disse...

meu querido, como vc conseguiu ficar esse tempo todo sem ler a torre negra?!?!? rs é demais! essa tua amiga devia lhe dar um croing na sua cabeça! kkkk acho legal quem se esforça pra preservar o meio ambiente, muitas vezes é tão fácil ajudar, é só querer. qto a ler no onibus, até já tentei, mas fico zonzinha!! kkkkk já o fones de ouvido, não vivo sem eles!! acho tbem q se for fazer um outro levantamento o povo brasileiro já tá lendo um pouco mais a cada ano, não tá não? beijinhos Samantha

Marcello disse...

Marcião, fiquei imaginando vcs tres! engraçado mesmo. mas mais do q engraçado, raro! tb tenho observado por aqui, em Sampa, q o povo tá lendo mais no transporte público. claro q vc não quis dizer q é só no onibus q tá aumentando os leitores, mas tenho observado muito disso nas lanchonetes, praças e com gente jovem. isso é bom. e qto a lista, vc é q abastece a gente, to sentindo falta de comentários mais detalhados dos livros q vc lê, cadê?! rs e parabéns por ser adepto do consumo consciente, desde q te conheço vc procurou ser assim, qdo nem se falava tanto disso. e faltou dizer q andar de onibus alem de contribuir com a preservação do meio ambiente (se conseguir aceitar a crueldade do transporte coletivo rs) é mais econômico! rs abraços

Gabriela Angeli disse...

Ainda me surpreendo quando alguém me fala que odeia ler, mas não tenho toda essa habilidade em ler dentro de um ônibus ou qualquer coisa em movimento... rs

Estou a ler dois livros, um de ficção e outro de crônicas (pela milésima vez). Se quiser vale a pena: As cem melhores crônicas brasileiras. Os textos são curtos e dá para você alterar com as outras obras. Homem no Mar, do Rubem Braga, é simplesmente fantástica.

Beijos!
Gabi.

.ana disse...

gostei mt desse teu post, e sabe... tb tenho reparado em bastante gente lendo no ônibus, no trem... não sei se é por falta de tempo, então estão fazendo isso ali mesmo, ou se é por gostar mt da coisa.
eu adoro ler, mas tem que ser em casa, quietinha. barulho me desconcentra. gente demais ao redor tb. e tenho ainda resquícios da infância: eu enjoava nas viagens qd tentava ler algo, nem que fosse um gibi [da mônica, que tb adoro]. heheheheh

bjos!

Paula disse...

Ah!! Quando se fala em leitura em ônibus, lembro-me muito bem das muitas broncas que já tomei, principalmente de senhoras que insistem em dizer que o ato provoca descolamento (ou deslocamento?) de retina. Afff, como se encontram médicos por aí. rsrs

Ana Luisa disse...

Interessante as suas comparações. Também percebi que o brasileiro está lendo mais, que muitos jovens estão procurando a leitura, apesar da internet. Também criei o hábito de ler no ônibus, indo ao trabalho, mas é num fretado, mais tranquilo, que balança pouco. Aproveito para colocar minhas leituras de revistas em dia. Também já me diverti com as pessoas que esticam os pescoços para tentar ler e fiquei pensando se algum desses seus vizinhos de banco não sacou um livro de propósito, só para parecer engraçado. Vou mandar uma lista enorme de dicas de leitura pra você ficar babando! rs
Beijos

Thiago Daniel disse...

Oi...
dando uma olhada em alguns blogs encontrei o de vocês...
achei muito interessante os textos de vocês, são temas que estão no nosso cotidiano e que não percebemos...
Peço licença para continuar seguindo o blog...
Abraços!!!
Thiago.

Jacqueline disse...

Oi Marcio...
lembrei da letra de uma música que,tenho certeza, curtirá. Bjos

Cicatrizes
(Paulo César Pinheiro/Miltinho)

Amor que nunca cicatriza
Ao menos ameniza a dor
Que a vida não amenizou
Que a vida a dor domina
Arrasa e arruina
Depois passa por cima a dor
Em busca de outro amor

Acho que estou
Pedindo uma coisa normal
Felicidade é um bem natural
Uma, qualquer uma
Que pelo menos dure enquanto é carnaval
Apenas uma, qualquer uma
Não faça bem mas que também não faça mal

Meu coração precisa
Ao menos amenizar a dor
Que a vida não amenizou
Que a vida a dor domina
Arrasa e arruina
Depois passa por cima a dor
Em busca de outro amor.