sexta-feira, 6 de junho de 2008

Volta a teus deuses profundos


Volta a teus deuses profundos;
estão intactos,
estão ao fundo com suas chamas esperando;
nenhum sopro do tempo as apaga.
Os silenciosos deuses práticos
ocultos na porosidade das coisas.
Hás rodado no mundo mais que nenhum calhau;
perdeste teu nome, tua cidade,
assíduo a visões fragmentarias;
de tantas horas que reténs?
A música de ser é destoante
porém a vida continua
e certos acordes prevalecem.
A terra é redonda por desejo
de tanto gravitar;
a terra arredondará todas as coisas
cada uma a seu término.
De tantas viagens pelo mar
de tantas noites ao pé de tua lâmpada,
só estas vozes te circundam;
decifra nelas o eco de teus deuses;
estão intactos,
estão cruzando mudos com seus olhos de peixes
ao fundo de teu sangue.

Eugenio Montejo
(1938-2008)

2 comentários:

Ana Luisa disse...

Este autor eu tbem não conhecia. Que belo tratamento ele deu à matéria! No ponto. Parabéns pelo achado.

Marcello disse...

meu, vim reler este, pra ver se o outro sai da minha cabeça!! kkkkk acabei percebendo q não tinha comentado. q qualidade tem esse blog! muito bom!